domingo, 25 de dezembro de 2016

Who am I? WHO AM I? 24601

Desde que nasci, eu sou alguém. Sempre fui destinada a ser alguém. Talvez, para quem não me conhece (ou não me conhece bem) eu possa parecer ser ninguém - mas isso é uma inverdade. A real verdade, tal qual sempre se prostrou a minha frente, é que eu sempre estive predestinada a ser eu. Assim, do jeitinho que eu sou. Com todas as lágrimas presas na garganta, os tropeços em pisos de cerâmica e as gargalhadas mal contidas. Sempre estive destina a ser essa pessoa extremamente racional que não tem a menor lógica. Pode parecer clichê, mas sinceramente sinto que é verdade - e a verdade dói, tanto que a gente demorar para enxergá-la, não é mesmo?
Pois bem. Depois de anos tentando entender que eu realmente era (sou?) não cheguei a nenhuma conclusão. Talvez eu não seja nada que já tenha existido, certo? Ou talvez eu nem exista. Não sei. Não entrarei nestes méritos que, até pra mim, são confusos demais. Vamos nos ater a uma questão simples e básica da existência humana: quem eu sou? 
É uma pergunta forte demais, não é mesmo? Pois tenho certeza que todos vocês se perguntam isso todos os dias. Não, este não é um texto de autoajuda. Também não é uma crônica ou um bom texto. De fato, não é nada. Como eu - ninguém destinada a ser alguém. Talvez. Não sei ao certo. O que eu bem sei é que, em todos esses muitos 22 anos de vida, eu sempre achei que sabia quem eu era: uma moça, insegura, que escreve extremamente bem, nasceu para ser jornalista (literalmente, não acho que tenha outro motivo pra eu ter vindo pra este mundão ingrato) e, mais importante de tudo isso, sempre sabe o que quer da vida.
Vocês já se depararam com momentos na vida em que parece que a gente não é a gente? Eu chamo isso de síndrome de Jean Valjean, sabem? Do Victor Hugo? Os Miseráveis? Pois bem. É bem no início do livro, quando ele é liberto depois de ficar preso por um milhão de anos (talvez menos, mas pra mim pareceram um milhão) por ter roubado um pedaço de pão. Jean não sabe mais quem é. Ele foi, durante anos, apenas chamado por "prisioneiro 24601". Ele era um número. Uma coisa. Uma propriedade do governo francês. Jean não se pertencia mais. Jean não sabia quem era. Jean acreditava ser 24601. Acho que todos nós passamos por isso, por essas tremendas crises de identidade que nos levam a desistir de faculdades, pedir as contas em uma empresa ou nem mesmo sair da cama por alguns dias.
É exatamente a síndrome de Jean Valjean que nos prende em nós mesmos e faz com que esqueçamos quem somos - mas não é por isso que deixamos de ser.
Para almas atormentadas como a minha, que não conseguem dormir direito e nem parar de pensar nas possibilidades, pensar em que se é é muito complexo. Exige uma parada que a gente não tem: bom senso.
Por isso, considero uma vitória (saca só o trocadilho), quando a gente encontra um pequeno sentido no nosso ano, no nosso dia, na nossa existência - só ser alguém nunca foi o bastante.
Enrolei, enrolei e enrolei para dizer que: nem todas as experiências ruins são realmente ruins. Às vezes, como na física, a gente só está olhando pelo ângulo errado. E não digo isso como uma pessoa otimista que está tentando ver o lado bom - não se engane, não sou otimista. Digo isso como uma mulher insegura, com o coração partido e mil possibilidades e medos bem na minha frente. Digo isso como 24601 que acabou de lembrar que é Jean Valjean e não um prisioneiro qualquer em uma prisão qualquer. Digo isso, honestamente, como uma mulher com algumas metas (extremamente cumpríveis, segundo meus cálculos) e muitos medos.
A única lição de que tiro de 2016 é: até quando a gente erra (e persiste no erro mais oito vezes), a gente pode acertar. 

