É muito provável que o Grande
Irmão se sentiria à vontade entre a geração de nossos pais e avós assim como é
muito provável que eles se sentiriam confortáveis com muitas das ideias
propagadas (ou implantadas através de lavagem cerebral) pelo Grande Irmão.
Ao observar essa afirmação por
uma perspectiva pouco analítica muitos dirão que eu estou sendo completamente
injusta, mas, quando tal observação é vista de maneira mais crítica e
aprofundada, é possível que compreendam meu ponto de vista com mais facilidade
e menos “bronca”.
Quando nos deparamos com as ideias
plenamente conservadoras ditas e repetidas pelas gerações mais experientes do
que a nossa, nosso primeiro instinto é acatá-las. Sim, quando nós somos mais
jovens, nós simplesmente acatamos o que nossos pais e avós disseram sem muito
refletir porque, na nossa pequena cabeça, eles geralmente estão certos. Depois,
quando nos tornamos adolescentes nosso instinto principal é refutá-las – não
porque nós refletimos a respeito e discordamos, mas porque é nosso dever como
adolescentes pensar que nossos pais dizem e fazem tudo errado. Por fim, nós nos
tornamos universitários e é ai que o bicho pega – literalmente.
A universidade é um lugar novo,
cheio de pessoas que querem (ou não) aprender coisas novas e que estão
abertas para novas experiências e conhecimentos (não necessariamente bons). O
fator principal aqui é que a característica que marca muitos de nossos jovens
adultos é a revolução. Sim, porque nós começamos a nos questionar sobre tudo –
sobre o que aprendemos durante o ensino médio, sobre as coisas absolutamente
importantes que não aprendemos e, principalmente, nós começamos a nos
questionar sobre o mundo – mais especificamente sobre nosso “mundinho”, nosso
país.
É nesse momento que nossas ideias
se embaralham mais e mais e nós começamos a compactuar com “ideias
esquerdistas”, revolucionárias, iluministas. É precisamente nesse instante que
nós começamos a nos perguntar por que nosso país é como é, se não podemos fazer
nada para mudá-lo e como nossos pais nunca se deram conta da bagunça que está
acontecendo frente aos olhos de todo mundo.
Ai que entra o conservadorismo, a
revolução, nossos pais e o Grande Irmão. É ai que nós começamos a entender como
essas coisas que parecem completamente sem nexo juntas, são simplesmente
essenciais umas as outras.
Nossos pais nem sempre foram os
conservadores que vemos hoje – talvez alguns poucos o fossem e, é bem provável,
que foram completamente contestados durante a faculdade. Esses adultos antigos,
completamente obtusos e que sempre dizem “o Brasil não vai pra frente” já foram
os jovens revolucionários que nós somos hoje. Esses caras simplesmente pintaram
os rostos e foram às ruas gritar por melhorias, por mudanças. Foram eles que
tiraram um “presidente ladrão” do poder apenas com sua revolta.
Daí você se pergunta: mas se eles
eram assim, então por que não continuaram? Por que não continuaram lutando por
mudanças? Agora que já falamos sobre revolução e pais, está na hora de
encaixarmos nessa história o conservadorismo e o Grande Irmão. É aqui que está
o “x” da questão: eles cansaram. Exatamente: nossos pais não tinham mais tempo
para revolucionar, conseguir um bom emprego, brigar com o chefe porque não
concordavam com sua forma de liderar e, ao mesmo tempo, constituir uma família.
Nossos pais não tinham mais inspiração para questionar o que já questionaram um
dia. Você acha que pode culpá-los? Eles provavelmente passaram quatro ou cinco
anos de suas vidas brigando para que as coisas mudassem, passaram tanto tempo
gritando e se revoltando quanto era possível... Mas chegou um momento em que
eles tiveram que “crescer” e foi ai que eles se tornaram conservadores. Foi a
partir desse momento que eles proibiram você de ir aos “protestos que mexeram
com o Brasil”, impediram você de chegar depois das 23h durante a semana... Foi
nesse momento que eles começaram a pedir para que você não tivesse ideias
perigosas, revolucionárias ou questionadoras. Foi aqui que eles pediram pra
você pensar menos e se conformar com as coisas que não podem mudar (tudo). Foi
exatamente aqui que eles decidiram zelar pela sua segurança, nem que para tal
eles tivessem que brigar com você, tivessem que ouvir que são velhos e que não
sabem lutar... Foi aqui que eles aceitaram que você os chamasse de covardes
conformados – foi aqui que eles negaram a você o que eles já foram um dia.
Entendeu onde o Grande Irmão
entra nessa história toda? Sinto muito informar, mas esse ponto específico eu
vou deixar subentendido. Espero que você não condene mais seus pais por seus
pensamentos conservadores, assim como espero que continue lutando mesmo que
nada mude nunca.