sábado, 21 de maio de 2016

Unos

Mal contido. Pouco comedido. Era cometa que serpenteava no céu. Talvez fosse o andar gingado ou o sorriso frouxo. Talvez fosse o sabor das palavras ou o estontear das sandices. Talvez fosse tudo o que era. A única certeza era que já a havia cometido.
Sob o céu estrelado, os risos se fizeram palpáveis. Os sonhos, ah, esses tão distantes do dia-a-dia tribulado reconheceram ombro em que descansar. Sem palavras. Apenas afetos. Afetados que, sem explicação ou sons, seguiam de mãos dadas.
Os ventos sopravam com violência. Uivando à meia luz. Não parecia noite. Parecia utopia. Disforme, desconexa, tangível. Rápida e inocente, cortava as nuvens com suas realidade - de tão irreal que era, acabou por se consumar.
Produto não desejado de uma menina sem mar. Perdidas nas gotas do seu existir. Não desejado. Não querido. Não pensado. Vivido. Plena e constantemente. Viver. Com intensidade e imensidão, observando as miçangas que iam virando colar.
Sempre acreditou ser uma despedideira, daquelas dos contos de Mia Couto. Agarrada ao partir dos amores. Presa sem reação naquela trama. Mas enganou-se. De despedida não tinha nada. Era apenas solitária em sua imensidão, liberta de todas as despedidas.
Encontrada em si, era una. Sua. Somada a unidez de quem mais sabia ser uno poderiam ser o que Mia Couto chamaria de "uno" no plural. Unos.


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