sábado, 17 de dezembro de 2016

Para minha eterna (e indesejada) companheira

Eu tenho tanta coisa para te dizer, querida, que nem sei por onde começar. São tantos anos juntas, tantos anos, que mal consigo lembrar de como nos conhecemos. Acho que sempre estivemos juntas, mas que nossa relação começou mesmo a ficar séria no ensino médio. Eu tinha saído de uma escola industrial e, de certa forma, "do povão" pra um ensino particular caro que não tinha nada a ver com minha vida até então. Sai de uma avaliação média/baixa para uma escola de alto padrão em que eu não me encaixava - bolsista, né, quem quer se envolver de fato? E foi ai que você me encontrou. Você me disse que eu tinha que focar nos estudos, que precisava tirar boas notas, que tinha que manter a bolsa. Naquele primeiro ano você tirou meu fôlego por completo - tinha dias que eu nem lembrava mais como se respirava. Cheguei a desmaiar por você.
Anos mais tarde, você começou a me deixar deprimida - depois de um relacionamento abusivo, muito menor do que o que nós temos, você foi a única coisa que me restou, mas, mesmo assim, queria que ficássemos deitadas, juntas, na cama, o dia todo. Você sempre me quis só pra si mesma.
Posteriormente, já na faculdade, sua possessão se agravou. Você se tornou cada vez mais ciumenta e, alguns dias, simplesmente não me deixou sair de casa. Alguns dias, me fez ficar chorando sozinha ao seu lado. Isso quando não brigava comigo em lugares públicos e me fazia ficar paralisada, sem saber para onde ir. Desde então, nossa relação só se tornou mais e mais controladora - por você, é claro.
Hoje consigo entender todo o mal que você me faz - às vezes, consigo fazer com que você trabalhe a meu favor e me ajude a executar minhas tarefas mais rápido. Às vezes, não. Às vezes, você só tira meu ar completamente e me diz como é difícil me amar.
Às vezes, você some por meses e vai aparecendo devagarzinho ao longo de uma semana - até que me dá um susto e me prende novamente na cama. Você é ruim pra mim, mas sinto que nunca vai realmente me deixar. Você é a única com quem posso contar pra sempre, não é mesmo? É isso o que você sempre me diz. Que ninguém pode me amar como você ama. Que não sou digna de amor. Você sempre me diz que faço tudo errado e que você é a única que aprecia meus talentos. Você sempre me diz o quanto sou patética. E eu acredito em você. 
Você me prende nesse círculo vicioso, você me tortura, você me bate. E, então, quanto estou tão paralisada que mal consigo me mover, você me faz apagar de sono. No dia seguinte, sem mais nem menos, você vai embora, sempre deixando um grande rastro de destruição pela casa. Rastro este que passo semanas tentando consertar - com relacionamentos superficiais, egos inflados e cigarro. Sempre esperando que você não volte mais - mas você sempre volta, não é mesmo? 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Os homens que não amam as mulheres

Refleti muito antes de escrever este texto. Não apenas sobre minhas próprias experiências pessoais com homens como sobre as experiências de minhas amigas com esse gênero tão controverso. A partir disso, junto com algumas (várias) leituras, cheguei à algumas conclusões que outras mulheres antes de mim chegaram e a principal delas é: os homens não amam as mulheres.

Antes que comecem a me chamar de misógina, que não faz sexo e odeia os homens, deixem-me explicar minha análise, que foi cuidadosamente pensada. Então, depois de refletirem (vejam bem, reflitam antes), vamos debater.

Muitas e muitos aqui vão dizer que estou generalizando quando digo que os homens não amam as mulheres, apontamento do qual não posso me esquivar. Sim, eu estou generalizando. Por isso, volto a dizer o que falo todas as vezes que escrevo textos polêmicos: se você (TEM CERTEZA) não se encaixa nisso, fique quietinho e faça valer essa diferença na sua vida. Coloque em prática com as mulheres com que você se relaciona.

O primeiro ponto que eu gostaria de destacar é: os homens tem uma falsa imagem do que é a mulher, criada, obviamente, pelo patriarcado e pelo machismo. Os homens vêem a mulher como um objeto sexual. Como um objeto de limpeza. Como um objeto de auxílio. Mas sempre como um objeto. Os homens desconsideram o fato de que mulher também é um ser humano e, portanto, tem sentimentos, dores e fraquezas.

Para os homens, somos um filme pornô. Bonecas que querem cada vez mais fundo e mais forte e que gritam e gritam e gritam. Bonecas que soltam jatos quando são penetradas. Para os homens, é impossível sentir prazer sem penetração - não no caso deles, é claro. Homens adoram um boquete, não é mesmo?

Homens dizem que mulheres são sentimentais demais. O que, biologicamente, não é verdade. A verdade é que nós somos criadas para sermos assim: somos moldadas em uma sociedade que fala que mulheres nasceram "sentimentais" e com "instinto materno" e com "instinto de limpeza" e, por isso, os cuidados da casa e dos filhos ficam com a mulher - que é considerada apenas uma AUXILIAR no trabalho remunerado, enquanto os homens ignoram todo serviço doméstico não remunerado relegado às mulheres - é claro, porque só as mulheres comem, vivem naquela casa e fizeram os filhos, sozinhas, obviamente.

Os homens desconsideram o feminino enquanto ser humano e é justamente ai que mora todo o problema dos relacionamentos. Muitas e muitos de nós questionam a frivolidade e a distância com que temos lidado com relacionamentos - muitos, inclusive eu, acham um absurdo essa história estúpida de "não se apegar". Como se fôssemos robôs que decidem sobre suas emoções e sentimentos.

De qualquer forma, embora as relações humanas sejam empenhadas por pelo menos duas pessoas, é inegável que uma relação heterossexual seja abusiva - em maior ou menos grau. Os homens se sentem tão superiores por terem um falo e pelo mundo girar em torno do seu próprio falo que desconsideram o que é ser mulher. Desconsideram nossos sentimentos - sentimentos criados a partir de uma relação entre duas ou mais pessoas. Não tem a ver apenas com amor, mas com sentimentos de uma forma geral. Homens desconsideram suas responsabilidades com o outro e jogam a culpa de qualquer envolvimento sobre a mulher - isso desde que os tempos são os tempos.

