domingo, 29 de agosto de 2010

Olhos

Cada um daqueles que escrevem gostam de alguma característica em especial, cada um deles tem fixação com alguma coisa, algo que coloca em todos os seus personagens e história. Eu tenho fixação com olhos. Acho que ninguém gostou tanto deles como eu. Todos os meus textos fala, em algum momento, sobre essas pequenas coisinhas que ficam em nosso rosto não apenas para enfeitar, mas para nos fazer enxergar. Uma vez uma amigo me disse que aqueles com olhos claros vêem mais claro do que aqueles de olhos escuros. Isso me deixou tentada a trocar meus olhos por um dia (risos).

Sabe, li em um livro que "Os olhos são a janela da alma" e acredito seriamente nisso. Quando fitamos alguém, quando seu olhar se encontra diretamente com o nosso, então alguma coisa acontece.

Quando dois apaixonados se fitam, um faiscar percorre todo o seu corpo, os deixando completamente imóveis, completamente obtusos no que seus lábios farão a seguir. Esses, por sua vez, abrem-se vagarosamente como se saboreassem o momento antes mesmo de encontrarem seus opostos.

Pela primeira vez vi algo de intelectualmente interessante no que meu professor de matemática disse. "Ângulos correspondentes não são ângulos que se encaram, mas sim, ângulos que olham juntos para o mesmo sentido", acho que foi a coisa mais complexa que ele poderia ter dito como poeta. Não que eu duvide de sua capacidade, longe disso, apenas acho que ele pensa muito em números ou em letras que, por trás, representam números. Talvez se ele olhasse tais algarismos com mais profundidade, poderia formar mais frases fabulosas como essa que vimos agora a pouco.

"Olhares correspondentes são olhares que olham juntos num mesmo sentindo", boa frase, não? Obrigada, professor de matemática.

Para mostrar como são importantes, os olhos até fazem parte da matemática! Uma matéria exata que não tem nada a ver com o sentido lírico dos olhos em Português ou fisiológico em Biologia.

Através desses pequenos orgãos, as pessoas conseguem olhar através de nossas barreiras exteriores. Sejam eles azuis, castanhos, verdes ou cor de mel, quando os olhares se cruzam, quando fitam um ao outro, mostram a sinceridade que há por trás de cada alma.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Duplo sentido

Sabe, as pessoas nem sempre são como desejamos que sejam. Na verdade, elas nunca são como gostaríamos que fossem. Hoje estava a ver um filme onde o homem era culpado de matar pessoas inocentes, mas pensando bem, ele não era de tudo culpado. Mexer no celular no transito é uma burrada, isso é um fato, mas em contraposto morrer por quem morreu não seria a solução. Eu estava triste até o momento em que ele se matou - no seu caso, foi como uma salvação morrer, aliviar toda aquela dor que estava sentindo por ter matado quem mais amava. Por ter agido de uma forma totalmente errada. Contudo, não faria sentido continuar a viver sendo que ele poderia ajudar mais pessoas que amava se morresse.
Afinal, por que todos nós temos tanto medo da morte? Simplesmente por não saber o que há depois? Não saber se existe céu e inferno? A fé é um tiro no escuro que muitos preferem não dar, porém e essa que sustenta os muitos que opinam por encarar a morte como mais uma vírgula na história de nossa vida. Eu sou um desses muitos. Minha fé é totalmente cega, não sei aonde estou pisando e menos ainda onde estou atirando, só espero atingir meu alvo. Morrer não é algo que me preocupa, por mais estranho que pareça, morrer é ter uma longa noite de sono sem interrupções e acho que eu iria gostar de ao menos uma vez dormir tão bem assim. Tudo tem seu lado bom no final.
Às vezes fico a imaginar quão pequena sou eu nesse grande universo, quão insignificante é a minha mera presença aqui, mas mesmo assim acho que é algo bom. Por mais que ninguém me note, que ninguém saiba de meus sonhos e aspirações, é bom tê-los. Minha existência pode não ter significado para bem mais de duzentos bilhões de pessoas, mas eu sei que teve para pelo menos dez. E isso já trás algum motivo para continuar a viver, continuar a lutar. O importante não é quantos leitores você tem, "um bom escritor, nem que seja por uma única pessoa, continua a escrever". Não sou uma escritora... Ainda. Minhas palavras podem não ter razão na vida de muitas pessoas (muitas mesmo!), porém o que importa é que pelo menos salvei uma alma.
"Morrer será uma grande aventura", essa frase está na minha lista das favoritas. Só existe um motivo para que eu não queira partir nessa aventura e todos sabem qual é ele, não é?

