sábado, 17 de agosto de 2013

Era um país muito engraçado...

O dia amanheceu em guerra. Não havia passarinhos cantando na janela - na verdade, seus ninhos haviam sido destruídos por uma bomba caseira na semana passada. Mas ela não tinha perdido a esperança.
Ainda se lembrava daquelas tardes jogando bola com os meninos - ela era pobre, nem havia porque se comportar como uma garota muçulmana, pelo menos, não quando ninguém estava olhando. Quando jogava ela era ela mesma, só uma criança. Sem imposições, sem punições.
Por que deveria cobrir-se toda quando sentir o sol em sua pele era muito mais prazeroso? Por que se submeter aos homens quando se considerava muito mais capaz e inteligente? Porque é o que eles mandam, pensou um amargura. Porque eles pensam estar à serviço de Alá. Mas, será que Alá permitiria tantas atrocidades contra a mulher? Ele as apoiaria?
O sol brilhava intensamente enquanto ela decidia se iria ou não se levantar da cama. Decidia se acordaria para mais um dia de luta pela sobrevivência. Já sonhou em ser médica - sonhou em ajudar as pessoas e mostrar que era uma mulher forte. Mas, em meio ao show de explosões e tiros, não havia lugar para sonhos ou questionamentos. 
Decidiu, por fim, levantar-se. Vestiu calças e calçou suas botas. Não importava mais se seria apedrejada por se mostrar. Não importava se seria estuprada por "não se dar ao respeito". A única coisa que importava era lutar para que outros pudessem viver.
Ao colocar a mochila nas costas, pensou em como seu pai se sentiria se a visse agora. Imaginou a fisionomia dura e os olhos pequenos e desconfiados. Por um momento, supos que ele ficaria furioso. Entretanto, dadas às circunstâncias, apenas beijaria sua testa e lhe desejaria sorte.
Afastou aquela imagem com a lembrança da morte dele. Esse era o motivo pelo qual lutaria - por todos aqueles que morreram naquela quarta-feira escura. Lutaria por um país que não tinha Estado, não tinha lei, não tinha nada.
Ao abrir a porta de sua casa e se deparar com todas aquelas pessoas correndo em alvoroço, soube que a luta pela democracia, pelo poder de escolha, não seria fácil. Soube que morreria por um país que matava mulheres como ela. Mas também soube que, se não lutasse, não teria algo pelo que viver.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Darwin no século XIX

Enquanto ele caminhava pela rua ouvia o som dos cascalhos batendo em seus tênis. O sol brilhava intensamente, apesar do redemoinho que girava em sua cabeça. Como ele pôde ser tão tolo? Como pôde acreditar que as coisas haviam mudado e tudo seria diferente porque era "um tempo de inclusão"? Não tinha respostas. Não tinha nada. 
Chutou uma pedra em seu caminho e pensou em quantas pedras já tinham parado ali. Pensou em quantas vezes poderia ter sido mais fácil se ele fosse de outra cor. Talvez o mundo simplesmente fosse assim: uma seleção natural. Um lugar em que o mais evoluído sobrevive. Riu consigo ao imaginar que não o consideravam tão evoluído. Mas, afinal, quem era eles? Quem poderia julgá-lo como inferior se nem Ele o julgava assim? 
O mundo dos homens era difícil. Difícil entender como alguns pensam que podem ter tudo simplesmente passando por cima dos outros e como aqueles que tem capacidade para alcançar seus sonhos são inferiorizados por serem considerados insuficientes. Quem deu tamanho poder para o homem? De classificar seu semelhante de tal forma que um potencial concorrente fosse marginalizado e esquecido a ponto de ele mesmo se sentir menor?
Olhou para o céu mais uma vez e esperou que Deus pudesse vê-lo. Esperou que as coisas fossem melhorar e ele pudesse pagar uma nova casa para sua mãe... Dar uma vida melhor a seus  filhos. Se ele pudesse comprar algum leite para sua menininha. Ah, como ela era linda. Os olhos azuis como os da mãe e a marra que puxara do pai. Ela seria uma guerreira em um mundo tão cruel. Se sobrevivesse...
Seu coração começou a bater rápido e suas pupilas dilataram-se com aquele pensamento sombrio: não fazia sentindo que ela pudesse morrer, não era a ordem natural das coisas um filho morrer antes do pai. Ele não poderia deixar que aquilo acontecesse. Não poderia jamais permitir que seus filhos não tivessem o que comer assim como ele não tivera. Só precisava de um minuto. Um minuto e tudo estaria acabado.
-Pegue o dinheiro do caixa e me dê. Isso é um assalto. - Ele anunciou para o homem atrás do balcão. O palpitar dentro do seu peito era um pedido silencioso para que o senhor a sua frente não fizesse nada que pudesse trazer consequências desastrosas para aquele ato extremo. Ele implorava mentalmente para que Deus tivesse compaixão de sua alma e que ele pudesse alimentar suas crianças.
O velho entregou-lhe o dinheiro e ele correu. Correu como se não tivesse para aonde ir - e não tinha. Sua casa fora tomada naquela manhã e sua família estava com todos os móveis espalhados pela calçada. Estavam completamente desamparados e ele não sabia o que fazer. 
Por um instante o sol o cegou, o suficiente para fazê-lo entender a gravidade de seus atos. Entretanto, como poderia ele, um jovem desempregado, negro e suburbano fazer outra coisa se não a coisa errada? Como ele poderia ter pensando em uma atitude mais digna quando o desespero de não ter nada o dominou?  
Ele não podia. Ele não pensou. Ele seguiu a seleção natural e evoluiu ao contrário: decidiu que o mais forte tinha que sobreviver.