Não estou dizendo que é impossível se relacionar com homens - obviamente, mulheres heterossexuais não têm escolha quanto a isso. Também não estou dizendo que não existem homens exceção - só que nem eu nem minhas amigas encontramos um ainda. O que estou querendo com este texto é dizer, não apenas para minhas companheiras, mas para os homens que ousaram ler esta película até o fim, que os homens precisam mudar. Os homens precisam ser humanos, precisam ser menos egoístas e precisam se desconstruir diariamente. Nós, mulheres, estamos cansadas. Cansadas de tentativas frustradas, permeadas pelo machismo, pela babaquice e pelo patriarcado.

Embora, em algumas situações, tenhamos interesse pelo falo, é sempre bom lembrar que o mundo evoluiu: e hoje em dia existem vibradores.

Até a próxima.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Carta ao meu ex-amor

Oi, preto.
Vou começar isso aqui dizendo que sinto sua falta - sinto falta da sua risada, inclusive da forma como você ria de eu ser tão desastrada. Sinto falta do amor que eu via nos seu olhar e das carícias bobas que a gente trocava no meio da rua. Sinto falta de você deixar eu bagunçar sua barba e reclamar que minhas mordidas te deixavam todo roxo. Sinto falta de nós dois e do que tivemos juntos. Sinto falta de você me contando suas histórias no sindicato, das mobilizações de greve e de quando você fez as crianças derrubarem o prefeito coxinha safado. Sinto falta do que achei que era revolucionário em você.
Mas acho que também devo lembrar do que não sinto falta. Não sinto falta de você jogar a culpa em mim por nossos brigas. Não sinto falta de você me manipular diariamente (mesmo depois de a gente terminar) pra eu achar que tudo o que houve foi minha culpa - inclusive me culpar pelo seu próprio machismo e suas falhas que resultaram em mais um (quase) relacionamento abusivo pra mim.
Não sinto falta de você me escondendo das pessoas - por quê? Nunca vou entender. Vergonha por eu não ser um esteriótipo de pessoa magra? Vergonha por eu não ser da sua quebrada? Não sei. Sei que, até hoje, só te vi ficar com mulheres padrão de beleza (nunca vi uma negra ou uma gorda pra ser sincera). Talvez até tenha tido uns casos - mas você assumiu? Não. Não sinto falta disso.
Ontem reli seu último poema pra mim - esse não tive coragem de apagar da minha memória, embora tenha apagado todos os outros. Reli e chorei. Questionei como um homem tão doce, gentil e sensível poderia ser tão ruim pra alguém. Poderia causar tanta dor.
Sucumbi a uma saudade imensa de algo que deve ter sido coisa da minha cabeça e disse palavras de saudade. No entanto, no momento em que elas saíram, eu torci para que você fosse novamente um cuzão comigo. E você foi - graças a deusa. 
Graças a tudo que há de mais sagrado no feminino, você foi o cuzão que eu sei que você é e me lembrou de todas as coisas ruins que ontem eu tinha esquecido. Graças a deusa você novamente tentou me manipular. 
Então, agradeço a você por ter, enfim, me libertado de todas as tristezas, todas as mágoas e todas as dores. Agradeço por ter me feito sofrer mais uma última vez.
Enfim, sou minha de novo.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Despedidas delicadas

