quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Libertatem

Retirou aquelas velhas peças do armário - empoeiradas, amassadas, desamadas. Todas. Um dia já haviam sido tão queridas quanto qualquer outro ser humano - matou-se para estar dentro delas. Matou-se a essência, o cheiro, o ser. Uma vez na cama, foram todas provadas: provas imóveis de que a beleza é transeunte, passageira que, em doses pequenas, vai aparecendo na nossa vida, no nosso espelho. Uma a uma foram sendo rejeitadas - o zíper que não fechava, o botão que não abotoava. Eram, hoje, peças inúteis de uma vida antiga. Doía? Perguntou-lhe o ego. Talvez tenha doído em algum momento. Desapegar-se de quem a gente já foi é algo difícil, mas nada que uma dose diária de amor própria não cure. 
Observando as pequenas - realmente pequenas - peças agora cuidadosamente dobradas no guarda-roupa, se deu conta de todas as carnes que foram cortadas para que aquele pequenino ser tivesse um dia sido realidade. Lembrou das contas, dos chocolates não comidos, das lágrimas que contavam calorias.
Afastou cada uma das bermudas, saias e vestidos para o canto da menteadeira, afastou as lembranças, os falsos sorrisos e a felicidade ao comprar cada uma daquelas inutilidades hoje tão óbvias - hoje tão pequenas. Pequenas pra caber em seu grande amor, em seu grande sorriso, em sua grande beleza. Beleza única, resplandescente. Talvez que não conseguisse agradar a todos, mas soubesse exatamente como agradar a si mesma.
O preço pago pela pequenez que um dia sentiu em seu próprio corpo não havia valido a pena - era sacrifício diário, regado por pão, água e burcite. A felicidade, forçadamente colocada no meio do caminho como um faca, a rasgou penetrando sua fina carne, mas, como diz o poeta; "A estrada é uma espada. A sua lâmina rasga o corpo da terra. Não tarda a nossa nação seja um emaranhado de cicatrizes, um mapa feito de tantos golpes que nos orgulharemos mais das feridas que do intacto corpo que ainda conseguimos salvar" (Mulheres de cinzas, Mia Couto). 
Às vezes, o que vale mais são as cicatrizes do que nos mantermos inteiras e intactas às lutas da vida. Uma vez encarada de frente, esta não pode mais ser desencarada. Não deixa de ser vista, de ser sentida e cheia da felicidade plena do ser si mesmo. Empoeiradas, gordas, sozinhas ou não, sejamos quem podemos ser na plenitude de nossas almas remendadas e completamente únicas. 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Não se nasce feminista, torna-se (?)

Não precisava ser cientista pra saber que aquela reação era apenas o resultado da ação de duas forças iguais e opostas. Opostamente horizontais e igualmente anulativas, forças que não poderiam ser mais diferentes - uma lutando por equidade, justiça, e a outra, por opressão e perpetuação da desigualdade. Mais uma vez, para cientistas, essa análise pode parecer simples, elementar, fácil de ser concluída - as forças, muito provavelmente, se anulam. No entanto, esses são fenômenos da vida real, coisas do cotidiano, forças que constantemente se enfrentam, mas em situações em que vejo a opressora vencer ou subpujar a tal que quer justiça.  Não é tão simples quanto parece para a física ou a matemática - aqui os vetores não podem simplesmente ser calculados, eles precisam ser visualizados, debatidos, medidos e, principalmente, precisam convencer. Convencer toda uma sociedade de que matar mulheres é errado. De que o ódio a esses seres humanos julgados pelo gênero, pela classe e pela cor da pele não é um tipo de violência que pode ser julgado apenas como violência - tem que ser discriminado como violência de gênero, como matar mulher, como feminicídio. 
Na vida, longe dos números e perto dos humanos, percebemos a cada dia o quão difícil é compreender a lógica dos nossos semelhantes que parecem tão diferentes a cada palavra que trocamos na rua, no elevador. Quão difícil é compreender que a violência de gênero é algo diferente, é uma vertente, é um destrinchamento da própria violência em toda sua grandeza deplorável? Assumir que isso existe não fará com que passe, mas é um primeiro passo para que o problema possa ser resolvido em conjunto com a sociedade.
"Não se nasce mulher, torna-se", disse Simone. Poderíamos, então, dizer que não se nasce feminista, torna-se? Que, apesar de todos os dias sofrermos violências no trabalho, nas escolas e universidades, nas ruas, nas praças, apesar de sermos humilhadas e julgadas, não percebemos que devemos lutar umas ao lado das outras logo no instante em que nascemos e que isso é algo que tomamos consciência e que assumimos e nos tornamos com o tempo? Podemos dizer que a violência, essa tão presente em nosso dia a dia, que nos camufla, silencia, machuca e agonia, nos faz ignorar que o feminismo é importante, libertário e guerreiro? Sim. A violência do Estado comandado por homens, homens que governam as casas, que lideram as empresas e que comandam as reitorias das universidades. A violência que nos cerca e nos dita as regras diariamente, seja de forma simbólica, como aponta Bourdieu, ou mesmo de forma bastante enfática como vemos nos noticiários - "Homem mata ex-mulher por ciúmes", "Padastro é preso por estuprar enteadas", entre chamadas piores. 
Portanto, não se nasce feminista, torna-se. É algo natural e é um processo de identificação que vem com as nossas próprias experiências sejam elas boas - nós procurando o feminismo por vontade própria - ou ele vindo até nós - porque precisamos nos libertar de um relacionamento abusivo, de um chefe que nos assedia ou de uma economia que nos oprime. Pois, como os dizeres populares, mulheres são como águas que crescem quando se juntam. 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Aleatório

