segunda-feira, 21 de julho de 2014

Já diziam os Beatles

Seus olhos eram como sementinhas a olhar para ela - estreitos, talvez doces e completamente puros. Ele tinha essa mania engraçada de fazer grunhidos enquanto dormia, mas ela não se sentia no direito de reclamar - Ana falava coisas sem sentido enquanto dormia e ele aceitava conversar com ela, mesmo sem saber se lembraria no dia seguinte daquelas palavras perdidas ditas na vigília.
Calmo e sereno, ele respirava e inspirava enquanto os raios do sol penetravam pelas janelas do quarto. Parecia aqueles sonos gostosos de quando a gente é criança e pode dormir até tarde nas férias. Podemos viver como se as únicas coisas que importassem fossem os amigos e os fins de semana na casa da vovó.
"Não faz sentido a gente ter tão pouco trabalho na infância e, de repente, se ver como um adulto cheio de afazeres. Um adulto que precisa desesperadamente sair das casas dos pais, mas antes tem que ter uma estabilidade financeira satisfatória".
Ao olhar para o sono tranquilo dele, a menina dos longos cabelos escuros se pergunta de onde surgiram todos esses paradigmas perfeitamente estabelecidos para que a gente siga em cada fase de nossas vidas. "Por que devemos trabalhar e estudar para ter essa tal estabilidade? Por que não podemos só viver? Por que não fazer e esperar pra ver o que acontece?".
Ele se mexe, abraçando-a enquanto ainda está dormindo. A noite toda fora assim: uma dança sincronizada de carinho adormecido, como se nada no mundo realmente importasse.
Mais uma vez enroscada em seu abraço, ela vê que a vida pode sim ser mais simples: quando há amor, há sucesso. E não apenas "amor amoroso"; é toda forma de amor.
Amor ao trabalho, à família, aos filhos. Amor ao fato de estar vivo e poder amar o próximo.
"Quando pudermos amar aquela pessoa em pé e cansada no ônibus a ponto de ceder nosso lugar... quando amarmos aquele morador de rua como o ser humano que ele é, ajudando da forma que podemos, então nós saberemos o que é o amor".
É disso que precisamos.
Amor.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Terra de ninguém

O sol brilhava intensamente sobre as flores molhadas pelo orvalho do inverno. As pessoas que corriam ali respiravam e inspiravam com uma calma descomunal - seus rostos estavam concentrados, ignorando as gotas de suor que rolavam em direção à boca. Eram jovens, adultos, idosos e crianças a aproveitar mais um gostoso dia no parque.
Dali nem se podia ouvir os gritos atemorizados das crianças moreninhas, de olhos amendoados e amargura latente. Em meio a tantas árvores e sons naturais, não se poderia lembrar das luzes ofuscantes que, em menos de dois segundos, davam espaço para uma fumaça densa e um barulho ensurdecedor em algum canto do mundo.
A bela senhora japonesa se alongava em frente ao pequeno banco iluminado, pensando talvez em quando seus netos iriam chegar para vê-la, sem imaginar, porém, que aqueles gritos que ela não ouviu quando proferidos poderiam ter sido dos netos de alguém.
As crianças que corriam pelo gramado e chutavam a bola de futebol com gosto, escolhendo por grau de preferência qual jogadores iriam ser, poderiam ter sido as mesmas que foram interrompidas no meio de um passe rumo ao gol.
Naquele dia ensolarado não havia fumaça densa, gritos de horror nem um guri a segurar o próprio intestino em frente ao hotel. Não havia guerra ali, drones ou presidentes de outras nações sentados em suas cadeiras observando a morte tomar conta de um lugar disputado por Deus.
Sob a sombra das árvore, o cantar dos pássaros e o sorrir das crianças, não havia tristeza ou podridão. Havia apenas esquecimento do que, como nossos olhos não viram, nossos corações não poderiam sentir.

terça-feira, 1 de julho de 2014

As luvas verdes

As pedras que estavam no caminho pareciam muito mais incômodas agora - eram muito menores do que ele imaginava, mas ainda assim se assemelhavam a bolas de futebol em sua cabeça fértil.
Os obstáculos estavam cada vez mais palpáveis como quando a gente é criança e pular o muro é extremamente difícil, apesar de a altura não ser tão grande.
Cabisbaixo mais uma vez, ele rabiscava um papel em branco que nunca era completamente desenhado - nada saía de sua caneta, nem uma gota de tinta. Estaria o menino louco? Estaria imaginando uma branquidão onde nem se quer havia lápis? Estaria a vida brincando de enganação com um jovem que acabava de se adulterar?
Sem conseguir enxergar os próprios traços, o menino-homem desistiu de continuar, desistiu de persistir sem ver. Ele decidiu que só poderia seguir o que visse e o que fosse visto seria crível.
Andando pela branquitude de seu próprio papel, ele não sabia como distinguir as curvas das retas e as retas das bordas. Tudo se tornara confuso e claro, quase brilhante, perante seus olhos pouco treinados - ele enxergava sem ver, como muitos em SP.
Não que ele fosse igual, não. Ele era totalmente diferente - mas como poderia ver a diferença se não conseguia enxergar por conta da branquidão causada por sua cegueira? Talvez fosse exatamente isso o que Saramago quisesse que todos nós víssemos: não enxergar a si mesmo é pior do que não enxergar o mundo porque te torna muito mais impotente perante ele.
Ao se dar conta de tal equívoco, o menino-homem pegou mais uma vez o nanquim e a folha em branco, só que dessa vez, ele conseguiu ver a tinta no papel.