Sabe, eu tenho tanta coisa pra te dizer. Tanta coisa presa aqui na garganta, entende? Que fica até difícil de respirar. Às vezes, eu concluo que não é o cigarro que faz doer minhas cordas vocais e sim tudo isso que não consigo te dizer. Há semanas não escrevo - claro, a culpa não é sua. É de quem veio antes e quebrou tudo o que eu tinha construído. Destruiu a esperança, comeu a fé e, sinceramente? Levou todo o amor. Anos tentando construir minha própria fortaleza e, de repente, num piscar de olhos, tudo voa com a ventania. Vai embora assim, sabe? Sem a gente ter tempo de perguntar o porquê.
Quando você apareceu, não te restou nada. Eu não esperava nada. Não queria nada. Achei que seria só mais qualquer. Mas você quis ser mais, não quis? Quis tomar aquele assento que você sabia estar vazio. Pena que não sentou direito - sentou assim, pela metade, quase caindo do banco sabe? Só que, no fim das contas, quem caiu fui eu que nem sentada estava. Levei aquele tombo que todo mundo da risada de você na escola, mas minhas amigas não acharam tão engraçado - seguraram minha mão, me ajudando a levantar, mas queriam mesmo era chorar. Lágrimas de raiva, ressentimento, por um penhasco que a gente nem sabia que existia dentro de você.
Mas tudo bem, acontece. Claro que era melhor a gente saber quando há um rombo no chão firme que a gente pisa, mas nada irremediável se cairmos lá dentro - a não ser que a quebremos o pescoço, dai não tem jeito mesmo, desculpe. De qualquer forma, foi bom. Foi bom o que a gente teve - aquelas semanas intermináveis, você me chamando de linda e me fazendo cafuné. Foi bacana. Pra ficar na memória - os momentos, não você. Definitivamente, não você. Não me leve a mal, não é nada pessoal, sabe? Só que eu tô cansada de ficar lembrando de gente que, apesar de ter sido importante, não foi a lugar nenhum comigo.
É isso. É isso o que eu quero - um lugar. Um fim. Uma parada. Correr em círculos é bacana quando a gente é criança, mas quando crescemos, ah, dai a coisa começa a complicar. Queremos brincar de coisas mais inteligentes como montar casinhas com peças de Lego, ter um telescópio da Barbie e jogar na internet. Coisas mais complexas que, de fato, fazem parte do momento em que a gente vive. Não me leve a mal, você é ótimo. Só que não pra mim. 
Talvez se você transbordasse mais. Se fosse mais completo. Se soubesse o que quer. Talvez se você fosse aquele "q" que eu estou procurando - na verdade, você é, só que perde muito tempo sem saber conhecer de verdade a si mesmo e esse belo "q" se perde em tanta confusão. Talvez se você preenchesse todas as lacunas que eu deixei abertas pra alguém entrar - aquele cafuné de madrugada que a gente não pode fazer sozinha ou aquele abraço quentinho num momento de desespero. Desculpe dizer isso, mas preciso de mais do que uma ou outra transa casual e uma cerveja gelada. 
Preciso de calor humano. Sentimento. Envolvimento emocional e físico. Sinceramente, não sei como as pessoas se excitam sem envolvimento - me explica como é? Não vou fazer igual, mas vou entender pelo menos. Sei que a pergunta parece ofensiva, mas eu realmente gostaria de saber - sou jornalista, não sei "não saber as coisas".
Talvez se você fosse aquele "a mais" que eu estou procurando. Sim, procurando. Apesar de amar estar sozinha, não quero isso agora. Não agora, definitivamente. Talvez você seja. Seja todo esse "a mais", mas não saiba. Não sabe. E não posso te mostrar isso agora - (in)felizmente, estou focada em ser plenamente feliz. Sozinha. Acompanhada. Mas comigo, sabe? Só comigo. Sempre comigo. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Definitivamente liberdade


Ao som de "Liberdade ou Solidão", de Tiago Iorc

Este não é um texto poético. Não é uma crônica ou um conto. É vida real e tangível. Não sei se você consegue ver a delicadeza da pedra, mas ela está lá. E é isso o que este texto representa neste momento pra mim.

Andei em círculos por alguns meses. Vários. Quase todo ano, na verdade. Na poesia, buscar a si mesmo parece algo tão simples e filosófico. Caótico só na cabeça dos poetas. Na realidade, a dificuldade está em transportar toda esse desejo para este mundo palpável. Difícil nos livrarmos das migalhas de nós mesmos e formarmos um ser inteiro. Completo e só.
Sei que essa palavra assusta - solidão. Quem, de fato, quer ser só? É algo que nos assusta, nos envergonha e entristece. Não? Não. Às vezes, a solidão pode ser nossa melhor amiga. Não porque não amamos ou não gostamos de gente. Na verdade, gostamos - claro que, no meus caso, prefiro comida. Mas essa não é a questão. O ponto aqui é o que queremos pra gente.
Quantas vezes não desistimos de algo extremamente valioso porque precisamos de algo mais? Algo diferente? Algo muito além do que as pessoas conseguem imaginar? No meu caso, muitas. Parece difícil de entender num primeiro momento, mas é bem fácil: nem sempre o que é grande o suficiente para os outros tem a mesma proporção pra nós.
Talvez todos os que eu conheço já tenham dito que querem "a sorte um amor tranquilo". Pois não quero. Quero fogo de queimar a alma. Quero impulsividade. Quero brutalidade. Quero algo que me derrube da cadeira.
Talvez todos os que eu conheço já tenham dito que querem um emprego estável. Pois não quero. Quero imprevisibilidade. Quero intensidade. Fazer a diferença com palavras. Quero mudar o mundo. Sou uma eterna inconformada.
Talvez todos os que eu conheço já tenham dito que querem ser alguém na vida. Pois eu não quero. Quero seu eu e quero que isso baste. Quero conhecer o mundo e que ele me conheça.
Pela primeira vez neste 2016 caótico eu sei exatamente o que eu quero: liberdade.
Você sabe o que quer?