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Manias

Às vezes quando olhamos para o lado, aquele menino dos cabelos escuros e dos olhos inexpressivos está a fazer desenhos imaginários em sua perna ou a garota arruivada não consegue parar de mexer o nariz de uma forma esquisita. Todos nós temos manias. Minhas duas são morder e me coçar. Eu posso não estar com coceira, mas ainda assim começo a me coçar. Sem dizer que não posso ver nada não tóxico (ou tóxico, dependendo do caso) que me coloco a roer em parar, fazendo formas com os dentes, moldando com a língua, brincando com qualquer coisa na boca. É, pareço uma criancinha de seis anos com essa mania, mas cada louco no seu quadrado.
O que quero dizer é que elas nos definem - são as manias que nos diferenciam dos outros, daqueles de quem gostamos ou não.
"Ele andava pelo corredor, seus olhos estavam mais escuros porque era manhã - todos os dias ao amanhecer, Rodrigo tinha os olhos castanho-escuros um pouco mais negros e de tarde, esses clareavam tanto que poderiam ficar castanho-claro. Seus lábios estavam entreabertos enquanto o menino fitava o nada e arreganhava a manga da blusa de frio. Qualquer um poderia dizer que ele queria ignorar a todos ali com aquela postura imponente, mas Carol sabia da verdade. Sabia que aquilo era só fachada, que no fundo ele simplesmente queria ter o poder de andar pelos corredores com todos lhe fitando e poder sorrir. Mas normalmente não temos essa coragem. Rodrigo não era o único.
Carol se encolheu um pouco dentro da sala torcendo para que o moreno não notasse seu olhar sobre ele. Torcendo para que ele continuasse a passear pelos corredores com aquele ar seguro, certo de si mesmo. Queria poder observá-lo mais um pouco até que pudesse descrever cada traço de sua faça, o contorno de seus olhos, o desenho de seus lábios. Queria gravar o tom de suas mechas, o som da sua voz e queria saber como ele piscava os olhos - lenta e demoradamente, concluiu. Nunca viu movimentos tão vagarosos, precisos, quase calculados. Se não fosse pela felicidade enorme que sentiu em saber que ele não a tinha percebido, teria ficado chateada por Rodrigo ter olhado em sua direção sem vê-la.
Um sorriso estonteante em seus lábios e então ele se aproximou. Se aproximou dela. Seus passos pareciam rápidos demais agora, tão perto, tão afobados. Porém o moreno não deixava isso transparecer. Suas sobrancelhas estavam contraídas como ele fazia quando ficava tenso e aquilo fez brotar um sorriso nos lábios da morena. Ele ficava nervoso ao vê-la, pensou cá consigo. Mais perto do que ela poderia imaginar ele segurou suas mãos com ternura e beijou-lhe o rosto. Um beijo de bom dia. Então, ele a havia notado.
E como havia, pensou o moreno. Como esquecer olhos como aqueles? Como esquecer o brilho que ali jazia ao fitá-lo? Não havia modos para fazer tais coisas. Não havia maneiras de não gravar-lhe a cor das mechas, não havia como não lembrar do toque daquelas macias mãos."
Manias. Cada um tem a sua. E os loucos que as possuem conseguem encontrar o caminho da sanidade através da loucura do outro.

