domingo, 6 de agosto de 2017

Ainda somos os mesmos e vivemos

Por muito tempo, eu fui uma pessoa fechada. Eu não permitia que pessoas entrassem na minha vida, que pessoas se importassem comigo e que eu me importasse com elas a ponto de ficar magoada com alguma atitude. Por muito tempo, eu simplesmente vivi comigo mesma, confortável em minha solidão. Então, sem entender ou pedir, eu me apaixonei por uma das melhores pessoas que eu já conheci. Quando nossa jornada juntos terminou, eu já não era mais a mesma. Eu havia voltado a ser uma pessoa frágil, vulnerável. Eu havia voltado a me importar - mas demorei muito para entender que a pessoa dura e intransigente que eu me tornei ainda estava aqui, convivendo de forma difícil com essa Vick frágil e apaixonada pelos romances de Jane Austen.
Como conciliar em si mesma duas pessoas tão diferentes? Uma mulher resiliente que havia enfrentando poucas e boas na vida com uma moça sonhadora, apaixonada, amável, que se magoava com pouco e se alegrava com menos ainda? Devo dizer que eu ainda não sei bem como lidar com essa nova fase de mim.
Acredito que, acima de tudo, o primeiro passo seja aceitar que eu não sou quem eu fui um dia - nem totalmente frágil nem totalmente forte. Hoje, por mais que eu deteste admitir isso, eu sou esse meio termo - nem branco nem preto, cinza. Às vezes, um cinza mais escuro, às vezes um cinza mais claro. Sou esse emaranhado de emoções controversas que não fazem sentido nem para mim, mas que sei que fazem parte de quem eu sou. 
Muito provavelmente eu não sou o que as pessoas gostariam que eu fosse - devo admitir que nem correspondo às minhas próprias expectativas. Muito provavelmente eu realmente faço tudo errado e para algumas pessoas seja mais menina do que mulher - assim como, para outras, seja muito mais mulher do que menina. 
A verdade que aprendi ao longo dos meus quase 23 anos de existência é que não é possível agradar a todos. Algumas vezes você vai se machucar e, em outras, você vai machucar alguém. A vida é isso: uma série de tentativas falhas que, em algum momento, podem dar certo. Em algum momento, a gente pode simplesmente encontrar tudo o que sempre quis, tudo o que sempre procurou, e seguir sem olhar para trás. 
A única coisa que realmente importa nesse mundo é aceitar que nós não somos perfeitos e estamos em constante mudança. A mulher que eu sou hoje saúda a mulher que eu fui antes: a nova Vick agradece à Vick resiliente e durona, mas também é grata à Vick cheia de lágrimas mal contidas e amores imaginários. 
Talvez, no fundo, nem eu mesma saiba o que eu quero nesse mundo. Talvez, no fundo, nem eu mesma saiba o que eu preciso. Talvez a graça esteja realmente em não saber, mas, sim, em tentar. Tentar diariamente atingir os meus próprios objetivos traçados de improviso numa tarde fria no metrô lotado. Talvez a verdadeira essência da gente seja ser quem a gente é por acidente, por acaso de nossas constantes tentativas. Talvez a única coisa sobre a qual a gente possa ter certeza é ousadia de fazer, de ir além, de buscar coisas que nunca buscamos antes. Não dá para saber se vai dar certo, mas nós sempre podemos tentar.