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Labirinto


Ao som de "Assinado eu" - Tiê

Poderia dizer que caminhou em círculos, mas não era redonda - talvez só aos olhos de alguns distorcidos. Nessa visão, talvez fosse a própria distorção. Aos seus, era só sua. Seguiu, reta, direta, linha. Passo ante passo - ou seria anti? Não sei. Se anti fosse, oposto seria? Não sei. Não sabia. Seguia. A passos frente a frente - não opostos, mas complementares. Complementava-se a si mesma. Sem jogos ou rodeios. Apesar do espaço de sobra, sabia que era tudo seu - teu. Dela. Transbordava-se. Apesar de estar perdida em si, sabia exatamente onde estava e onde não queria estar. O ressoar das dúvidas não era nada se comparado com o gritar das certeza - era dela. Sabia disso. Embora ele não o fosse. Não importava mais.
O céu tranquilamente brilhava acima de sua cabeça. Era estranho perceber o quanto achara de si em tão pouco tempo conhecendo seus traços. Os lábios, finos demais. O nariz, rechonchudo. O sorriso. Esse o mais bonito do mundo. Perdida nas palavras que nem sempre conseguia falar, afogava-se nos sentimentos que nem sempre transbordavam para fora - às vezes, sufocavam. Tampavam as narinas e, ah, faziam-na esquecer do mundo. Da ansiedade. Do paladar.
Amar a si mesma é a tarefa mais difícil com que se deparou em todos estes anos de vida. Olhar no espelho e ver alguém feliz, completa e sua. Amar o riso frouxo, o choro preso e o sentimento mal condido. Sem querer, ia sumindo por ai. Doando-se nos outros. Perdendo-se nas esquinas. É fácil esquecer da gente quando não sabemos mais quem somos. Nos perdemos dentro de nós - nas dobrinhas da barriga, na covinha da risada. Nas frases que deixamos de falar. Nos amores que deixamos de amar. 
Às vezes, a plenitude do encontrar está no deixar ir. Esquecer. Desamar. Para, então, amar de novo. De dentro da gente. Do fundo do peito. Saindo, enfim, de dentro daquela escuridão que é ficar perdido onde a gente desconhece. 

domingo, 19 de junho de 2016

Ao lado



A passos miúdos de quem já havia andado demais na vida entrou na sala escura. Parecia muito maior do que de fato era - iluminada a meia luz, poltronas confortáveis. Tudo parecia simples demais perto do que já fora um dia. E não era mais. Não havia glamour em ir ao cinema. Ato rotineiro de mães, avós e casais. Não era um grande evento como antes - as pessoas não se arrumavam para ir à matinê. Na verdade, talvez só colocassem um roupa melhor pelo fato de terem que encontrar com outras pessoas no tão famigerado shopping center. 
Sentou-se da mesma forma: devagar e com leveza. Não era todo mundo - já dizia sua mãe. E iria apreciar o filme como quando era jovem: quando a preciosidade do cinema estava no momento, em se capturar cenas graciosamente, tentando passar ao telespectador toda emoção do roteiro. 
Hoje, mesmo com as técnicas afiadas de fotografia, a narrativa cada vez mais aperfeiçoada, as pessoas deixaram de contar histórias. Bombas, explosões, sexo. Filmes não eram como antes - feitos meticulosamente para serem compreendidos. Não estavam mais mastigados pra quem não entendia nada de cinema - agora eram complexos de uma forma vazia. Que a mente pode até acompanhar, mas os olhos se perdem - como compreender algo que não se enxerga? Não se sente?
Um suspiro profundo percorreu-lhe o corpo. Talvez o cinema tivesse acompanhado o amor. Nos primórdios, parecia flor: desabrochava quando bem regado. Depois, foi tolhido, se moldou ao patriarcado. Tardiamente, descobriu-se livre. Ah. Foi justamente nessa época que conheceu Rosa. Livre como uma folha e forte, ah, forte como um prédio de 20 andares. Rosa não era sua - era dela e escolheu se compartilhar com ele por longos 50 anos.
Talvez o cinema tivesse acompanhado o amor ambos decaídos de seus tempos áureos, agora esgueiravam-se em bares, enchendo a cara de poesia vazia. Poesia sem verso. Sem nexo. Nem sentimento. 
Mas não Rosa. Plenamente confortável em sua solidão, ela o amou. Não como o cinema, mas como companheiro. Com direito a mãos dadas depois do jantar e risadas no meio da noite. Amou mais do que se poderia amar alguém - assim, de tão pleno, a gente até esquece que está amando.
Hoje, Rosa não estava mais ali. Partiu, levando consigo um pedaço da alma dele - alma compartilhada, plena e lúcida. Amor vívido, mas incansável.
Talvez o cinema tivesse tentado acompanhar o amor, mas falhou porque este, ah, seguiu em frente, cresceu e voou. Talvez de forma torta. Errônea. Mas nunca pouca. Nunca em migalhas. Enquanto filmes a gente faz da boca pra fora, amar, ah, amar a gente sente do peito pra dentro. 

Dedico este textos a todos que, como eu, não sabem amar pela metade. 

