quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A vida não é temporária

Todas nós passamos por momentos difíceis. Todas nós já nos deparamos com alguma situação que nos fez olhar para o céu e questionar "por que?". Todas nós acordamos um dia e, de repente, nos sentimos a escória da humanidade - não que eu acredite que existe, realmente, alguma escória na humanidade. É irônico e triste que, quando esses dias se repetem e se repetem e se repetem, a gente sinta como se este momento fosse infinito. A gente sente como se todos os dias fossem, de fato, difíceis. Mas isso só acontece porque é um momento. Porque aquilo é, de fato, uma fase pela qual estamos passando. Por algum tempo, a gente se permite pensar que aquilo é "temporário", que estamos vivendo mais um dos diversos momentos de nossas vidas. Por algum tempo, nós esquecemos que aquilo ali, que aquele momento que parece infinito é, na verdade, nossa vida. Esquecemos que aquela "fase" faz parte de quem nós somos e constrói exatamente o que nos seremos no futuro.
Muitas pessoas detestam o livro "E o vento levou" por motivos extremamente plausíveis, dentre eles o fato de que é a história de uma mulher estadunidense do sul durante a guerra da secessão, uma guerra em que os sulistas queriam se separar do resto dos EUA porque não aceitavam o fato de as pessoas negras não serem escravas, não serem diferentes. O livro fala sobre uma mulher racista em uma sociedade racista.
Ao longo dos anos, eu já li e reli este livro uma dúzia de vezes. Nem sempre leio inteiro, às vezes, apenas algumas passagens. Com o passar das leituras, eu cheguei a conclusão de que aquela mulher, Scarlett O'Hara, deixou de ser racista com os anos e as experiências. Cheguei a conclusão que, dentre tantas coisas em que ela evoluiu, essa foi uma delas.
O fato é que uma das questões que eu sempre admirei neste livro e nesta personagem em particular é que Scarlett mudou muito durante os muitos anos em que se passa o livro. No início, ela era uma menina rica e mimada de 16 anos e, no fim, ela viveu o que nenhum de nós gostaria de viver aos vinte e poucos anos. Ela passou fome, ficou viúva duas vezes, perdeu tudo o que tinha pelo menos três vezes, se aproveitou de pessoas, matou um homem e lutou por todos aqueles que ela amava, inclusive arando as suas terras de algodão sozinha, com as próprias mãos, para dar sustento a sua família.
O ponto em que quero chegar é que, ao longo do livro, Scarlett endurece. Ela deixa de ser uma menina para se transformar em uma guerreira que fará qualquer coisa para que ela e sua família possam sobreviver. Scarlett muda completamente. Apesar de, ao longo dos anos, ter me afeiçoado cada vez mais a este livro, eu nunca tinha, de fato, compreendido o que Scarlett tinha sentido em todos aqueles episódios horripilantes de sua vida. Eu nunca tinha entendido o que era dormir para esquecer que você tem fome ou ter tentado vender o próprio corpo, a própria vida, para salvar sua casa.
No entanto, a vida pode ser muito mais surpreendente do que a gente pensa. Sem querer, a gente passa por situações que não deseja para ninguém: a gente passa fome, a gente fica sem dinheiro para pagar a condução, a gente sente uma dor imensa que é tão grande que não conseguimos chorar. A vida corre por entre nossos dedos e, em meio a tantas situações difíceis, momentos, fases, a gente pensa que aquilo é temporário. De fato, a dor é temporária - ela vai embora em algum momento. Mas a vida não. A vida não é temporária. Toda a junção desses pequenos ou grandes espaços entre as dificuldades e as pequenas, mas valiosas, vitórias compõe a nossa vida.
Cada passo que nós damos em direção ao futuro faz parte de quem nós somos. Isso significa que nós não estamos vivendo uma fase "temporária": estamos vivendo nossas vidas. É claro que isso parece uma conclusão extremamente óbvia, mas me pergunto: quantas vezes você deixou aquele momento, mesmo que difícil, passar despercebido, esquecendo que ele faz parte da sua vida? Quantas vezes você adiou sentir aquela dor tão essencial de ser sentida só porque não queria sentir dor? Quantas vezes você deixou de fazer alguma coisa pela décima vez porque, das outras nove vezes, tudo deu errado?
