O dia amanheceu em guerra. Não havia passarinhos cantando na janela - na verdade, seus ninhos haviam sido destruídos por uma bomba caseira na semana passada. Mas ela não tinha perdido a esperança.
Ainda se lembrava daquelas tardes jogando bola com os meninos - ela era pobre, nem havia porque se comportar como uma garota muçulmana, pelo menos, não quando ninguém estava olhando. Quando jogava ela era ela mesma, só uma criança. Sem imposições, sem punições.
Por que deveria cobrir-se toda quando sentir o sol em sua pele era muito mais prazeroso? Por que se submeter aos homens quando se considerava muito mais capaz e inteligente? Porque é o que eles mandam, pensou um amargura. Porque eles pensam estar à serviço de Alá. Mas, será que Alá permitiria tantas atrocidades contra a mulher? Ele as apoiaria?
O sol brilhava intensamente enquanto ela decidia se iria ou não se levantar da cama. Decidia se acordaria para mais um dia de luta pela sobrevivência. Já sonhou em ser médica - sonhou em ajudar as pessoas e mostrar que era uma mulher forte. Mas, em meio ao show de explosões e tiros, não havia lugar para sonhos ou questionamentos.
Decidiu, por fim, levantar-se. Vestiu calças e calçou suas botas. Não importava mais se seria apedrejada por se mostrar. Não importava se seria estuprada por "não se dar ao respeito". A única coisa que importava era lutar para que outros pudessem viver.
Ao colocar a mochila nas costas, pensou em como seu pai se sentiria se a visse agora. Imaginou a fisionomia dura e os olhos pequenos e desconfiados. Por um momento, supos que ele ficaria furioso. Entretanto, dadas às circunstâncias, apenas beijaria sua testa e lhe desejaria sorte.
Afastou aquela imagem com a lembrança da morte dele. Esse era o motivo pelo qual lutaria - por todos aqueles que morreram naquela quarta-feira escura. Lutaria por um país que não tinha Estado, não tinha lei, não tinha nada.
Ao abrir a porta de sua casa e se deparar com todas aquelas pessoas correndo em alvoroço, soube que a luta pela democracia, pelo poder de escolha, não seria fácil. Soube que morreria por um país que matava mulheres como ela. Mas também soube que, se não lutasse, não teria algo pelo que viver.