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Cova

Não era mais que qualquer outra pessoa. Seu cabelo não era mais interessante. Sua roupa mal poderia se chamar diferente. Era ordinária, como diriam alguns. Não sabia se por dom ou por maldição, foi outra coisa, menos palpável, que cavou sua cova desde o início - o desamor.
Não dela pelos outros - na verdade, transbordava sentimento. Era afeto puro - daqueles que a gente coloca no choconhaque pra aquecer um pouco mais. Floquinhos de açúcar poderiam se transportar de seu riso para um xícara de chá - tão doce era a menina. Mas nem sempre o mundo sabe como apreciar a doçura - às vezes, é a pauladas.
Não sabia quando ia acontecer, mas que aconteceria. Era um fato, não consumado, mas premeditado. Talvez fosse jovem demais, esperançosa de menos. Talvez fosse incompleta em seu pequeno ser - sendo que jamais tinha sido. Era constelação e estrela só. Solitária, brilhava em seu universo particular, incomodando uns, animando outros. Mas reluzindo só para si mesma.
Sem pensar em nada, dançava. Rodopiando no ar, seguia. Nítida. Sua. Imensa. O erro estava em não olhar - não ter visto que, naquele canto, naquela rua escura, tinha alguém a observando. Olhava de longe, quieto. Gatuno não fazia barulho. Ouvia o respirar dela, tranquilo, animado pela noite estrelada. Quando começou a caminhar atrás de seus pequenos pés, sentiu o coração disparar - era ódio. Não amor. Sentia a raiva pulsar observando a menina que, sem saber, pecava ao ser feliz.
Era ordinária - sempre pensou. Quantas de nós não tem o cabelo curto? Quantas não usam moletons em detrimento dos casacos que esquentam pouco? Tantas. Quantas de nós usavam jeans folgado? Quantas preferiam beijar meninas e não meninos? Tantas. Mas não para ele. Para ele eram umas poucas - pragas que precisavam ser excluídas da realidade. 
Num bater surdo, a atingiu. Chamava-se realidade. Como um furacão que não tinha mais para onde levar a destruição, a atingiu. Atingiu assim, sem perguntar, sem emitir som de piedade. Na verdade, sentiu alívio - eliminava mais uma.
O espesso líquido vermelho que escorria pela barra de ferro não significava nada se não cura. Cura de todos os amores. Cura de todas as lutas. O sangue vermelho representava a vitória fictícia da moral. 
Como num sonho, despertou. Estava sentado numa cadeira fria, olhando para as luzes confusas da polícia. Haviam descoberto. Tirado o cobertor de sua fúria e mostrado ao mundo sua justiça. Com sorriso de vitória, seguiu. Dentro da cela, nada mais o esperava - a justiça havia sido feita. A fúria, no entanto, veio mais tarde, quando ouviu no jornal que a morte tinha sido ocasionada pelo momento, pela noite, pela solidão da menina. Esqueceram de dizer seu pecado. Esqueceram de mencionar o justiceiro. Esqueceram. Afinal, crime passional, homem que não pode se controlar, é natural. Matar por ser homem é natural - justificável se a vítima era uma mulher. Injustificável era matar por ser lésbica. Isso não existe - diziam. Ninguém mata por isso - justificavam. A única unanimidade estava em dizer que a culpa era da roupa, do cabelo, do gênero. Da mulher. 

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Cores frias x cores quentes


Um era azul. O outro vermelho. Sendo pertencente às cores frias, deveria, portanto, ser também ele gélido. Calculista. Simétrico. Mas não era. Distante no início, aproximou-se de tal forma que não mais cabia na palma da mão. De uma sutileza sem igual, corria pelas veias dela, enchia seus poros de alegria com o sorriso torto, o bigode mal feito e os olhos brilhantes. De um amor. Uma plenitude. Podia ser azul e ser quente? Seria, de fato, o azul do seu coração a cor que fazia ferver a pele dela? Talvez tenha sido. 
O vermelho, completamente oposto, não sabia ser cauteloso. Era explosão. Sentimento vivo. Palpável, Atordoava. Tirava o ar. Todo o fôlego guardado naquele azulado calmo se perdia em meio ao queimar do fogo ardente. Complementares. Únicos. Azul e vermelho ardiam na mesma intensidade, mas em elementos diferentes.
Sem compreender a imensidão de cada um, seguia. Por vezes, esbarrando em um. Em outras, agarrando o outro. A dor do não largar permanecia, mas a dor do inesperado, do inconfundível amor à primeira vista, ainda ardia no peito. Ardia constante. Diariamente. Não sabia o que era intervalo - toda hora era hora de pensar.
Talvez na imensidão do sentimento contínuo seja possível que o amor se divida em dois: presente e passado, sem perder a intensidade, o calor e a calmaria. Da mesma forma que o fogo queima os dedos sem tocar, o gelo arde na pele com o simples encostar. É leve, suave, dolorido e permanente. Talvez as cicatrizes tão profundas sejam irreversíveis. Talvez os machucados, os pedaços e o caminho esteja permanentemente remendado. Indesculpável. Indescritível, Mas segue. Porque todo gelo que havia ficou para trás: foi, lentamente, se derretendo pelo vermelho. Pelo calor que, sem mais nem menos, aqueceu. Esquentou. Se fez presente. Ir embora? Ah. Essa é uma pergunta que não dá para ser respondida ainda. 

