sexta-feira, 11 de maio de 2018

Pais e plástico bolha

Meu pai costuma dizer que a única coisa que realmente não tem jeito é a morte - acho que ele deve ter aprendido isso com o pai dele. Honestamente, eu não sei o que aprendi com meu pai - ele tentou me ensinar várias coisas, me explicou os erros que cometeu e me guiou pelo caminho que achava melhor. Meus pais sempre foram aquelas pessoas inteligentes, que tratam as crianças com maturidade e respeito, sempre com o benefício da dúvida - na minha casa nunca houve um discurso do tipo "isso é errado porque é errado", sempre debatemos, ouvimos uns aos outros e questionamos antes de dar algum veredicto. Acho que essa foi a única coisa que realmente absorvi de tudo o que deveria ter aprendido - não porque tive pais ruins, mas porque talvez a gente, jovem, tenha a péssima mania de se questionar tanto a ponto de saber que não sabe nada. É como se tudo o que um dia a gente aprendeu, a gente estivesse desaprendendo. 
"Eu vou trabalhar por amor, não por dinheiro", a gente dizia, ouvindo apaixonadamente os Beatles. "Money can't buy me love". É. Não pode mesmo. O que dinheiro pode comprar, afinal? Uma casa. Uma cerveja. Um lanche. Um presente pra alguém que a gente ama e quer fazer sorrir inesperadamente numa quinta-feira à noite. Dinheiro não pode comprar amor, mas a gente precisa dele pra pagar as contas. Precisa? Não sei. Talvez essa seja mais uma das coisas que eu desaprendi quando comecei a lavar minha própria roupa. 
A gente vai crescendo e parece que o mundo inteiro vai engolindo cada parte de quem a gente é - a gente vai se afundando num sofá infinito e nada confortável até que, de repente, parece que não sobrou mais nada. A vida adulta é como um grande buraco cheio de plástico bolha em que você vai afundando, afundando, afundando, até que não consegue mais respirar e simplesmente morre asfixiado. É claro que tem gente que desmaia antes de morrer e aí parece até que é indolor. Mas existem outras pessoas (na minha opinião aquelas que pensam demais) que vão morrendo lentamente, sentindo cada partícula de ar indo embora (é partícula mesmo? Não sei, acho que realmente me tornei de humanas. Foi mal, professor Cristina, eu sei que eu era boa em química no ensino médio). 
Acho que o próprio plástico bolha da minha vida me engoliu, só não sei se desmaiei ainda. 

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