domingo, 20 de maio de 2018

Eis o mistério da fé

Eu costumava ir à igreja com a minha avó em celebrações especiais - Páscoa, Natal. Nunca gostei muito de ir à igreja - parece que as pessoas te julgam se você é diferente, não parece? Eu nunca me senti parte, mas sempre estava com ela porque, bem, minha avó, não é mesmo?
Vovó sempre teve muita fé - não sei se isso é uma coisa que vai crescendo na gente conforme a idade, mas minha avô sempre pareceu aquelas pessoas que tem fé desde que se entende por gente, sem nunca questionar, sem nunca duvidar. Eu queria ser assim - mas eu questiono demais, me pergunto demais, fico brava com Deus. Parece até uma heresia dizer isso, não parece? Mas Deus e eu já tivemos algumas brigas feias. Recentemente eu cheguei a perguntar pra ele porque me abandonou - por que me deixou em tanto sofrimento? O que eu fiz de tão errado pra merecer isso? Por que você não me dá uma solução mágica depois de uma noite de soluços e desespero? "Eu implorei e você não fez nada", eu cheguei a dizer a Ele um dia desses.
Na semana passada, eu me reencontrei com a minha fé, me reencontrei com meu Deus e, por um momento, eu achei que estivesse preparada para tudo - senti que estava conformada com o momento que estava vivendo e que deixaria tudo nas mãos de Deus. Se Ele quer que seja assim, então, assim será. "Deus é misericordioso e está comigo", recitei, como um mantra.
Como se para um provação, parece até que Ele decidiu testar essa minha nova fase de aceitação com um acontecimento inesperado e desesperador. Dessa vez, no entanto, não senti raiva ou desamparo. Deus ainda estava comigo e eu podia sentir a fé fluindo pelo meu corpo. Mas não é porque há fé que não há desespero. Por um dia, talvez um dos dias mais longos e tristes da minha vida, eu não sabia como andar, comer ou reagir. Eu sentia meu corpo afundando num espaço esquecido dentro de mim, como se não houvesse mais saída e a esperança tivesse me deixado ali, parada, perdida no universo de tristeza que não parecia ter fim.
No dia seguinte, domingo, 20 de maio, Deus me mandou um recado. Ele veio em forma de uma monja daquelas carequinhas, tipo em Avatar, com um sorriso sereno no rosto e um otimismo que eu nunca tive em minha vida. "A perda nem sempre é algo ruim - às vezes a perda é necessária para que algo bom aconteça", ela disse, em chinês - não que eu tenha entendido, quem falou isso foi o interprete que pode muito bem ter inventado quando, na verdade, ela teria dito que comeu um bolo que não lhe caiu bem no café da manhã.
Seja o que quer que ela tenha dito, eu prefiro acreditar que realmente a perda nem sempre é algo ruim.
Lembrei daquelas noites geladas em que ia com a minha avó à igreja - especialmente de uma partezinha do ritual católico que eu nunca entendi direito, mas que eu repetia porque estava escrito naquela cartilhazinha que recebemos ao entrar no local. "Eis o mistério da fé".
A fé não significa não ter medo, não vacilar. A fé não significa que a gente vai ser feliz o tempo todo e nem que seremos tristes o tempo todo. A fé é acreditar que mesmo quando a gente acha que não há mais saída, há saída. É entender que nada é realmente de uma única maneira - existem infinitas maneiras de ser. A fé é entender que nem sempre a gente entende, mas que a misericórdia divina existe.
"Pai, por que me abandonaste?", perguntei, desesperada, chorando no ônibus num sábado qualquer.
Um moço bonito passou, olhou pra mim e sorriu. Sorriso sincero, desses que a gente nem sempre vê por aí. Sorri de volta.
"Não te abandonei, minha filha, não te abandonei".
Eis o mistério da fé.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Partida

Quinta-feira, 17 de maio. ABC Paulista.