A triste verdade é que nos apegamos demais às passagens da vida e esquecemos que são essas passagens que fazem nosso caminho. São essas tristezas e essas alegrias que fazem de nós quem somos, que constroem o castelo em que vamos morar, que fazem parte da trilha que estamos trilhando.
Esquecemos que a vida não é passageira e nos pegamos olhando para nós mesmos de longe, assim, como aquelas namoradeiras de barro que ficam nas janelas das casas de nossas avós. Ficamos observando nossa vida como a movimentação de uma rua, esquecendo completamente que nós somos os condutores daqueles carros, mesmo que estejam sem pará-choque ou com um enorme amaçado na porta traseira.
Esquecemos que não somos passageiros, mas, sim, condutores. A verdade é que "E o vento levou" pode ser um grande spoiler de nossas vidas (não vou contar o final, mas quem sabe, sabe) e eu não tenho certeza se realmente quero acabar naquele tapete vermelho, em lágrimas (opa). Na verdade, eu quero acabar meus dias pensando sempre "amanhã será um novo dia" para tentar.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Ansiosos Anônimos

Eu não sei quando ela vem me visitar. Às vezes, ela passa quase uma semana me enviando cartinhas, torpedos ou mesmo mensagens de WhatsApp. Às vezes, ela tenta me avisar que está chegando - talvez chegue no fim de semana ou talvez num dia importante de um compromisso inadiável. A verdade é que, a maior parte do tempo, ela gosta mesmo é de surpreender - não só a mim, mas todos ao meu redor. Quando ela chega, me abraça de tal forma que eu fico sem ar. Em algumas visitas, ela simplesmente me faz parar tudo o que estou fazendo para dedicar minha atenção em tempo integral a ela. Às vezes, ela só quer ficar deitada na cama, olhando por teto, tirando minha respiração.
Eu poderia dizer que nós, ansiosos comprovados, pessoas com crise de ansiedade, até que vivem bem, mas isso seria uma tremenda de uma mentira - seria algo que a gente diz para aqueles que nos amam quando tentamos acalmá-los, às vezes, mais do que nós mesmos. Nós não tentamos nos acalmar - a gente sabe que, quando ela chega, ela derruba tudo o que está ao seu redor. Nós não somos páreos para dona A - ela sabe muito bem o que fazer para que nós fiquemos em suas mãos. 
De forma otimista, eu diria que nós, amigões da dona A, não vivemos um dia de cada vez - primeiramente porque não sabemos como aproveitar o presente de forma proveitosa, sempre sentimos que estamos perdendo tempo, passamos tempo demais planejando o futuro ou remoendo o passado, sempre condenando cada uma de nossas ações, sempre pressionando a nós mesmos. Somos ótimos em autocobranças, aliás. Ótimos mesmo. Se você conhece algum BFF da dona A, não se preocupe em cobrá-lo: ele já está fazendo isso por você.
Nós, os AA (Ansiosos Anônimos), tentamos, sinceramente, viver um dia de cada vez. Tentamos pensar como a mente de vocês pensa. Nós tentamos não nos preocupar o tempo todo, mas é cada dia mais uma tarefa impossível. Muitos de nós, como eu, chegam a um ponto decisivo, aquele em que percebem que não adianta mais sobreviver e tentar melhorar ou sair da companhia de dona A. Chegamos num ponto em que, simplesmente, aceitamos que ela está ali. Aceitamos que, às vezes, ela precisa ficar deitada olhando para o teto e que, em outras, ela simplesmente vai tirar nosso ar no meio da rua, fazendo com que a gente esqueça para onde estava indo.
