quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O Grande Irmão e nossos pais

É muito provável que o Grande Irmão se sentiria à vontade entre a geração de nossos pais e avós assim como é muito provável que eles se sentiriam confortáveis com muitas das ideias propagadas (ou implantadas através de lavagem cerebral) pelo Grande Irmão.
Ao observar essa afirmação por uma perspectiva pouco analítica muitos dirão que eu estou sendo completamente injusta, mas, quando tal observação é vista de maneira mais crítica e aprofundada, é possível que compreendam meu ponto de vista com mais facilidade e menos “bronca”.
Quando nos deparamos com as ideias plenamente conservadoras ditas e repetidas pelas gerações mais experientes do que a nossa, nosso primeiro instinto é acatá-las. Sim, quando nós somos mais jovens, nós simplesmente acatamos o que nossos pais e avós disseram sem muito refletir porque, na nossa pequena cabeça, eles geralmente estão certos. Depois, quando nos tornamos adolescentes nosso instinto principal é refutá-las – não porque nós refletimos a respeito e discordamos, mas porque é nosso dever como adolescentes pensar que nossos pais dizem e fazem tudo errado. Por fim, nós nos tornamos universitários e é ai que o bicho pega – literalmente.
A universidade é um lugar novo, cheio de pessoas que querem (ou não) aprender coisas novas e que estão abertas para novas experiências e conhecimentos (não necessariamente bons). O fator principal aqui é que a característica que marca muitos de nossos jovens adultos é a revolução. Sim, porque nós começamos a nos questionar sobre tudo – sobre o que aprendemos durante o ensino médio, sobre as coisas absolutamente importantes que não aprendemos e, principalmente, nós começamos a nos questionar sobre o mundo – mais especificamente sobre nosso “mundinho”, nosso país.
É nesse momento que nossas ideias se embaralham mais e mais e nós começamos a compactuar com “ideias esquerdistas”, revolucionárias, iluministas. É precisamente nesse instante que nós começamos a nos perguntar por que nosso país é como é, se não podemos fazer nada para mudá-lo e como nossos pais nunca se deram conta da bagunça que está acontecendo frente aos olhos de todo mundo.
Ai que entra o conservadorismo, a revolução, nossos pais e o Grande Irmão. É ai que nós começamos a entender como essas coisas que parecem completamente sem nexo juntas, são simplesmente essenciais umas as outras.
Nossos pais nem sempre foram os conservadores que vemos hoje – talvez alguns poucos o fossem e, é bem provável, que foram completamente contestados durante a faculdade. Esses adultos antigos, completamente obtusos e que sempre dizem “o Brasil não vai pra frente” já foram os jovens revolucionários que nós somos hoje. Esses caras simplesmente pintaram os rostos e foram às ruas gritar por melhorias, por mudanças. Foram eles que tiraram um “presidente ladrão” do poder apenas com sua revolta.
Daí você se pergunta: mas se eles eram assim, então por que não continuaram? Por que não continuaram lutando por mudanças? Agora que já falamos sobre revolução e pais, está na hora de encaixarmos nessa história o conservadorismo e o Grande Irmão. É aqui que está o “x” da questão: eles cansaram. Exatamente: nossos pais não tinham mais tempo para revolucionar, conseguir um bom emprego, brigar com o chefe porque não concordavam com sua forma de liderar e, ao mesmo tempo, constituir uma família. Nossos pais não tinham mais inspiração para questionar o que já questionaram um dia. Você acha que pode culpá-los? Eles provavelmente passaram quatro ou cinco anos de suas vidas brigando para que as coisas mudassem, passaram tanto tempo gritando e se revoltando quanto era possível... Mas chegou um momento em que eles tiveram que “crescer” e foi ai que eles se tornaram conservadores. Foi a partir desse momento que eles proibiram você de ir aos “protestos que mexeram com o Brasil”, impediram você de chegar depois das 23h durante a semana... Foi nesse momento que eles começaram a pedir para que você não tivesse ideias perigosas, revolucionárias ou questionadoras. Foi aqui que eles pediram pra você pensar menos e se conformar com as coisas que não podem mudar (tudo). Foi exatamente aqui que eles decidiram zelar pela sua segurança, nem que para tal eles tivessem que brigar com você, tivessem que ouvir que são velhos e que não sabem lutar... Foi aqui que eles aceitaram que você os chamasse de covardes conformados – foi aqui que eles negaram a você o que eles já foram um dia.

Entendeu onde o Grande Irmão entra nessa história toda? Sinto muito informar, mas esse ponto específico eu vou deixar subentendido. Espero que você não condene mais seus pais por seus pensamentos conservadores, assim como espero que continue lutando mesmo que nada mude nunca.