Seu nome era Maria Rosa, mas todos a chamavam de Dona Maria. Ela morava num bairro distante e que não tinha muita atenção do governo - era como se se eles ignorassem a doença, ela se curasse sozinha. Era muito engraçada a forma como Dona Maria e todas as outras pessoas do bairro eram tratadas: como leprosos no século XII - jogadas à própria sorte que, até ela!, as tinha abandonado.
Dona Maria tinha cinco filhos homens, todos casados com mulheres maduras e bem apessoadas. Eram homens robustos de bons empregos e corações podres. Ah, você me pergunta, por que "podres"? Porque aqueles corações que conseguem conviver com a própria consciência depois de descuidar da mãe são simplesmente corações que não serviram ao seu propósito.
Um desses filhos produziu um neto, um bom neto, daqueles que sabem o valor de uma avó. Sabem que é preciso amor, muito amor, antes de um pedaço gostoso de bolo. Sabem que todos um dia envelhecem e que o que você faz, você recebe no futuro. Claro que isso não é uma praga, é simplesmente física: todos os nossos atos geram consequências que são, obviamente, a reação de uma ação - provavelmente Newton não pensou na aplicação humanística de suas leis, mas com certeza ficaria orgulhoso de tal interpretação.
Ah, Dona Maria... Ela tinha uma doença vascular muito grave, sabem? Daquelas que nos impossibilitam de dobrar o joelho direito ou de ficar em pé por muito tempo. Seu braço estava meio atrofiado assim como suas pernas e ela mal conseguia tomar banho sozinha. Se as noras sabiam disso? Sim, elas sabiam. Se elas a ajudavam a banhar-se? Não. E sabe por que? É, eu também não sei. Talvez porque Dona Maria as tenha maltratado no passado. Talvez ela tenha sido uma péssima sogra e uma pessoa horrível. Talvez ela merecesse ser punida por seus semelhantes que também cometeram falhas ao longo da vida... Parece-me que essa última explicação não faz muito sentido.
Punir o outro com aquilo que ele usou para feri-lo não me parece uma saída muito justa. Mesmo que ela tenha sido uma pessoa horrenda, com hábitos detestáveis e um comportamento repreensível, cabe as noras repreender? Cabe a elas deixá-la sem banhar-se inadequadamente apenas para ensinar-lhe uma lição?
Mais do que do curar doenças com remédios, o ser humano precisa aprender a curar as feridas com amor. Pagar ódio com ódio, não torna aquelas noras pessoas melhores do que a sogra, torna?
De qualquer forma, a questão de Dona Maria poderia ser resolvida de forma um pouco mais prática: o governo poderia liberar um médico vascular para cuidar do caso dela e, enfim, fazer uma cirurgia em sua perna. Poderia liberar os remédios de forma adequada e completamente consciente. Poderia proporcionar acompanhamento médico. E sabe como eu sei que poderia? Porque recentemente saiu uma pesquisa do Banco Mundial dizendo que o Brasil investe sim em saúde, mas o mal planejamento dos hospitais faz com que o atendimento seja ruim e isso prejudica os pacientes.
A história de Dona Maria é real e quantas outras Donas Marias vão ter que existir e sofrer para que o governo e as pessoas se tornem mais humanos e conscientes? Quantas pessoas entrarão em depressão por conta do descaso da humanidade para que todos entendam que a doença só se cura com carinho e dedicação? Não sei. Sei apenas que cursar medicina e almejar trabalhar no centro de uma grande metrópole enquanto chutamos os médios cubanos não é a solução.