Dogville particular


De longe, era só mais um senhor pacato. Morava em uma casa de esquina num bairro em que todos se conheciam. Eram velhos amigos desde antes de se conhecerem há mais de 50 anos. Sabiam dos filhos, dos netos. Quem fizera faculdade. Quem largara o curso. Quem engravidou antes do casamento. Quem dormia com todas e todos. Cada detalhe era capciosamente compartilhado como aquele pedaço de bolo que a gente faz especialmente pra visita - as crianças não podem tocar antes, mesmo vivendo ali, porque a ideia é justamente que o convidado se sinta especial. Parte da vida da gente - mesmo que a vida não seja dele.
Pertencemos ao outro antes mesmo de pertencemos a nós mesmos. Esse era o lema implícito daquela singela vila. Talvez, fosse a vontade unânime de cuidar. De querer o melhor para o outro. Claro, o que é bom para nós obviamente será bom para todos - já pensava Hitler, Mussolini ou Getúlio.
De uma grandeza simples, pouco particular, mas sempre bem humorada, a comunidade ia seguindo, cuidando vagarosamente de vidas que, mais do que delas mesmas, eram de todo mundo.
O velho senhor, mais do que alguém que apenas morava na casa da esquina, também era pai, avô, vizinho. Obviamente, portanto, sabia muito bem como cuidar. A passos lentos, ia tomando pra si uma vida que não era sua, mas que, é claro, lhe pertencia uma vez que as contas eram pagas com seu dinheiro suado de falcatruas de meninice. Quer dizer, aposentadoria de um homem honesto. Quando a gente é singelo, comum, ordinário, e não rouba grandes quantias ao mesmo tempo em que trabalha como uma mula numa grande fábrica levada pelo proletariado, está mais do que claro que é justo tirar unzinho por fora. Ainda mais se formos brancos - que mal tem, já que não temos mal nenhum? Somos pessoas de bem. 
Seguindo em seu diário cuidar, o senhor ia. Tocava sua vida e de seus compatriotas a esmo. Afinal, o que seriam deles sem seu ralado dinheirinho? Portanto, controle total e vigilância completa era o mínimo que poderiam lhe oferecer.
O velho havia percebido há muito tempo algo que, muitas vezes, nós, jovens incorretos e incapacitados, demoramos a vida toda para aprender: homens (brancos e burgueses) de bem sempre controlam, ganham e estão por cima. É a lei da vida. Da selva. Da comunidade. Dói mais não aceitar. Não entender que sua incapacitada existência não tem propósito se não quando cuidado pelos tais homens de bem. Como uma grande verdade que brilhou no céu, está se prostrou na Terra. Única. Inabalável. Tudo pela palavra dos homens de bem. 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Riso

Não era sorriso. Era verso. De tanta rima de tinha num único sorrir. A gargalhada fácil, contida no riso tímido. Não sabia como soltar, mas quando soltava, ah, não tinha meio riso. Era inteiro. Repleto de alegria. Podia ouvir seu rimar o dia inteiro - indo de um canto ao outro do olhar. 
Talvez fosse mesmo a timidez que fizesse o contágio daquela felicidade contida: de tanto conter, transbordava. Na pequenez desse mundo não cabia - mas haveria de caber! Onde já se viu doar felicidade porque não é do tamanho da gente? E não era. Não tinha como negar. 
O vento trazia as palavras, fáceis, simples, cheias de peso, mas não de pesar. O riso imperfeito ia cantarolando no peito batidas desritmadas. Arritmia amorosa? Nunca ouvi falar - mas já ouvi sentir. Sentida tão plenamente que nem os passos descompassado da respiração podiam acompanhar. Era verso. Poema em forma de gente.
Ah, gente. Essa que nem sempre sabe onde chegar. Nem sempre sabe o que fazer. Mas faz. Por verdade. Razão. Ou medo. Medo de passar a verdade com razão de ser. Ser verso. Ritmo. Descompasso. Não sabia mais ou talvez soubesse, mas não quisesse nos contar. 
O verdadeiro sentimento não vem de dentro pra fora - ele entra na gente como quem não quer nada, todo bobo, fingindo que está só de passagem. Quando nos damos conta, já fez a cama, regou as plantas e colocou a própria escova de dentes no banheiro. Mas é um folgado mesmo. Sem questionar, entra sem fazer cerimônia, jogando-se no sofá que é a vida da gente - bagunçado e precisando de faxina, diga-se de passagem.
Mas quem disse que se importa, esse safado? Importa nada. Se tiver sentimentos no compartimento pra se alimentar, umas lágrimas pra secar e um coração pra tricotar tá bom. Tá tudo muito mais do que bom. E o riso? Esse vai lento. Em forma de poesia conduz a vida da gente. Às vezes, fazendo dos olhos pequenas fendas que, ah, mesmo assim, não deixam de brilhar. 

