Retirou aquelas velhas peças do armário - empoeiradas, amassadas, desamadas. Todas. Um dia já haviam sido tão queridas quanto qualquer outro ser humano - matou-se para estar dentro delas. Matou-se a essência, o cheiro, o ser. Uma vez na cama, foram todas provadas: provas imóveis de que a beleza é transeunte, passageira que, em doses pequenas, vai aparecendo na nossa vida, no nosso espelho. Uma a uma foram sendo rejeitadas - o zíper que não fechava, o botão que não abotoava. Eram, hoje, peças inúteis de uma vida antiga. Doía? Perguntou-lhe o ego. Talvez tenha doído em algum momento. Desapegar-se de quem a gente já foi é algo difícil, mas nada que uma dose diária de amor própria não cure.
Observando as pequenas - realmente pequenas - peças agora cuidadosamente dobradas no guarda-roupa, se deu conta de todas as carnes que foram cortadas para que aquele pequenino ser tivesse um dia sido realidade. Lembrou das contas, dos chocolates não comidos, das lágrimas que contavam calorias.
Afastou cada uma das bermudas, saias e vestidos para o canto da menteadeira, afastou as lembranças, os falsos sorrisos e a felicidade ao comprar cada uma daquelas inutilidades hoje tão óbvias - hoje tão pequenas. Pequenas pra caber em seu grande amor, em seu grande sorriso, em sua grande beleza. Beleza única, resplandescente. Talvez que não conseguisse agradar a todos, mas soubesse exatamente como agradar a si mesma.
O preço pago pela pequenez que um dia sentiu em seu próprio corpo não havia valido a pena - era sacrifício diário, regado por pão, água e burcite. A felicidade, forçadamente colocada no meio do caminho como um faca, a rasgou penetrando sua fina carne, mas, como diz o poeta; "A estrada é uma espada. A sua lâmina rasga o corpo da terra. Não tarda a nossa nação seja um emaranhado de cicatrizes, um mapa feito de tantos golpes que nos orgulharemos mais das feridas que do intacto corpo que ainda conseguimos salvar" (Mulheres de cinzas, Mia Couto).
Às vezes, o que vale mais são as cicatrizes do que nos mantermos inteiras e intactas às lutas da vida. Uma vez encarada de frente, esta não pode mais ser desencarada. Não deixa de ser vista, de ser sentida e cheia da felicidade plena do ser si mesmo. Empoeiradas, gordas, sozinhas ou não, sejamos quem podemos ser na plenitude de nossas almas remendadas e completamente únicas.

