Se ela não fizesse nada o que ia acontecer? Ia perdê-lo? Seus olhos, aqueles que eram pra ver, não viram. Suas mãos apenas sentiam - era febre. Tão pequenininho. Miudinho. O coração doía ao ver seu delicado rosto contorcido.
Uma imagem, uma frase - "eu não o quero" - vieram a sua mente. Era tanta juventude naquela época que transbordava, que transbordou e virou mais vida. Por que tinha que acontecer com ela? Pra que estragar sua vida? Mas aconteceu. Era real. Pariu. Naquelas paredes estreitas e com a ajuda da mãe. Um parto sem parto - uma juventude interrompida. Um rostinho. Um choro. E um sorriso - não se nasce mãe, torna-se. Era coisa nova, surpresa. Não imaginava que ia se sentir assim - sua vida não estava indo por água abaixo? E a faculdade que nem alcançara ainda? E o bom emprego? Olhando aquele rostinho pequeno que a olhava de volta, encontrou um motivo para ir em frente. Um motivo que estava escorregando por suas mãos - que ia embora se ela não agisse.
- Como assim não tem médico?
Não viu. Só jogou. Só ouviu o banco bater na janela. Só ouviu as pessoas pedindo que se acalmasse. Alguém chamando a polícia. Alguém ligando o celular.
Um click. Uma cela. Lá dentro, chorou. O alívio a corroía - foi atendido. Foi salvo. Viveu. E agora ela podia viver também. Mesmo que o sol fosse nascer quadrado.