As cordas encostavam em seus dedos como mágica - não parecia realmente algo racional, como se ela pensasse qual nota viria a seguir, só seguia. A correnteza de seus sentimentos conturbados não mais se seguia só, a inteiridão do seu ser único apenas era, apenas existia - era como estar, só que diferente, mais pleno e completo. A plenitude da imensidão que caminhava dentro dela mesma era tanta que poderia transbordar... Transbordar plenitude? Transbordar sentimento. Transbordar ser, mas tendo sempre em mente que as cordas, aquelas tocadas do início ao fim da música, ainda lhe pertenciam, ainda lhe eram e soavam. 
O tilintar dos fás no ar, as continuidades que pareciam ter um fim a cada esquina, fim que persistia, mas não continuava o mesmo - mudava o tilintar. O encostar de cada nota em seu delicado ouvido a fazia ter certeza de que tinha tomado a decisão certa, o sim acima do talvez.
Cada mi representava mais um segundo da pequena libertação diária que há muitos anos não experimentava. A dependência da próxima nota sempre pareceu próxima. Mas e quando toca-se no aleatório? Quando as mãos, simples e puramente, encontram as bem delineadas cordas do violão e seguem seu caminho descompassado, mas só seu? 
O ar, aquele que lhe bateu o rosto, demonstrou saber mais dela do que as próprias notas do torto destino. Era ar de pureza e uniquez. Um algo mais, algo além do que a própria Julie poderia supor que aquele violão queria que ela encontrasse. Era ar novo, fresco e renovador. Renortador. Único. Único como suas mãos, seus desejos e sua capacidade de seguir em frente - numa playlist tão complexa como essa, a única maneira de continuar foi colocando no aleatório.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Como a ruína me fez livre

Nem sempre a liberdade vem com aquele gostinho de chocolate que a gente imaginava - às vezes, é só com o amargo do café que o despertar pode ser completo. Mas, veja bem, não é apenas pela dor que há mudança, como muitos dizem. Na verdade, o que acontece realmente é que em meio a tantas coisas ruins, a tantos baixos e poucos altos, a gente não consegue enxergar aquele progresso que no início de tudo era tão importante pra gente. Aquele passo adiante que parecia tão distante, mas era essencial pra felicidade e pra plenitude e que se perdeu no meio dos contratempos de um ano conturbado. 
Mesmo em meio à ruínas, a liberdade ainda é fresca. É aquele vento que bate no rosto. O tênis que ecoa na pista. A perda da respiração. O estar ofegante, mas possuir o tudo dentro de si mesma porque todas as angústias do ser você ficaram para trás - não só as angústias, mas as felicidades também. Ali, na pista, é só você, nua e crua. Nada além espasmo, não nervoso, aliviado.
Frescas e renovadas, não precisamos mais de ar, de tempo, de pausa. Não precisamos nos livrar daqueles problemas intermináveis ou daquelas contas que não param de chegar. Não precisamos gritar, xingar, fugir. Tudo ficou na pista. E, toda ruína de um ano perdido, então pareceu renovada também, não tão arruinada, não tão doída, não tão amarga. Talvez o pouco de bom que tenha havido tenha sido o suficiente. 

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Cássia sempre esteve certa


... E continua a acertar ainda hoje. Sou tremendamente contra postagens pessoais como esta que vos fala, mas acho que, às vezes, elas são necessárias. Às vezes, as melhores lágrimas são aquelas que compartilhamos - seja por tristeza mútua ou apenas por companheirismo tristonho. Lágrimas bem choradas podem levar nossa dor embora ou grande parte dela... Podem parecer só clichês a primeira vez (e talvez sejam), mas que tristeza é feita de originalidade? Términos são, de uma forma geral, bastante tristes. Mesmo aqueles que acabam de forma gradual, se esvaindo aos poucos, são imensamente dolorosos porque, em algum momento daquele relacionamento agora oco, já houve amor. Talvez até ainda haja - mas não há mais cumplicidade, amizade ou sonhos. E dai acaba. É um processo, mas não deixa de ser extremamente lamentável. 
Não sou o tipo de pessoa que acha que tudo tem um final, "que o pra sempre sempre acaba" (foi mal, Cássia, nessa eu discordo). Se eu achasse isso, estaria contraindo completamente tudo o que minha religião prega e eu certamente acredito na minha religião. No entanto, acho que, talvez, existam coisas que simplesmente não "devem ser". Sabe? Aquele tipo de coisa que começa e, quando a gente menos percebe, já sacou que tem prazo de validade? E não estou falando apenas de relacionamentos em que o sexo está envolvido - isso vai muito além. É um sentimento que pode se estender para amigos e até para família. 
Considerando que nossas almas são eternas, não dá pra saber se determinados términos durarão para sempre, mas dá pra sentir quando eles vão valer para aquela encarnação, no mínimo. É triste, mas acontece como tudo na vida. 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Desespero

