segunda-feira, 16 de junho de 2014

Ponto de espera

Ao observar a rua pela janela, Julia percebeu que as coisas não eram como antes - os passarinhos não cantavam mais tão alegremente e nem o seu Juca da mercearia parecia ser o mesmo, ele não conversava mais com ela e as outras crianças e mal conseguia pensar em algo além de "quando as obras acabarem".
Afinal, quando toda aquela monstruosa construção estivesse pronta, o que seriam deles? Haveria ainda um aterro sanitário que não funcionava? Ou emprego para todos? O que seria do pai dela sem o emprego concedido pela empreiteira? 
Debruçando-se para olhar melhor as crianças jogando bola na pracinha ali em frente, a menina de faces bronzeadas pelo sol percebeu que nada mais seria como era antes - antigamente ela poderia jogar futebol com aquelas crianças, podia realmente brincar e aproveitar sua idade. Mas não mais hoje.
A pequena menina teve crescer, assim como seus pais quando tinham a idade dela. Teve que entender que as coisas não eram sempre como gostaríamos que elas fossem.
Andava rumo ao banheiro para se arrumar - o sol iria se pôr em breve e seria necessário estar pronta quando sua mãe chegasse. Enquanto a água molhava-lhe os cabelos, os olhos permaneciam fechados esperando que algum milagre a salvasse. Esperando que houvesse um Deus misericordioso que pudesse mudar seu fatal destino. Mas não havia. Não naquela noite. 
A toalha enrolada sob seu corpo esguio não cobria mais do que o necessário - o dinheiro era pouco e não possibilitava que comprassem toalhas melhores. As roupas, da mesma forma, eram batidas e um pouco rasgadas - pelo menos, as que usava durante o dia.
Ao abotoar as botas maiores do que os próprios pés, Julia se deu conta que não poderia mais contar com Deus, com o governo ou com os donos de mais uma grande hidrelétrica no Nordeste. Não poderia contar com seu próprio pai ou com seus irmãos que poderiam morrer a qualquer momento enquanto faziam trabalhos ilegais.
-Tão ilegais quanto o meu. - Ela disse em voz alta ao sair pela porta ao encontro de sua mãe no ponto em que deveriam esperar por aqueles que cedo ou tarde viriam.