Deitada na minha cama, enfim, me encontro. Não sei por onde andei neste último mês - parece que a minha alma saiu vagando por aí e esqueceu meu corpo em algum lugar entre a rotina e o desespero. Foi me deixando de mim, sabe? Como quando a gente vai tirando a roupa e jogando no meio do caminho pra entrar no banho mais rápido e lavar as dores do dia.
Eu fui me deixando de mim sem que eu nem tivesse tempo de me perguntar porquê.
-"Mas por que?", enfim, me perguntei, um mês depois que parti.
-"Não sei, eu só fui caminhando por aí e, quando dei por mim, não sabia mais onde você estava", me respondi.
Às vezes, a gente sai vagueando pela cidade depois de um dia difícil - cruza Paulista com a Augusta, atravessa a Praça Roosevelt, caminha até a República e, de repente, se encontra no tal do marco zero que um dia um li na faculdade.
Mas marco zero de quê? Da cidade ou da gente? Não sei. Me faltam culhões para descobrir.

Deitada na minha cama, depois de me reencontrar a mim, fico me olhando como quem vê um estranho - como que você pode me deixar sem mim e, agora, voltar toda estrupiada? Bateu numa árvore? Tropeçou naquela desnivelação da Avenida Angélica?

Não me respondo. Permaneço inerte diante de mim.

Deitada na minha cama, vou reconhecendo quem um dia eu fui, um mês atrás. Mesmos olhos melancólicos e risada estridente. Mesmo sorriso que vai puxando e puxando que, dali um segundo, nem zóio sobrou.

Deitada na minha cama, reconheço quem fui naquele tal mês passado. Mas parece até que passei como o mês - cadê aquela eu? Perdi.

E foi me perdendo por aí que aprendi as coisas que nem sempre a gente aprende quando estava encontrado. Às vezes a gente precisa se perder e se perder mais e se perder mais. Às vezes a gente nunca se acha. Mas, quando se acha, se olha com olhos de saudade. De quem queria que nunca tivesse partido, mas que sabe que se nunca tivesse partido, também nunca haveria de ter chegado.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Pais e plástico bolha

Meu pai costuma dizer que a única coisa que realmente não tem jeito é a morte - acho que ele deve ter aprendido isso com o pai dele. Honestamente, eu não sei o que aprendi com meu pai - ele tentou me ensinar várias coisas, me explicou os erros que cometeu e me guiou pelo caminho que achava melhor. Meus pais sempre foram aquelas pessoas inteligentes, que tratam as crianças com maturidade e respeito, sempre com o benefício da dúvida - na minha casa nunca houve um discurso do tipo "isso é errado porque é errado", sempre debatemos, ouvimos uns aos outros e questionamos antes de dar algum veredicto. Acho que essa foi a única coisa que realmente absorvi de tudo o que deveria ter aprendido - não porque tive pais ruins, mas porque talvez a gente, jovem, tenha a péssima mania de se questionar tanto a ponto de saber que não sabe nada. É como se tudo o que um dia a gente aprendeu, a gente estivesse desaprendendo. 
"Eu vou trabalhar por amor, não por dinheiro", a gente dizia, ouvindo apaixonadamente os Beatles. "Money can't buy me love". É. Não pode mesmo. O que dinheiro pode comprar, afinal? Uma casa. Uma cerveja. Um lanche. Um presente pra alguém que a gente ama e quer fazer sorrir inesperadamente numa quinta-feira à noite. Dinheiro não pode comprar amor, mas a gente precisa dele pra pagar as contas. Precisa? Não sei. Talvez essa seja mais uma das coisas que eu desaprendi quando comecei a lavar minha própria roupa. 
A gente vai crescendo e parece que o mundo inteiro vai engolindo cada parte de quem a gente é - a gente vai se afundando num sofá infinito e nada confortável até que, de repente, parece que não sobrou mais nada. A vida adulta é como um grande buraco cheio de plástico bolha em que você vai afundando, afundando, afundando, até que não consegue mais respirar e simplesmente morre asfixiado. É claro que tem gente que desmaia antes de morrer e aí parece até que é indolor. Mas existem outras pessoas (na minha opinião aquelas que pensam demais) que vão morrendo lentamente, sentindo cada partícula de ar indo embora (é partícula mesmo? Não sei, acho que realmente me tornei de humanas. Foi mal, professor Cristina, eu sei que eu era boa em química no ensino médio). 
Acho que o próprio plástico bolha da minha vida me engoliu, só não sei se desmaiei ainda.