Se ela não fizesse nada o que ia acontecer? Ia perdê-lo? Seus olhos, aqueles que eram pra ver, não viram. Suas mãos apenas sentiam - era febre. Tão pequenininho. Miudinho. O coração doía ao ver seu delicado rosto contorcido. 
Uma imagem, uma frase - "eu não o quero" - vieram a sua mente. Era tanta juventude naquela época que transbordava, que transbordou e virou mais vida. Por que tinha que acontecer com ela? Pra que estragar sua vida? Mas aconteceu. Era real. Pariu. Naquelas paredes estreitas e com a ajuda da mãe. Um parto sem parto - uma juventude interrompida. Um rostinho. Um choro. E um sorriso - não se nasce mãe, torna-se. Era coisa nova, surpresa. Não imaginava que ia se sentir assim - sua vida não estava indo por água abaixo? E a faculdade que nem alcançara ainda?  E o bom emprego? Olhando aquele rostinho pequeno que a olhava de volta, encontrou um motivo para ir em frente. Um motivo que estava escorregando por suas mãos - que ia embora se ela não agisse. 
- Como assim não tem médico?
Não viu. Só jogou. Só ouviu o banco bater na janela. Só ouviu as pessoas pedindo que se acalmasse. Alguém chamando a polícia. Alguém ligando o celular.
Um click. Uma cela. Lá dentro, chorou. O alívio a corroía - foi atendido. Foi salvo. Viveu. E agora ela podia viver também. Mesmo que o sol fosse nascer quadrado. 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Chacina

Quente no chão frio, escorregadia naquela vida que parecia morte. Mas não era - estava bem viva. Poderia sentir o líquido quente e pegajoso escorrer por suas pernas. Podia sentir o ar impregnado em seu rosto, o suor que emaranhava seus cabelos e o sabor amargo do desespero que se dissolvia lentamente em sua língua. Era cortante - um grito surdo preso em sua garganta. Cortante e entorpecido, irrompia por sua alma, dividindo-a em duas -  a que já havia morrido e a que não queria mais viver. Morta. Queria estar morta. As paredes que a cercavam eram escorregadias, escuras - arranhas, ensanguentadas cobertas por outros corpos, outras carnes. Unhas que arranharam, cabelos arrancados, roupas despedaçadas. Mas não eram feitas de concreto: eram grades de sofrimento, eram gente. Social. Patriarcal. Era chacina. Era mulher. Assassinato que, cometido de dentro pra fora, ainda deixava o corpo vivo pra poder sofrer constantemente com a presença que já não estava mais ali. Morta. Mas não estava - estava ali. Estava viva. Zumbi. E lutaria. Sem forças. Lutaria. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Drone

De uma crença desacreditada brota uma flor sem esperança - sem saber se um novo dia nasceria, se aquele céu coberto de cinza iria sobreviver. Um não saber doentio que nada mais era além da ignorância tenra da não idade - desidade porque não tinha como envelhecer numa terra com cheiro de morte. Descrença. Desvivença. Desmensidão. Era grande, mas ninguém se cabia ali. Quem caberia se parecia que Deus não era um só, mas era muitos e todos se odiavam? Todos pensavam ser únicos e soberanos? Reinavam solenemente uns sob (re) os outros. Caminhando, matando, explodindo - quando não eram explodidos. As casas que voavam em nome de Deus - santo nome que nem sabia porque matavam, só sabiam porque morriam. Sabiam? Nada. O corre corre que mais tarde desembocava num beco sem saída, redondo, circunçuoso, infinito. Saída que não existia porque não existia saída. Só existia Deus. Será que Deus existia? O caos que imperava no meio do deserto, dos destroços, das crianças. Velhos ali não tinha - não tinha idade pra envelhecer. Não tinha tempo - relógio mesmo era só o da bomba. 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Resplandecente

Não parecia nada demais a olhos nus - como se, realmente, o "essencial fosse invisível aos olhos". Talvez nesse ponto específico aquele egoístico príncipe estivesse com a razão. Mas a pequenês, invisível, risível, incrível nada mais era do que a essência de algo que jamais poderia ser visto pelos tolos - como aquela tal roupa do rei.
Eram fios soltos de uma ponta que não poderia ser encontrada por qualquer um, como se o mundo todo se unisse para procurar uma finalidade que não existia de fato. Mas existia. E estava ali. O brilho que ofusca o sol não pode jamais estar onde os cegos não conseguem ver... Desperdício. 
Mais que real as resplandecentes pedrinhas que estavam no caminho, mas não de Drummond. Algo que se podia colher e não se precisava pular. Que acrescentava, somava, ganhava. Uma vida que não necessariamente dependia das outras pra viver, mas que sabia que, muitas vezes, era melhor ter uns folks por perto pra aquecer o coração com um sanduíche.
Resplandecente.  Incrente. Incrível. Não crível de tão decente. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A dor precisa ser sentida

