Ao pensar em se encontrar por um segundo, percebeu que estava perdida em si mesma. Seu coração já não mais dizia o que deveria dizer e, naquele momento, ela poderia ser o que chamavam em tempos antigos de louca. Mas o que é a loucura se não uma amplificação muito mais intensa da realidade? Deitada no jardim de sua mãe, sob a grama verde e pequena - não de fato um grande jardim - percebeu que o tempo não mais importava. Nada ali valia alguma coisa se não aquele pequeno instante que poderia ser esquecido por qualquer um, mas não por ela.
Fechou os olhos com a mais doce ilusão de que tudo o que lhe iludira um dia poderia ser realidade. Um dia poderia ser mais do que uma simples ilusão. Mas não seria. Mas não era.
A grama macia não poderia ser nada além de grama, assim como quando você almeja uma torta e obtém um bolo, você sabe que aquilo não é uma torta.
O sol brilhava intensamente sobre sua face como um belo dia de primavera - diferentemente de todas as outras pessoas do mundo, Ana se sentia confortável naquele tremeluzir incandescente e feliz. Ah, a felicidade. Se pudesse dar um palpite, a menina de bonitos olhos castanhos afirmaria que vira aquela palavra cintilante em meio aos raios UV - ou não, ou era só loucura.
Rolou de um lado para o outro sem saber o que gostaria de fazer naquela lindo dia iluminado. Rolou até não ter mais o que rolar e se deparou com grandes olhos a observando - eram tão azuis quanto a imensidão sob suas cabeças. Um garoto - daqueles descalços, com pés quase peludos e dentes tortos de criança levada. Ele sorriu pra ela como se o mundo todo não fosse importante naquele momento. Sorriu como só um menino pode sorrir aos 12 anos.
Ele pegou em sua mão e a ajudou a levantar. Eles correram por todo o jardim completamente adoidados, obcecados com a ideia de que mais tarde poderiam comer um delicioso bolo de cenoura com leite e jogar videogame. Correram como apenas crianças conseguem correr.
Ao chegarem à esquina, com o sol apino sob suas cabeleiras bagunçadas, souberam que aquele era o momento certo para um sorvete - não que sorvetes precisassem de um instante específico para acontecer, qualquer hora é hora de sorvete.
Mais uma vez correndo e suando e suando e correndo, os meninos conseguiram chegar aquela bela loja colorida e gelada em que você só entra quando tem mais de dois reais ou, pelo menos, está lá com seu pai ou sua mãe.
-Chocolate, por favor. - pediu o garoto com seus brilhantes olhos azuis.
-Morango. - Ana disse, sorrindo como nunca e sem soltar as mãos do pequeno projeto de homem.
-São cinco reais. - respondeu a moça antes de pegar o sorvete, ela sabia muito bem que não se poderia confiar em menores de idade desacompanhados.
Com um sorriso conflitante, o menino disse que só tinha dois reais, mas que aquilo era realmente fácil de resolver.
Saíram, então, da sorveteria com um sorvete napolitano e dois grandes sorrisos, afinal, é assim que começa o amor e a loucura: com a troca de um delicioso sorvete de chocolate por 1/3 de um napolitano e mãos melecadas grudadas nas suas.