sábado, 21 de maio de 2016

Unos

Mal contido. Pouco comedido. Era cometa que serpenteava no céu. Talvez fosse o andar gingado ou o sorriso frouxo. Talvez fosse o sabor das palavras ou o estontear das sandices. Talvez fosse tudo o que era. A única certeza era que já a havia cometido.
Sob o céu estrelado, os risos se fizeram palpáveis. Os sonhos, ah, esses tão distantes do dia-a-dia tribulado reconheceram ombro em que descansar. Sem palavras. Apenas afetos. Afetados que, sem explicação ou sons, seguiam de mãos dadas.
Os ventos sopravam com violência. Uivando à meia luz. Não parecia noite. Parecia utopia. Disforme, desconexa, tangível. Rápida e inocente, cortava as nuvens com suas realidade - de tão irreal que era, acabou por se consumar.
Produto não desejado de uma menina sem mar. Perdidas nas gotas do seu existir. Não desejado. Não querido. Não pensado. Vivido. Plena e constantemente. Viver. Com intensidade e imensidão, observando as miçangas que iam virando colar.
Sempre acreditou ser uma despedideira, daquelas dos contos de Mia Couto. Agarrada ao partir dos amores. Presa sem reação naquela trama. Mas enganou-se. De despedida não tinha nada. Era apenas solitária em sua imensidão, liberta de todas as despedidas.
Encontrada em si, era una. Sua. Somada a unidez de quem mais sabia ser uno poderiam ser o que Mia Couto chamaria de "uno" no plural. Unos.


domingo, 10 de abril de 2016

Na companhia (companheirismos)

Era tarde. Mas não o suficiente para os amantes. Ah, esses nunca veem a cor dos céus, o esvaziar e encher as ruas. Não sentem os ventos ou ouvem os sussurros. É como se o tudo girasse só para eles. 
O calor, tangível e impregnado naquela tal flor que fica na pele, ocupava um espaço comum nos corpos, mas não era capaz de afastá-los. Afinal, o que seria?
Talvez o motivo da incapacidade fosse o olhar. Compreensivo. Gentil. Companheiro. Olhar de vida. De anos. Inteiro. A imensidão, que sempre capitada aos poucos, estava ali, em sua plena forma, tão frágil e a mostra. Tão fácil de ser percebida. 
A completude de seus dias que chegou desavisada, sorrateira, sem deixar rastro ou fazer barulho, ia escalando os degraus da escada. Chegando ao topo, avistava a mais bela vista - luzes coloridas, prédios que impunham, em seus topos, a imposição que nem sempre tem o tudo.
Estacionou na então (in) completa vida. Aquela sensação de insensatez. Eram céus, arranha-céus, e ofegares. Ofegastes. Juntos. Sozinhos. Tão seus. Nossos. Plenos. Uma poesia que dançaria dançante. Perambulando entre os topos, entre as ruas. O entrelaçar de dedos. 
A melhor sensação, aquela que se tem na imensidão quente da noite escura, é o olhar em olhos inteiros, entrelaçados por mãos, braços, pernas e dizeres. História contada sem palavras.
A brisa, tão rebelde quanto a caloração, dava o recado: que se leve o que há de ruim. De dor. De mágoa. Que só fique a fortaleza de ser como se é: completo. Companheiro. 

segunda-feira, 21 de março de 2016

Indo

Gerúndio do verbo "ir". Ruim para se começar frases - pelo menos, em português. Going. Continuidade muito mais contínua do que apenas "ir em frente". Let all go now - uma variação da variável em questão é como um pássaro com diversas formas diferentes de voar. Tem gente que diz que "a arte imita a vida", mas, talvez, a frase correta pudesse ser "a língua imita a vida". Expressa. Contínua. É como tilintar das palavras nos lábios - tão singelas, mal entendem que vão nos fazer entender...

O caminho parecia estreito - tanto quanto poderia se esperar de um quarto sem janelas ou portas. Abafado. Mas único - não havia escolha ou opção. A possibilidade de não ser era tão grande quanto a própria inexplicável sensação de certeza. Ouvindo o bater de seus próprios tênis no chão, ecoando levemente com a falta de precisão da vida, sabia que o corredor estreito, talvez, não fosse tão claustrofóbico quanto parecia ser. Poderia ser libertador. 
O céu, tão claro e pouco harmonioso com os ânimos da menina, brilhava sobre sua cabeça. Nuvens imperceptíveis dançavam conforme a Terra se movia. Giravam pela atmosfera numa das tantas camadas que a gente que não entende nada de física ou biologia mal sabe nomear. Só sabe que estão lá como a incerteza na certidão do caminho estreito.
A passos largos, continuava a andança para não se sabe onde. Passos largos como forma de expressão, é claro, porque suas pernas curtas não permitiam realmente passadas de fato longas. Quisesse correr, correria como uma tartaruga - talvez chegando lá, mas de forma bem lenta, tempo suficiente para refletir ou internalizar as discussões de sua cabeça que, simplesmente, não eram suas mas de alguém que morava ali. Alguém completamente desconhecido e inerte aos problemas da vida. Alguém que gostava muito de ler - mas sabia pouco como transformar ação literária em prática consumada.

Refletida em si mesma sem se encontrar, continuou na meninice de seus dias. Seguindo, no gerúndio e em português, naquela busca pela língua que refletia a vida - ou, talvez, refletindo a língua na vivência de menina.