Não se lembrava de onde viera aquele conselho - poderia ser das páginas de um livro, dos versos de uma música ou das estrofes de um poema... A verdade é que era real: a dor precisava ser sentida. Não necessariamente o tempo todo, mas por um tempo. Era como as lágrimas da chuva que lavavam a alma mesmo que não parecesse que precisava ser levada. 
Seus olhos fitavam um céu escuro e amargo que não sabia dizer que horas eram. Tanta nuvem, tanto escuro que não dava pra imaginar o que viria a seguir - era a cara da vida. Não que precisasse ser assim. Caminhando pela estrada pedregosa, sentiu a gota que rolava por seu ombro parar. Parou porque não fazia sentido rolar quando o que poderia ser lavado nem ao menos estava ali. Como um sonho ruim, imaginou que aquilo era coisa da sua cabeça, que a lágrima não tinha parado ali. Mas parou. 
Novamente, se virou para cima e observou a imensidão que expressava tanto com tão poucas palavras - palavras, sim, porque o dizer pode estar implícito no olhar. A dor precisava ser sentida. Não como a felicidade ou a satisfação, que duravam um segundo ou a vida toda. Precisava ser um reflexo do ser e não do estar, mesmo que por alguns minutos. Lágrimas sinceras eram melhor do que um nada pouco espontâneo.
Quando olhou para si mesma e viu o que tinha acontecido, chorou. Não porque sabia que era irreversível ou porque seria lembrada com amor e compaixão. Mas porque a dor, infelizmente sentida em sua totalidade, acabara. Deixara de existir num suspirar de passarinho e ela, enfim livre de um tormento que durou alguns minutos, não teria que conviver com dor eterna. Não era dor que merecia ser sentida. Agora estava livre. 


(A dor, minhas irmãs, precisa ser sentida por quem fica. Sentida e lembrada para que a luta jamais perda o sentido - porque é por isso que nós lutamos com força e coragem).

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Protagonista de uma outra história

Olhares. O mexer lento das mãos. Tudo fluindo pelo conduzir da melodia das flautas - o fluir... Um dançar mágico que conseguia transportar qualquer um para outra dimensão. A sensação de dor na expressão do rosto dele era tão nítida e palpável... A distância não era importante num palco que permitia que você sentisse tudo o que eles sentiam - as lágrimas ecoando pela melodia cadenciada. Tocando uma cultura, os tambores não pareciam reais, assim como a boneca que contava a história: Lobato a teria invejado em seus traços perfeitamente desenhados e seus gestos tão elaborados, delicadamente programados para parecerem reais. Parecia viva ao mesmo tempo em que parecia boneca.
As flores de cerejeira que caíram sobre o chão, tão delicadas e duas, traziam para dentro dos corações o início de uma lufada de amor que seria encenada do início ao fim. Era o teatro Kabuki: uma forma de encenar tão única e nobre quanto qualquer outra e capaz de provar que palavra e idioma não são necessários para se compreender um sentimento. Uma bravura sem igual dominava a a quase protagonista: uma bela japones num quimono rosa. Seu príncipe (o "real" protagonista, que interpretava também o vilão e o sacerdote) havia ficado cego por um terrível encantamento e cabia a ela salvá-lo.
Sem pensar duas vezes e com uma coragem diariamente encontrada pelo gênero feminino, ela partiu. Armada de sua bravura e de seu protagonismo que ia, a cada segundo, emergindo silenciosamente numa história que, no papel, não era sua. E venceu. Diante das belas flores de cerejeira.
É engraçado o quanto a arte pode nos ensinar sem que entendamos uma só palavra do que está dizendo. E como uma mulher, munida de toda sua boa interpretação e bravura consegue, em seu único papel, ganhar todos os corações na plateia.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Nas palavras do Nando

Já era tarde quando se deu conta de que não poderia mais voltar. As nuvens que cobriam o céu eram muito densas, o vento soprava alto e o coração... Ah, esse batia forte. A volta não era realmente cobiçada naquele pequeno e tenso espacinho - queria mais pensar, pensar e pensar. Mas por quê? Se o pensamento não faz a realidade?, muitos diriam. Porque dizer isso é o mesmo que dizer que nada se sabe - pensar faz, sim, muita realidade. É na ideia que começa uma ação, um sentimento, um tesão. É no "e se..." que todo conto começa a ser contado como uma história que pode ser dita, explicada ou interpretada. 
Já era tarde quando se deu conta de que o andar pra frente de que todos falavam não significava realmente um andar - era quase decolar, quando feito adequadamente, é claro. Bastava um toque de mágica - aquele que a gente espera sentado sob o céu denso, o vento alto. Não podia mais pensar no que já tinha sido, só no seria. Mas será? Será que não poderia mesmo pensar no que tinha sido se o que foi foi TÃO bom quanto tinha sido? Suspirou ao lembrar da primeira vez em que seus olhos se cruzaram - como se sempre tivesse sabido, soube que era a coisa certa ou que seria. Soube que o coração batia forte por aquela pessoa, que o tempo, ah, o tempo passava rápido quando estava ao lado daquela pessoa. Sabia das palavras do poeta, sentia com os sentimentos dele. Era como flutuar em suas canções e sugar todo seu romantismo enrustido - não subestimando o poder nato da mulher de ser autossuficiente, mas fazendo-a tão deusa de si que poderia amar qualquer um, mas o tinha escolhido. 
Já era tarde quando percebeu que não poderia mais abrir os olhos porque todo o amor que tinha guardado transbordava para fora sem palavras - transbordava como borboletas que se despendiam de seu corpo e voavam em busca de aventuras inéditas, em busca de coisas que as deixassem no ar... Os braços, as pernas, o coração. Tudo o que poderia pender pendia - ia em direção ao desconhecido ao mesmo tempo em que se aventurava em saber tanto de tão pouco explorado lugar: sabia que era o lugar certo, o lugar a ser explorado, consumido e amado... amado até o mundo acabar. 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

