sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Ansiosos Anônimos

Eu não sei quando ela vem me visitar. Às vezes, ela passa quase uma semana me enviando cartinhas, torpedos ou mesmo mensagens de WhatsApp. Às vezes, ela tenta me avisar que está chegando - talvez chegue no fim de semana ou talvez num dia importante de um compromisso inadiável. A verdade é que, a maior parte do tempo, ela gosta mesmo é de surpreender - não só a mim, mas todos ao meu redor. Quando ela chega, me abraça de tal forma que eu fico sem ar. Em algumas visitas, ela simplesmente me faz parar tudo o que estou fazendo para dedicar minha atenção em tempo integral a ela. Às vezes, ela só quer ficar deitada na cama, olhando por teto, tirando minha respiração.
Eu poderia dizer que nós, ansiosos comprovados, pessoas com crise de ansiedade, até que vivem bem, mas isso seria uma tremenda de uma mentira - seria algo que a gente diz para aqueles que nos amam quando tentamos acalmá-los, às vezes, mais do que nós mesmos. Nós não tentamos nos acalmar - a gente sabe que, quando ela chega, ela derruba tudo o que está ao seu redor. Nós não somos páreos para dona A - ela sabe muito bem o que fazer para que nós fiquemos em suas mãos. 
De forma otimista, eu diria que nós, amigões da dona A, não vivemos um dia de cada vez - primeiramente porque não sabemos como aproveitar o presente de forma proveitosa, sempre sentimos que estamos perdendo tempo, passamos tempo demais planejando o futuro ou remoendo o passado, sempre condenando cada uma de nossas ações, sempre pressionando a nós mesmos. Somos ótimos em autocobranças, aliás. Ótimos mesmo. Se você conhece algum BFF da dona A, não se preocupe em cobrá-lo: ele já está fazendo isso por você.
Nós, os AA (Ansiosos Anônimos), tentamos, sinceramente, viver um dia de cada vez. Tentamos pensar como a mente de vocês pensa. Nós tentamos não nos preocupar o tempo todo, mas é cada dia mais uma tarefa impossível. Muitos de nós, como eu, chegam a um ponto decisivo, aquele em que percebem que não adianta mais sobreviver e tentar melhorar ou sair da companhia de dona A. Chegamos num ponto em que, simplesmente, aceitamos que ela está ali. Aceitamos que, às vezes, ela precisa ficar deitada olhando para o teto e que, em outras, ela simplesmente vai tirar nosso ar no meio da rua, fazendo com que a gente esqueça para onde estava indo.
Chegamos num ponto em que temos que aceitar que nosso medo de andar de transporte público não é irracional, mas, sim, é um pânico imenso de ficar num lugar fechado cheio de gente. Chegamos num ponto em que aceitamos que não queremos ir a um evento porque vai ter gente demais, falando alto demais e tentando conversar com a gente sobre coisas que, naquele momento, não somos capazes de entender.
Nós, AA, somos pessoas extraordinárias que, muitas vezes, usam esse diferencial para executar nossas tarefas com mais rapidez, sempre prezando pela eficiência porque não somos capazes de tolerar nossos próprios erros. Nós, AA, sempre estamos indo além de nossas próprias expectativas, ultrapassando barreiras e sendo todos os dias pessoas melhores. A verdade é que nós perdemos muito tempo desvalorizando a grande tempestade que nós somos. Perdemos tempo achando que nosso parafuso a mais é um defeito, quando, na verdade, é só um diferencial.
Não tem problema você ser um AA. Não tem problema você não conseguir lidar com sua companheira de cada dia - às vezes, você precisa de um tempo. É por isso que existem grupos de apoio, terapeutas e amigos - porque, assim como eles fazem com que nossa vida seja muito mais proveitosa, nós, AA, também fazemos com que a deles seja muito mais extraordinária. 

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