Não era sorriso. Era verso. De tanta rima de tinha num único sorrir. A gargalhada fácil, contida no riso tímido. Não sabia como soltar, mas quando soltava, ah, não tinha meio riso. Era inteiro. Repleto de alegria. Podia ouvir seu rimar o dia inteiro - indo de um canto ao outro do olhar.
Talvez fosse mesmo a timidez que fizesse o contágio daquela felicidade contida: de tanto conter, transbordava. Na pequenez desse mundo não cabia - mas haveria de caber! Onde já se viu doar felicidade porque não é do tamanho da gente? E não era. Não tinha como negar.
O vento trazia as palavras, fáceis, simples, cheias de peso, mas não de pesar. O riso imperfeito ia cantarolando no peito batidas desritmadas. Arritmia amorosa? Nunca ouvi falar - mas já ouvi sentir. Sentida tão plenamente que nem os passos descompassado da respiração podiam acompanhar. Era verso. Poema em forma de gente.
Ah, gente. Essa que nem sempre sabe onde chegar. Nem sempre sabe o que fazer. Mas faz. Por verdade. Razão. Ou medo. Medo de passar a verdade com razão de ser. Ser verso. Ritmo. Descompasso. Não sabia mais ou talvez soubesse, mas não quisesse nos contar.
O verdadeiro sentimento não vem de dentro pra fora - ele entra na gente como quem não quer nada, todo bobo, fingindo que está só de passagem. Quando nos damos conta, já fez a cama, regou as plantas e colocou a própria escova de dentes no banheiro. Mas é um folgado mesmo. Sem questionar, entra sem fazer cerimônia, jogando-se no sofá que é a vida da gente - bagunçado e precisando de faxina, diga-se de passagem.
Mas quem disse que se importa, esse safado? Importa nada. Se tiver sentimentos no compartimento pra se alimentar, umas lágrimas pra secar e um coração pra tricotar tá bom. Tá tudo muito mais do que bom. E o riso? Esse vai lento. Em forma de poesia conduz a vida da gente. Às vezes, fazendo dos olhos pequenas fendas que, ah, mesmo assim, não deixam de brilhar.