No topo da estatística

Não era igual. Todos poderiam dizer que era, mas nunca seria. O olhar não parecia o mesmo, o estilo era único. Mas não era notado dessa forma, com sua simplicidade sagaz - ous talvez, fosse notado demais. O cabelo, os traços, a fala - tudo apontava para alguém que merecia ser ouvido, mas, na verdade, no mundo, na vida, não merecia. Não era homem. Não era branca. Não era rica. Não era a tal. Ela era quem podia ser e quem queria - talvez não o quisesse no início, mas a vida mostra que cabe a nós brigarmos para sermos quem somos. Quem podemos ser. Talvez fosse apenas quem seria sem que fizesse de sua vida um algo mais para inglês ver, um além das expectativas que a sociedade julga com toda sua meritocracia. Era nada perante os olhos do mundo, mas sabia que significava alguma coisa para alguém - em algum lugar, era uma estatística.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A insignificância da dor

Seus passos eram rápidos. Certeiros. Quietos. Não produziam tanto som quanto poderiam se ela estivesse caminhando como gostaria - com liberdade. Caminhava para os outros e não para si. Para fora e não para dentro. Expressões vazias de um sentimento mal expressado. Eram só pés que tomavam o chão sem realmente saberem onde pisavam. Nunca souberam - e talvez nunca soubessem.
O céu sob sua cabeça também não dizia muito - era nublado, cinza e pouco feliz. Uma representação humilde de uma real sensação de solidão que poderia ser facilmente compartilhada com outras como ela. Sororidade. Uma palavra que traduzia muito... Que significa o abrir de portas da cumplicidade irmã e da compreensão que não precisava ser plena, só ser aceita - só caber dentro do peito pra servir.
Continuava em sua solidão de forma mais confortável agora, acompanhada pela palavra amiga e acolhedora que pouca gente conhecia de fato. Talvez por ignorância. Talvez por falta de oportunidade. Mas, muitas vezes, por pura discriminação. Porque ser ela não era relevante. Sua luta não era importante. Sua dor não significava nada. Não era considerada um problema social - não um problema social de verdade. Não havia fome em seu estômago. Havia, isso sim, um teto sob sua cabeça - mesmo que de lata, papelão ou alvenaria. Havia trabalho em sua vida e havia um homem - e se não houvesse, ah, então era uma perdida mesmo. Ali não havia problema social.
Seus olhos escuros fitavam o céu e a única coisa que ela via era uma imensidão que ela queria para si - queria vivenciar a plena liberdade do seu ser, seu existir. Queria um registro em sua carteira de trabalho. Queria aqueles 200 reais a mais que ela não tinha por ser mulher - porque poderia ficar grávida, poderia dar prejuízo quando tirasse licença. Mas ali não havia problema social.
O caminho que trilhava era o mesmo de muitas, mas sem tantas perspectivas. Seus pés poderiam levá-la para qualquer lugar como as asas faziam com os pássaros. Mas não podiam. Porque não. Porque ali não havia problema social. 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

You can't always get what you want

... So get what you need. Algumas vezes, as coisas não parecem realmente fazer sentido. Sabe quando você decide que quer passear, mas, ao chegar no trem, percebe não era realmente o que você queria fazer? Ou quando decide que vai pra algum lugar e no meio do caminho não sabe mais que caminho seguir? É mais ou menos isso. É uma sensação de impotência e fragilidade que acho que muitos conhecem, mas poucos reconhecem. Poucos entendem o que estão sentindo e sabem lidar com isso - ouso dizer que praticamente ninguém sabe. É como se você estivesse em um barco no meio do oceano - não conseguindo avistar nada, nenhuma areiazinha - e sentisse a maior solidão do mundo ao mesmo tempo em que só estava procurando por um pouco de paz. Muitas vezes procuramos por um lugar seguro, por um lugar bom e confortável onde possamos descansar, mas a verdade é que não queremos descansar, mas estamos cansados demais de aventuras frustradas. 
Essa semana ouvi uma história que me motivou a seguir em frente: as tropas japonesas sempre iam à luta, mesmo que fossem perder, enquanto as chinesas, muitas vezes, voltavam atrás antes que as perdas fossem maiores que os ganhos. "Às vezes, a melhor estratégia é recuar", disse Sun Tzu, na "Arte da Guerra". Desistir não é tão fácil quanto as pessoas pensam: não é abandonar as coisas por medo de falhar ou mesmo por temor aos obstáculos. Desistir requer muita coragem porque requer admitir que essa é uma batalha em que as perdas podem ser muito maiores do que os ganhos. Eu admiro quem sabe desistir na hora certa, sem se importar com quem não compreende a bravura no ato de engolir o próprio orgulho e seguir em frente. 
Ashley Wilkes pensou, uma vez, que nunca havia visto bravura como a de Scarlett O'Hara vestindo as cortinas de sua mãe para conquistar o mundo - e nunca havia mesmo. Scarlett sabia exatamente quando não poderia vencer e por isso deixava para pensar nessas coisas difíceis no dia seguinte (e nunca mais pensava nelas). "Penso nisso amanhã, quando aguentar, porque amanhã é um novo dia". 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Tião: o contador de histórias