sábado, 21 de agosto de 2010

Messenger

"Então ali estava ela. Alice mal podia conter o tremor de suas mãos ao tocar o teclado do computador, seus olhos cor de mel cintilavam enquanto esperava impacientemente para que pudesse enviar mensagens instantâneas para quem tanto desejava. A menina dos cachos dourados almejava sentir o gosto daquelas doces palavras entrando por seus poros como se tivessem sido proferidas ali mesmo - como se Tony estivesse ao seu lado sussurrando-as em seu ouvido com carinho. A cada segundo que se passava sua inquietude aumentava e sentia aquela conhecida sensação de borboletas no estômago. Como um computador poderia causar tais efeitos em uma garota? Como poderia fazê-la se sentir como uma princesa a esperar seu príncipe no cavalo branco? Ou seria seu gato na internet banda-larga?
Seja como for, Alice estava ansiosa e melancólica, não havia olhado naqueles olhos azul-celeste desde o dia de ontem. Desde que Tony pegara em sua mão pela última vez. A menina passou as mãos pálidas pelas pápebras cor de lavanda agora muito frias. Ah, que penosa espera, pensou consigo.
Naquele dia estava tudo nublado, uma densa nuvem parecia se apossar de todo o céu e mesmo assim os olhos dele eram lindos. Havia tanta umidade naquele ar que gotículas de água molharam-lhe o cabelo dourado que escorria em ondas volumosas por suas costas, ela parecia um anjo, Tony pensou. Sua pele macia cheirava a morangos quentes e era tão fina quanto o roçar das folhas de uma rosa branca na grama. Lentamente, os braços dele envolveram a cintura dela e suas mãos pálidas e um tanto frias passaram a memorizar todos os traços do rosto dele.
Alice suspirou lentamente enquanto começava a lembrar de quando haviam se conhecido. Era treze de julho, uma noite sombria e quente. As árvores pareciam não suportar aquele calor tanto quanto os humanos, estavam tão verdes, mas ao mesmo tempo, tão secas. A menina dos olhos mel fitava a copa daquelas árvores sem saber bem porque tinha faltado na aula de artes gráficas da faculdade, sabia apenas que deveria estar em outro lugar naquela hora, naquele dia. Sabia que seu lugar não era a analisar cores, gráficos ou imagens, não nesta noite. Então ele apareceu, os cabelos desgranhados e escuros, vestia uma camiseta surrada que parecia um dia ter sido num azul-royal que combinava perfeitamente com seus olhos. Estava com uma calça puída e sapatos italianos. Nada fazia sentido ali, mas ele sorria. Aquele sorriso brilhante que Alice não imaginava ver naquela noite. Sorria para ela. Mas o que ele queria? Eles não se conheciam, nunca o havia visto no campus da faculdade, não teria esquecido se já tivesse encontrado-se com aqueles olhos. Mal o tinha fitado e já começava a perder-se naquele olhar. Tony se aproximou como num filme em preto e branco. Ainda sorrindo perguntou à Alice o que ela sabia sobre pinguins. A garota simplesmente parecia incrécula - além de bonito e charmoso, ele era louco e repentino também. Com um sorriso, Alice começou a andar para longe do moreno que ficou a fitá-la por um bom tempo até que desaparecesse nas sombras. Os começos nem sempre são como esperam as pessoas. Mas ainda assim são começos."
É assim que os apaixonados se sentem. Sem saber se aquilo foi um começo, sem saber como será o final, apenas tendo certeza de que querem que algo aconteça.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Então, como posso respirar?

"Não há como fazer algo errado com você, pois ao seu lado me torno certa", eu gostei dessa frase no instante em que a li. É uma pena que não fui eu quem a escreveu, por certo gostaria que tivesse sido. Hoje estávamos falando sobre inveja boa, isto é, aquilo que você queria ter pensado em fazer antes que outra pessoa fizesse. Eu queria ter essa inveja boa, mas infelizmente não tenho. Não num mundo literário. A verdade é que eu não queria ter escrito clássicos como Orgulho & Preconceito ou Romeu & Julieta - meus livros mais queridos. São eles quem me dão conforto quanto quero chorar. É em Romeu que vejo meu príncipe que prefere a morte a não ficar ao meu lado. Em Julieta, a eterna sonhadora que acha que todos nós podemos viver só de amor - então, que tal esquentar a comida, amor?
O que quero dizer, é que como eu teria tal conforto se eu os tivesse criado? Acho que não encontraria nada que procurava num trabalho meu.
Certamente espero dar esse sentimento para um leitor em algum dia, mas fico feliz de Jane Austen e Shakespeare terem nascido para poder cuidar do lado direito de meu cérebro.
Às vezes as pessoas me criticam pelo meu jeito piegas de ser, mas que posso eu fazer? (hum, rimou). Criticam por meu blog ter um nome engraçado que ninguém entende, mas é claro que essas pessoas que não entendem, não leram o lead do blog, não é?
Isso é o que o ser humano mais faz: julga sem saber. A ignorância sempre fala mais alto do que parar para analisar os fatos.
Hoje eu parei um pouco para pensar em todos aqueles que julguei sem antes conhecer, aqueles que fiz a cruz antes mesmo de perguntar se a pessoa tinha algum problema e se eu poderia ajudar. Claro que é mais fácil criticar do que tentar resolver, tentar aceitar.
"Tarde demais, o conheci; por fim, cedo demais, sem conhecê-lo, amei-o", claro que essa frase não foi escrita com esse intuito, mas sempre podemos ver com outros olhos.