Chegamos num ponto em que temos que aceitar que nosso medo de andar de transporte público não é irracional, mas, sim, é um pânico imenso de ficar num lugar fechado cheio de gente. Chegamos num ponto em que aceitamos que não queremos ir a um evento porque vai ter gente demais, falando alto demais e tentando conversar com a gente sobre coisas que, naquele momento, não somos capazes de entender.
Nós, AA, somos pessoas extraordinárias que, muitas vezes, usam esse diferencial para executar nossas tarefas com mais rapidez, sempre prezando pela eficiência porque não somos capazes de tolerar nossos próprios erros. Nós, AA, sempre estamos indo além de nossas próprias expectativas, ultrapassando barreiras e sendo todos os dias pessoas melhores. A verdade é que nós perdemos muito tempo desvalorizando a grande tempestade que nós somos. Perdemos tempo achando que nosso parafuso a mais é um defeito, quando, na verdade, é só um diferencial.
Não tem problema você ser um AA. Não tem problema você não conseguir lidar com sua companheira de cada dia - às vezes, você precisa de um tempo. É por isso que existem grupos de apoio, terapeutas e amigos - porque, assim como eles fazem com que nossa vida seja muito mais proveitosa, nós, AA, também fazemos com que a deles seja muito mais extraordinária. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Como Mr. Darcy sacou a vida antes de nós

Você soube exatamente como me conquistar, não é mesmo? Você não elogiou meus olhos, como a maioria das pessoas faz, nem me disse como eu era linda: você escolheu dizer que amava o que eu escrevia. Num domingo qualquer, daqueles que ninguém sai na rua mesmo com aquele sol agradável de uma manhã de fim de semana, você me disse que se via nas minhas palavras: você disse que eu era uma pessoa livre e que amava a liberdade e que você era exatamente esse tipo de pessoa (nunca imaginei que isso fosse tão real quanto foi, não é mesmo?). 
Durante todo o tempo, você não se preocupou em falar palavras quentes para mim, não se preocupou em termos conversas safadas ou em trocar excitações - você sabia desde o início que um bom papo sobre política me excita (até quando eu quero xingar algum vereador mal caráter ou um arrogante qualquer). Você sabia que falar sobre isso me deixava completamente doida - porque é exatamente meu assunto preferido no mundo, depois de amor, é claro.
Às vezes, em alguma de minhas muitas crises de ansiedade, me pego pensando em como tudo acabou como acabou. Não porque eu ainda te ame - como diria Clarice, "eu esqueci você" -, mas, sim, porque, como uma boa virginiana com distúrbio de ansiedade, eu tenho uma forte necessidade de entender as coisas. Nesses dias, esses raros dias que tento compreender aquele tal a gente, percebo que não tem nada muito real para compreender: grande parte foi coisa desse meu coração romântico e a outra parte foi pequena demais para ser chamada de real. 
Hoje, muito mais madura, mas ainda rainha das tolices da vida, percebo que, de fato, algumas pessoas tem a incrível habilidade de cativar o coração da gente, mas não são capazes de manter esse carinho por muito tempo - tem gente que simplesmente é ótima em acabar com tudo. É quase um dom - curioso, na minha opinião. É quase uma autossabotagem, mas muito mais consciente e manipulável do que a gente pode imaginar. 
Uma vez, Mr. Darcy disse para Elizabeth que "o Mr. Wickham tinha uma ótima capacidade de conquistar amizades e um jeito pobre de mantê-las". Mr. Darcy nunca poderia ter tido mais razão - Darcy tinha dificuldades em fazer amizades, mas sabia exatamente como mantê-las. Talvez, só talvez, num mundo de reflexões e becos sem saída, a gente entenda que é muito melhor ser como Mr. Darcy do que como Mr. Wickham. Talvez, só talvez, seja muito melhor ter barreiras para deixar os outros entrarem, mas deixá-los fazer a festa quando entram, do que permitir que qualquer pessoa com os pés sujos pise em você só porque está com um sapato bonito.
No fim, a lição sempre será a mesma: Jane Austen sempre estará certa.