Já era tarde quando ele se deu conta de que o sol havia se posto. Em determinados empregos o tempo não realmente importa. Nada realmente importa. Mas para Sebastião as coisas pareciam ser diferentes - todos os pequenos detalhes eram valiosos e significavam uma boa história.
Não ter visto o dia passar não era algo na sua opinião - era praticamente um desperdício de tempo. Um desperdício de vida que poderia ser vivida intensamente - contando as gotas na janelas ou os "bom dia" que recebeu.
Olhou para o volante a sua frente e decidiu que gostaria que aquele dia acabasse de uma vez por todas.
Eu queria que as coisas fossem fáceis como o são na cabeça do seu Sebastião para quem basta uma boa prosa e alguma paz no café da manhã. Ele vê o mundo com olhos de velho, mas caminha com passos de moleque. Talvez se a vida fosse difícil como é para Tião, ninguém realmente teria problemas.
Com seu barquinho a navegar pelos mares como quem já sabe o que as ondas trazem, Tião conduzia sua van com maestria, levando as pessoas para o lugar mais bonito do mundo naqueles tempos: a praia.
Ele segurava no volante com gentileza como se pedisse permissão aos céus para conduzir - em seus olhos, víamos calma e preocupação, tudo muito definido como é óleo com água. Tião sabia que se deixar guiar pelo medo não o faria chegar a lugar nenhum - e foi justamente esse pensamento que o fez chegar tão longe.
Todos que subiam em sua van tinham a mesma impressão: a de que o mundo havia parado por alguns segundos enquanto adentravam numa outra dimensão. Sentiam-se tão imersos em si mesmos que mal podiam saber quando transporte enfim iria partir.
Era sublime ver o mundo por aquela perspectiva. Sublime pensar que nada de ruim poderia acontecer enquanto estivessem na van de seu Tião. Incrível porque nada no mundo se comparava aquilo - talvez colo de mãe.
Seu Tião sabia como iluminar uma vida apenas contando como foi seu fim de semana: ele não era displicente com os detalhes, contava cada um deles como se fossem fundamentais para a compreensão da história.
Engraçada essa forma de pensar, de falar, de entreter o mundo apenas existindo por si mesmo. Era como se só por ser Tião, Tião fosse a luz que iluminava aquele pequeno mundo.
Por mais que os dias passassem, sua essência permanecia intacta aos olhos de um lugar que, de tão volúvel, não sabia mais quem era. Era apenas Tião constante contando histórias para alegrar os dias.

*Dedico esse texto especialmente ao meu avô, o seu Tião, que de tanto contar seu causos me fez ter amor pela vida, pela escrita, pelo jornalismo. Senhor que me inspira todos os dias a viver cada detalhe como se fosse o último.


terça-feira, 17 de março de 2015

A invisibilidade da dor

Todos os dias seus passos ecoavam por aquela rua. Todos os dias. Mudava o sapato, o cabelo, as calças e os vestidos. Mas o rosto permanecia igual, o olhar, perdido, era o mesmo de todos os dias. Repetição atrás de repetição seguiam seu caminhar silencioso e rápido. Não queria se atrasar? Não. Não queria estar sozinha. A escuridão sobre sua cabeça cintilava, mas não era o suficiente para clarear seus passos que ecoavam atrás dos dela.
Como todos os dias, ela ignorava os passos que não seus estavam ali. Ignorava que tinha que correr para casa porque em nenhum momento entendeu que a escuridão não é a melhor amiga de uma menina.
Seus olhos enevoados passavam uma mensagem - um grito silencioso de socorro. Ela era apenas mais uma dentre tantas que evitavam olhar para os lados porque o que os olhos não veem o coração não sente, certo? Pode até não sentir, mas outros lugares sentirão.
Sentirão falta de seu riso modesto e de suas piadas engraçadas. Do seu caminhar alto e de suas dores que poderiam refletir todas as moléstias do mundo.
Como qualquer outra ela respirava ofegante enquanto os passos ficavam mais altos, mais próximos. Tentava não pensar no mundo, mas em como gostaria que ele fosse.
Será que em alguns anos iriam se lembrar dela? Será que se lembraria de como o mundo era triste, egoísta, grosseiro e impiedoso com as mulheres?
Talvez se lembrasse. Talvez lágrimas fossem derramadas por sua condição inferiorizada numa sociedade em que você só pode significar algo que não mexa nas estruturas preestabelecidas dentro do sistema.
Não era uma distopia como muitos podem pensar. Não era ficção ou um conto para assustar meninas que queriam sair à noite - era simplesmente a realidade que acomete várias vidas supostamente insignificantes todos os dias.
-Pare ai, seu viado. - gritaram os passos atrás dela.
Continuou andando como se não tivesse ouvido - como se o mundo não estivesse ecoando junto com as palavras dele.
Quando o pau a atingiu, ela sabia que seria só mais uma morte - não poderia ser estatística num governo que ainda tem dificuldades para entender Simone de Beauvoir.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Orwell estaria mais uma vez certo?