domingo, 15 de agosto de 2010

Celine Dion (?)

"A única certeza que tenho é que de nada estou certa", acho que depois da frase "seja feliz", essa é minha favorita. A verdade é que não podemos saber o que acontecerá no próximo minuto e menos ainda no dia seguinte. Não podemos saber quando será nosso último dia aqui nem se nossos planos darão certo. Se não podemos saber o futuro, então por que o ser humano ainda insiste em programar? Francamente, não faço ideia. Mas se algumas pessoas pensarem como eu penso, talvez elas se programem para ter a doce ilusão de que estão no controle.
Eu sou assim: total e completamente cronometrada, como se fosse feita por uma agenda - quinze para seis eu como rapidamente meu café pois, apesar de estar certa de que o horário em que acordo não me garante a mordomia de comer devagar, ainda assim acordo nesse horário. Depois termino três minutos antes de esperar a van que chegará em cinco minutos. Parece que sou um caderno de anotações com números e letras por todos os lados.
Admito que adoro isso - adoro torrar meu cérebro pensando demais, adoro imaginar um calendário em minha cabeça separado por cores, horários e prioridades, mas às vezes parece que não vivo, apenas sigo uma rotina.
Justo eu que gosto de ultrapassar limites, não gosto que me imponham as coisas e muito menos de me digam que não posso fazer, me controlo mais que qualquer um como se fosse um robô programado para seguir em linha reta e, caso apareça uma curva, transforme-a numa linha reta de novo.
Talvez você não esteja me entendendo, essa linha de raciocício cuja mesma estou a seguir até para mim é um tanto confusa, mas é na confusão que se encontram os resultados. Contudo, apesar de ser metódica, quando vou estudar matemática ou física - as matérias mais exatas que conheço - tenho que fazer uma bagunça gigantesca em meu quarto para conseguir me concentrar naqueles números. Estranho, não? Nem tanto. É como se fosse uma válvula de escapa que criei para não enlouquecer. Agora vem a parte estranha: como estudar é se tornou um passa tempo?
Não é algo muito normal, você está pensando, mas a verdade é que eu adoro aprender coisas novas, adoro saber que consigo e pra mim isso é estudar. Saber que sou capaz.
O fato é que criei esse mundo para delinear uma realidade que eu queria que existisse, queria saber o que ia acontecer no dia seguinte, por mais que meus planos pudessem mudar. Porém, acho que cansei de programar. Já basta meu curso de web design, não preciso de lógica de programação em minha vida e menos ainda preciso falar em código binário.
O que estou tentando dizer é que estou tentando seguir a política do taking chances. Estou tentando viver aleatóriamente, esquecendo o passado, ignorando o futuro e apenas vivendo o presente.
Nada acontece por acaso e isso é um fato. Se você perdeu dinheiro na rua é porque alguém estava precisando mais do que você, minha mãe sempre diz, quando você precisar, irá recuperá-lo. Simples assim.
Fácil demais pra você? Pra mim também. Viver e apenas viver é a coisa mais difícil a se fazer, por mais fácil que seja.
Qual a mensagem de toda essa conversa? Carpe dien - ou então compre um livro do arcadismo.