terça-feira, 27 de outubro de 2015

Desespero

Se ela não fizesse nada o que ia acontecer? Ia perdê-lo? Seus olhos, aqueles que eram pra ver, não viram. Suas mãos apenas sentiam - era febre. Tão pequenininho. Miudinho. O coração doía ao ver seu delicado rosto contorcido. 
Uma imagem, uma frase - "eu não o quero" - vieram a sua mente. Era tanta juventude naquela época que transbordava, que transbordou e virou mais vida. Por que tinha que acontecer com ela? Pra que estragar sua vida? Mas aconteceu. Era real. Pariu. Naquelas paredes estreitas e com a ajuda da mãe. Um parto sem parto - uma juventude interrompida. Um rostinho. Um choro. E um sorriso - não se nasce mãe, torna-se. Era coisa nova, surpresa. Não imaginava que ia se sentir assim - sua vida não estava indo por água abaixo? E a faculdade que nem alcançara ainda?  E o bom emprego? Olhando aquele rostinho pequeno que a olhava de volta, encontrou um motivo para ir em frente. Um motivo que estava escorregando por suas mãos - que ia embora se ela não agisse. 
- Como assim não tem médico?
Não viu. Só jogou. Só ouviu o banco bater na janela. Só ouviu as pessoas pedindo que se acalmasse. Alguém chamando a polícia. Alguém ligando o celular.
Um click. Uma cela. Lá dentro, chorou. O alívio a corroía - foi atendido. Foi salvo. Viveu. E agora ela podia viver também. Mesmo que o sol fosse nascer quadrado. 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Chacina

Quente no chão frio, escorregadia naquela vida que parecia morte. Mas não era - estava bem viva. Poderia sentir o líquido quente e pegajoso escorrer por suas pernas. Podia sentir o ar impregnado em seu rosto, o suor que emaranhava seus cabelos e o sabor amargo do desespero que se dissolvia lentamente em sua língua. Era cortante - um grito surdo preso em sua garganta. Cortante e entorpecido, irrompia por sua alma, dividindo-a em duas -  a que já havia morrido e a que não queria mais viver. Morta. Queria estar morta. As paredes que a cercavam eram escorregadias, escuras - arranhas, ensanguentadas cobertas por outros corpos, outras carnes. Unhas que arranharam, cabelos arrancados, roupas despedaçadas. Mas não eram feitas de concreto: eram grades de sofrimento, eram gente. Social. Patriarcal. Era chacina. Era mulher. Assassinato que, cometido de dentro pra fora, ainda deixava o corpo vivo pra poder sofrer constantemente com a presença que já não estava mais ali. Morta. Mas não estava - estava ali. Estava viva. Zumbi. E lutaria. Sem forças. Lutaria. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Drone

De uma crença desacreditada brota uma flor sem esperança - sem saber se um novo dia nasceria, se aquele céu coberto de cinza iria sobreviver. Um não saber doentio que nada mais era além da ignorância tenra da não idade - desidade porque não tinha como envelhecer numa terra com cheiro de morte. Descrença. Desvivença. Desmensidão. Era grande, mas ninguém se cabia ali. Quem caberia se parecia que Deus não era um só, mas era muitos e todos se odiavam? Todos pensavam ser únicos e soberanos? Reinavam solenemente uns sob (re) os outros. Caminhando, matando, explodindo - quando não eram explodidos. As casas que voavam em nome de Deus - santo nome que nem sabia porque matavam, só sabiam porque morriam. Sabiam? Nada. O corre corre que mais tarde desembocava num beco sem saída, redondo, circunçuoso, infinito. Saída que não existia porque não existia saída. Só existia Deus. Será que Deus existia? O caos que imperava no meio do deserto, dos destroços, das crianças. Velhos ali não tinha - não tinha idade pra envelhecer. Não tinha tempo - relógio mesmo era só o da bomba.