Como se não bastasse estar parcialmente certo quanto ao Grande Irmão, mais uma vez Orwell parece estar certo quanto à Revolução dos Bichos. "Não se sabia mais quem era porco e quem era homem". Acho que esta frase define bem o momento em que vivemos: um momento em que a irmandade, a paz, a cooperação e principalmente o amor estão em falta no mundo.
Vemos guerras, seres humanos contra outros seres humanos que eles acham menos merecedores da vida ou das terras que têm. Vemos irmãos brigando entre si e uma política que parece não representar quem somos.
Mas quem realmente somos? Quem pensamos que somos? Será que somos realmente tão "bons" quanto sempre pensamos que somos? Acho que não.
Tudo isso que acontece no mundo não aconteceu do nada - alguém fez aquilo. Alguéns. Mas quem? Nós? Sim. Todos nós fizemos tudo que existe de ruim no mundo - e tudo de bom também.
E é aqui que entra o senhor Napoleão: apesar de ser quase uma alegoria, Napoleão representa todos aqueles que uma vez no poder esqueceram completa ou parcialmente as demandas que prometeram aos bichos da Granja. Esqueceram que um dos mandamentos era "Todos os bichos são iguais". Não só esqueceram como manipularam isso para seu benefício - "Todos os bichos são iguais. Mas alguns são mais iguais do que outros".
Não acho que Orwell teria orgulho de suas teorias estarem se tornando realidade... Não acho mesmo. E acho que John Lenon também não estaria se fossemos pensar que ele achava DE VERDADE que mais gente "imaginava" um mundo diferente.
Irmã contra irmã. Pais contra filhos. Tucanos contra petistas. Isso realmente vale a pena? É uma questão tão simples mas, ao mesmo tempo, tão complexa. Talvez a resposta mais óbvia seja que a tolerância e amor sempre são as respostas mais coerentes.
Talvez não devamos mais jogar a culpa no 'mundo' e começarmos a culpar a nós mesmos - que fazemos parte do mundo. Talvez  nem mesmo nos culpar - deveríamos tomar uma atitude e mudar essa política do ódio que vem se disseminando em todo lugar.
Afinal, não queremos de fato que isso vire uma distopia, não é?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Lições práticas de Scarlett O'Hara para momentos difíceis

