Então, Samantha olhou ao seu redor - as flores na janela pareciam mortas e sem cor, considerando que um dia antes eram rosadas e totalmente alegres. Talvez estivessem complacentes com seu estado de espírito, talvez estivessem buscando o amor umas das outras como ela estava. Um sorriso bobo brotou em seus lábios e então ela se deu conta de flores não amavam, flores não sentiam e muito menos pensavam. Ah, talvez ela desejasse ser uma flor agora. Quem sabe assim as lágrimas que queriam rolar por suas bochechas ficassem ali, paradas na eternidade - quem sabe assim Henrique pudesse voltar a vê-la como antes. Então, uma daquelas pequenas teimosinhas que estava presa em seus olhos saiu molhando a folha de papel na qual a menina escrevia sua última carta para ele. "Querido Rick, eu previ que você me deixaria assim que soubesse de tudo. Assim que entendesse o quão estúpido foi em ter ficado comigo quando meus pais partiram, deve ter pensado em como eu era frágil e não conseguiria superar aquilo sozinha, entretanto, mal supunha você que eu era fria e calculista e que todas as lágrimas que eu supostamente deveria derramar em seu ombro jamais seriam derramadas. Surpreendente, você deve ter pensado e ainda assim persistiu em algo que sabia que não conhecia. Persistiu em mim..." e assim, parou de escrever. Todas as forças que juntara para lhe dizer tais palavras estavam por terra agora - mas a menina não era fria e calculista? Bom, até o mais duro dos gelos derrete em meio a raios quentes. E poderíamos dizer que Henrique era um desses raios. De todos, o mais brilhante.
-Talvez você não seja quem eu pensei que fosse. - Disse a voz grave e firme adentrando na sala de aula. - Talvez todos os meus pressentimentos, talvez todas as vezes em que pensei em desistir de você fossem um alerta me dizendo que não daríamos certo.
-Então, ainda bem que você ouviu. - Redarguiu a loira olhando para a carta. A lágrima derramada já não estava mais lá e seu rosto estava duro feito pedra, indecifrável. Ela não tinha sentimentos e não agora não seria a hora apropriada para passar a tê-los.
-Talvez, talvez... Talvez eu não os tenha ouvido. - Henrique sentou-se atrás dela, ela podia sentir seu hálito quente em sua nuca. Aqueles dias de inverno, as mãos dadas no parque enquanto tomavam chocolate quente, tudo aquilo fora apenas uma ilusão. "Você nunca demonstra nada", ele lhe dizia. E ela sabia que era verdade - como aquele menino poderia entender o amor o qual ela nutria sendo que a mesma não conseguia ao menos sorrir quando este a beijava?
-Talvez eu não queria ouvir. - prosseguiu ele - Sabe, se eu te amasse por você ser alegre, então, quando você estivesse triste não haveria motivos para que eu ficasse ao seu lado. Se eu te amasse porque você me ama, então, se você deixasse de me amar, seria como se eu nunca tivesse te amado. Se eu te amasse porque você canta bem, então, quando perdesse a voz... O ponto em que quero chegar é que não posso te amar por suas qualidades.
Ela se virou para ele. Os olhos novamente marejados de água e quando cruzaram com os de Henrique a fachada pela qual lutara por manter se fora - ah, como sentira falta daqueles lindos olhos azuis. Daquela boca perfeitamente delineada para encaixar com a dela. Mas, principalmente, como sentiu falta de como ele sabia dizer eu te amo os olhos.
-As pessoas não mudam, Sam. Ninguém muda. Dessa forma, seus defeitos nunca mudarão. - O moreno disse enquanto recostava seus dedos nos dela. Um calafrio percorreu sua espinha e seus lábios contorceram-se numa espécie de sorriso. - E por isso decidi amá-la por eles. Amá-la porque você não sabe demonstrar seus sentimentos, amá-la porque você é teimosa, amá-la porque você bagunça todos os lugares por onde passa.
-Talvez isso não seja um defeito... - Sam retrucou enquanto seus lábios entrelaçavam-se com os dele.
-Talvez eu possa sair arrumando tudo atrás de você...
-É, talvez...