Eu tenho tanta coisa para te dizer, querida, que nem sei por onde começar. São tantos anos juntas, tantos anos, que mal consigo lembrar de como nos conhecemos. Acho que sempre estivemos juntas, mas que nossa relação começou mesmo a ficar séria no ensino médio. Eu tinha saído de uma escola industrial e, de certa forma, "do povão" pra um ensino particular caro que não tinha nada a ver com minha vida até então. Sai de uma avaliação média/baixa para uma escola de alto padrão em que eu não me encaixava - bolsista, né, quem quer se envolver de fato? E foi ai que você me encontrou. Você me disse que eu tinha que focar nos estudos, que precisava tirar boas notas, que tinha que manter a bolsa. Naquele primeiro ano você tirou meu fôlego por completo - tinha dias que eu nem lembrava mais como se respirava. Cheguei a desmaiar por você.
Anos mais tarde, você começou a me deixar deprimida - depois de um relacionamento abusivo, muito menor do que o que nós temos, você foi a única coisa que me restou, mas, mesmo assim, queria que ficássemos deitadas, juntas, na cama, o dia todo. Você sempre me quis só pra si mesma.
Posteriormente, já na faculdade, sua possessão se agravou. Você se tornou cada vez mais ciumenta e, alguns dias, simplesmente não me deixou sair de casa. Alguns dias, me fez ficar chorando sozinha ao seu lado. Isso quando não brigava comigo em lugares públicos e me fazia ficar paralisada, sem saber para onde ir. Desde então, nossa relação só se tornou mais e mais controladora - por você, é claro.
Hoje consigo entender todo o mal que você me faz - às vezes, consigo fazer com que você trabalhe a meu favor e me ajude a executar minhas tarefas mais rápido. Às vezes, não. Às vezes, você só tira meu ar completamente e me diz como é difícil me amar.
Às vezes, você some por meses e vai aparecendo devagarzinho ao longo de uma semana - até que me dá um susto e me prende novamente na cama. Você é ruim pra mim, mas sinto que nunca vai realmente me deixar. Você é a única com quem posso contar pra sempre, não é mesmo? É isso o que você sempre me diz. Que ninguém pode me amar como você ama. Que não sou digna de amor. Você sempre me diz que faço tudo errado e que você é a única que aprecia meus talentos. Você sempre me diz o quanto sou patética. E eu acredito em você.
Você me prende nesse círculo vicioso, você me tortura, você me bate. E, então, quanto estou tão paralisada que mal consigo me mover, você me faz apagar de sono. No dia seguinte, sem mais nem menos, você vai embora, sempre deixando um grande rastro de destruição pela casa. Rastro este que passo semanas tentando consertar - com relacionamentos superficiais, egos inflados e cigarro. Sempre esperando que você não volte mais - mas você sempre volta, não é mesmo?
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