Andando por esse mundão a fora, ela quase nunca parava para olhar no relógio - "saber as horas para quê?", pensava, petulante. Nesse seu imenso universo particular, não fazia sentido contar o tempo da mesma forma que todo mundo, uma vez que ele se passava para ela de forma diferente. Não me entendam mal: nossa protagonista é um ser humano ordinário, que faz coisas ordinárias, que envelhece de forma ordinária e, eventualmente, morrerá - talvez não de forma tão ordinária assim. Na verdade, nossa protagonista realmente parece uma menina ordinária. Parece mesmo - não vou discordar de você. Mas o fato é que: não é. Talvez não pra mim.
Nossa protagonista - vamos chamá-la de Alice? - está mais para uma menina estranha do que ordinária. Alice não gosta de comer frutas, embora aprecie um bom legume. Alice também não gosta de esportes coletivos, embora adore praticar esportes e goste (na maior parte do tempo) de pessoas. Mas, quando se trata de tempo, as coisas ficam muito mais confusas para Alice: ela se perde. Assim, num piscar do olhos, está tomando café da manhã em um lugar em que nunca esteve - possivelmente em sua mente distorcida, diriam alguns. De fato. Alice não pensa como a maioria das pessoas: para ela, o tempo passa de forma muito mais lenta e gradual. É quase uma daquelas melodias de Vivald - "Inverno", se eu pudesse nomear.
Às vezes, quando ninguém está olhando, Alice fica ali, caminhando e olhando pro céu - assim, como alguém que procura um sinal, algo que mude completamente sua forma de ver o mundo. Nessas horas, o tempo passa rápido. Voa por Alice. No entanto, em outros momentos, como quando observa o cair das folhas num parque no verão, os minutos passam devagar - em uma hora se passam apenas cinco minutos.
Mesmo assim, mesmo sem compreender como o tempo come sua vida com tanta voracidade, Alice tenta ser diferente. Tenta interromper esse fluxo contínuo de pensamentos que domina seu coração e sua mente. Tenta não pensar, ser um completo breu - mas já vou adiantar que, na maior parte das vezes, não dá certo.
Em meio a tantos pensamentos contínuos e mal espaçados, Alice segue sua vida tentando segurar o tempo, interromper o fluxo e voltar a ser uma menina normal. Tenta, desesperadamente, encontrar sentido num mundo tão perdido quanto o nosso.
A primeira vez que vi Alice ela estava tentando fazer um bolo, mas queria quebrar os ovos e fazer com que o conteúdo caísse no seu tempo. Alice tentava controlar os ovos, uma vez que não conseguia ter controle sobre sua própria vida. Achei admirável a forma como, sem muitas opções, nossa protagonista se apegava a coisas pequenas como o tempo que irá assar um bolo ou sua própria respiração - às vezes, Alice ficava sem respirar de propósito, apenas para provar ao seu próprio corpo que ele era seu e de mais ninguém.
Falar de Alice é como falar de mim. Da gente. Desse povo que não para nem por um minuto para não perder o controle do seu próprio tempo, do seu próprio corpo, do seu próprio eu. Somos milhares de Alices por ai - algumas mais deprimidas e melancólicas do que outras, mas sempre tentando controlar o pouco que nos resta, uma vez que, de tudo, praticamente nada sobrou pra gente. É como se o mundo girasse ao contrário enquanto nossa própria órbita mal está alinhada com essa em que a gente vive. Nosso viver, às vezes ansioso, às vezes deprimido, é completamente alheio aos demais viveres que nos cercam, como se enquanto estamos tentando controlar as batidas do nosso coração, as demais pessoas estivessem felizes jogando futebol ou lendo um bom livro - ambas as coisas sem o menor estresse.
A verdade é que, para Alices, é muito difícil fazer qualquer coisa sem estresse - até atividades de lazer se tornam estressantes, ainda mais quando nossas protagonistas consideram que não são produtivas, que não estão fazendo nada de produtivo ao se divertir.
Ser Alice é complicado - tanto quanto ou talvez mais do que o simples existir. Ser Alice é querer viver existindo, assim, constantemente, sem parar nem um segundo para desistir. Ser Alice é querer ser mais do que uma menina ordinária e conseguir - mas, então, tentar de novo ser mais do que já se é. Ser Alice é complicado - machuca nosso próprio coração em busca de mais crescimento pessoal. Ser Alice dói - mas algumas de nós são masoquistas, não é mesmo?