Quando você para para pensar em como o mundo é grande e existem milhares de pessoas sentindo a mesma coisa que você naquele exato momento, não te parece que você é um tanto insignificante? Ou talvez significante demais porque está entre milhares de indivíduos que, em conjunto, formam um grande sentimento?
Esse paradoxo pode se encaixar naquela coisa de ver o copo meio cheio ou meio vazio - eu nunca compreendi muito bem quais as vantagens de ser otimista e ver o copo meio cheio, por isso, acho que só ver "meio copo de água" já é o suficiente para não se parecer tão pessimista nem tão otimista. É quase como ser uma opinião neutra dentro de tantas opiniões vazias e felizes.
Qual a vantagem em se ser plenamente feliz? Uma vez eu li que pessoas plenamente felizes não saíam do lugar porque estavam plenamente felizes. É uma coisa incrível: você está tão feliz por estar onde está que acaba não progredindo. Dai que provavelmente em algum momento você irá cair porque parou de subir - ou algo assim.
A questão aqui é: será que realmente vale a pena ser uma pessoa tão feliz e otimista? Eu acredito que não - não que minha opinião valha muito dentre as das milhares de pessoas que estão sentindo a mesma coisa que eu neste momento.
Mas, talvez, para uma dessas pessoas, esta pequena reflexão faça sentido. Talvez se sentir insignificante seja o primeiro passo para se mudar alguma coisa - algo que te incomode ou algo que possa beneficiar outras pessoas. Não acredito na máxima "sou feliz" porque não sei se alguém pode realmente ser feliz o tempo todo - exceto por minha mãe, eu tenho certeza que ela é feliz o tempo todo.
Ser meio feliz parece o mais plausível e acessível no momento: você fica feliz por alguns instantes, tem momentos de pleno prazer e alegria. Não vive correndo atrás destes momentos, eles apenas aparecem pra você por consequência do seu progresso. Progresso que é movido por sua vontade de fazer alguma coisa pelas coisas em que você acredita.
Talvez a máxima, na verdade, não seja "ser feliz" mas "ter um ideal". Quer dizer, se você tem alguma coisa em mente, alguma coisa que quer fazer, alguma coisa em que acredita, então você simplesmente não precisa ser feliz o tempo inteiro - mas pode obter pequenas e explosivas doses de felicidade dentro dos momentos em que você chega mais perto do seu ideal.
Daí surge a questão: mas e se eu não conseguir? E se, simplesmente, meu ideal estiver muito longe e eu fracassar mais de uma vez? Bom, dai você consequentemente vai ficar triste - porque é isso o que acontece quando você não estamos felizes, neutros ou em momentos de "abstração".
Mas fica triste não é o ponto aqui - a questão de verdade é o que você faz para atingir seu ideal apesar dos momentos de tristeza. Por favor, não encare este texto como aquelas postagens de redes sociais em que as pessoas estão dando conselhos que elas não seguem. Isso não é um conselho. É só uma reflexão louca de uma noite chuvosa.
Esta questão do ideal x a tristeza pode ser encarnada em uma única personagem: Scarlett O'Hara e sua grande jornada rumo a um ideal. Digamos que o ideal não seja um dos melhores (ficar com Ashley), mas não encaremos isso como um empecilho para nossa reflexão. Scarlett estava tão obcecada por Ashley que não conseguia ver derrota nem mesmo quando estava completamente derrotada - ela simplesmente não era capaz de perceber que não existia mais luz no fim do túnel.
Scarlett achava que tinha um objetivo e não foi capaz de ver que ele foi se modificando a cada nova batalha que ela encontrava a sua frente - a cada derrota, a cada dia com fome e com frio... Scarlett O'Hara não se julgava corajosa e muito menos determinada, para si mesma, ela era apenas uma jovem bela e esperta que não iria deixar que a vida ganhasse dela.
Talvez seja isso que nós devamos ser: não felizes, mas totalmente determinados, enxergando cada obstáculo como apenas mais um porque "amanhã é um novo dia".

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Se não formos, o que seremos?

Como muitas coisas na vida, ser forte não é algo que a gente escolhe. Não é como quando vamos a uma sorveteria e podemos optar entre chocolate ou céu azul. Ser forte é simplesmente ser, sem ter que pensar, sem decidir ser. É algo que muita gente gostaria de ser, mas que não pode porque não sabe como - e nem tem como saber. Não é aprendizável. Não é legível. É como aqueles textos abstratos que pouca gente com caligrafia feia entende. Como se você só soubesse ser se fosse. 
Talvez tudo isso seja uma grande bobagem e aqueles sábios que se escondem atrás das redes sociais possam me dizer que "é só você ser!", "siga em frente que ninguém nunca vai te derrubar". Sabe? Aquelas frases clichê que a gente está cansando de ler na timeline. Esses conselhos geralmente não são sábios - isso porque quem os repassa, na verdade, só está tentando segui-los. Provavelmente, está tentando em vão porque compartilha de novo e de novo. É mais como um lembrete para si próprio do que para os outros. Não adianta a gente pensar que é velho, sábio e maduro tentando ensinar ao outro algo que nem mesmo nós sabemos como aprender.
E ai voltamos ao início desta longa indagação que, como a vida, parece que nunca vai levar a lugar algum. Mas talvez leve. Talvez para uma pequena e solitária alma jogada em algum canto por ai isso tudo faça sentido. Talvez não faça. Meu objetivo com este texto, na verdade, não existe. Pode até parecer que eu queria zombar das pessoas que ficam nas redes sociais o dia inteiro - não poderia fazer isso até porque eu meio que sou uma delas. Olho sempre minhas mensagens porque detesto deixar as pessoas esperando... Posto fotos, coisas idiotas e matérias interessantes pra mim. Mas a questão não é essa. A questão não é quem pensamos que somos, mas quem queremos ser.
Afinal, quem queremos ser? O que somos nós? Somos mesmo aquelas pessoas confiantes, que entendem de política e adoram fazer uma piada "tipo sarcástica" para zombar de quem não tem a mesma ideologia que nós? Será que nós sabemos como ser fortes? Será que o somos?
Não posso dizer muito sobre todas as pessoas com que já convivi, tive o prazer (ou não) de ter uma conversa ou mesmo aquelas que vejo todos os dias... Posso apenas dizer que a fraqueza tem um quê especial a meus olhos. Não porque eu acredite que desistir é a saída, mas porque fraquejar é tão comum quanto persistir. É ver seus olhos cheios de lágrimas porque quer alcançar um objetivo. É tentar e tentar e tentar e mesmo assim ter que arrumar aquele tópico "mal esclarecido" na sua tese. Fraquejar é se sentir impotente mesmo quando você sabe que é capaz de fazer.
Refletindo por um segundo percebo que o bom mesmo não é ser forte, não é saber ser forte: é fraquejar perante grandes oportunidades e, então, erguer a cabeça e ir com tudo. É simplesmente se deixar errar porque acertar sempre - como nas timelines - é impossível.
Talvez não valha a pena ser forte. Talvez valha a pena só ser.