domingo, 2 de dezembro de 2012

Dona

Eu a observava - todos os dias por um período muito curto a meu ver. E ela era de uma beleza extraordinária - seus olhos castanhos transmitiam uma serenidade muitas vezes desconhecida e seus lábios delicados recordavam rosas no inverno. Talvez eu devesse falar com ela... Talvez eu devesse expor meus sentimentos como um tolo apaixonado. Mas eu seria apenas isso: um  tolo. Amantes que são amantes não falam na palavra amor. Não conversam ou debatem sobre ele, eles simplesmente amam. Como beija-flores a procura de abrigo, os amantes procuram um cobertor para aquecer seus corações muitas vezes não correspondidos. Ai de mim se meu amor assim o for! Se ela não me amar como a amo, então significa que meu amor é uma mentira? Significa que todas as tardes que passei esperando para que ela por mim passasse...? Esperando para que seu doce perfume penetrasse meu ser de tal forma que meu coração não mais saberia como agir se não palpitar? Não. Não seria mentira. Mentir seria dizer que ama sem amar, mas amar sem amar é tão verdade quanto mentir sem dizer. E eu a amo... Ah eu a amo. Mesmo que seus olhos sejam obtusos aos meus e nossos olhares assim não sejam correspondentes. Minha afeição e desejo apenas dependem do meu olhar e do meu coração.
Talvez seja tolice dizer que o amor pode sim sobreviver sendo unilateral, mas seria mais tolice ainda  dizer que ele não pode. Se eu posso amar sem ser amado, então é como se pudesse voar sem ter asas - o tombo tornar-se-ia mais doloroso, mas ainda assim seria voar. Ainda assim as mãos encontrariam-se suadas e os joelhos mal poderiam sustentar-me. 
E então ela corresponde ao meu olhar: com aqueles belos olhos castanhos tão profundos que senti-me perdido por alguns instantes. Ela indagava. Ela intrigava-se. Como poderia eu olhar para ela de forma tão obstinada sendo que nem minha ela era? Como poderia eu supor que tamanha beleza escondesse uma solidão tão imersa que nem o mais profundo oceano poderia compreender?
Ah. Tão bela criatura mal conhecia o erro de amar. E tão pouco sentia seu coração palpitar. Tão pouco sentia calor.
Mas de que me importa? Enquanto eu amar tudo fará sentido. Enquanto eu amar tudo será amado e o amor que lhe é dado será mais válido do que o amor que não é recebido. 
Ela é minha dona. Dona de meu ser, dona de minh'alma. Ela é dona e mal sabe varrer.

sábado, 5 de maio de 2012

Amor do céu

Mais uma vez Laura sorriu - da primeira vez em que esboçou algo e mostrou os dentes não poderia ser considerado um sorriso, pois não havia sido de coração. Agora ela sorria com toda sua alma, como se aquela imensa felicidade fosse grande demais para ser contida e desejava simplesmente ser mostrada. Talvez fosse bobagem pensar que o amor desperta nas pessoas algo novo, algo como uma chama que nem o tempo é capaz de apagar. Entretanto, esse não era um novo amor e sim, um eterno. Seu coração continuava a bater rápido ao lembrar do toque das mãos dele nas dela - normalmente, as mãos dela eram quentes e as dele, frias, provavelmente porque um deveria completar o outro. Seus olhos ainda enxiam-se de lágrimas ao pensar que a qualquer momento aquele belo sonho poderia ser apenas isso, um sonho. Seus lábios formigavam ao imaginar os lábios dele corresponderem-na. Rindo-se, a menina morena percebe que estava mais apaixonada do que antes, mais feliz, mais incrivelmente bem do que esteve da primeira vez que o amou. E ela sabia porque. Dessa vez, o amor vinha acompanhado de algo mais. Acompanhado de uma promessa de que, caso ele a deixasse, Alguém lá em cima ainda estaria com ela. Assim, Laura entendeu que amou duas vezes: da primeira vez, ela amou um homem com todo o seu coração. E da segunda, decidiu amar esse mesmo homem, mas agora guiando o amor pelos caminhos Certos.

terça-feira, 24 de abril de 2012

E dai a felicidade volta.

E ela o fitou - seus olhos eram azuis como o céu e sorriam quando ele sorria. Como poderia ser tão incrível estar ao seu lado quando noites tão tenebrosas transcorriam? Como ela poderia amar de novo quando sua única versão de homem perfeito fora completamente destruída? Talvez sua imaginação pudesse imaginar novos tipos de perfeição, pensou com seus botões. Talvez os cabelos escuros e despenteados dele fossem um sinal de que o vento leva embora toda a mágoa e tristeza e trás beleza e encantamento. Porque é disso que o amor é feito: de olhares correspondentes olhando juntos na mesma direção. Ela riu com esse pensamento puramente matemático, Sarah estava simplesmente feliz. O cantar de pássaros na janela, o perfume da brisa vespertina e o sol que adentrava pela janela eram lindos motivos para se estar feliz - mas não era exatamente esse o motivo pelo qual Sarah fora motivada a sorrir. Na verdade, o motivo era alto e moreno, com ombros largos e aparência intelectual.Como pode não morrer sufocado dentro daquele terno?, ela se perguntava rindo ao ar livre enquanto tomava chá e observada as crianças correndo no parque. Talvez ele estivesse cansado de permanecer sentado numa sala enfadonha de ares metódicos - talvez quisesse respirar o verde que pairava por entre as árvores. Ou talvez ele tivesse sido demitido e estava vagando sem rumo procurando um novo jeito de ser feliz - claro, porque ele vivia para o trabalho, vivia para as condições exaustivas de um bom executivo. A julgar pelas feições tristes, esse era o motivo mais plausível. Sarah divertia-se ao pensar que o terno que o sufocava poderia representar sua própria vida - negra com listras finas, simétricas e brancas. Preta e branca - sem emoções fortes, felicidades iminentes ou acidentes acidentais. Eu deveria falar com ele, Sarah fez um biquinho com aquele pensamento - como ela poderia falar com com ele? Conversaria sobre flores considerando que esse era seu assunto em melhor estado pois ela tinha uma floricultura? Ou sobre como ser vegetariano poderia aliviar o estresse de suas agitação diária? Rindo de si mesma, Sarah nem chegou a perceber a sombra que parou ao seu lado.
-Por acaso você zomba de mim? - Indagou a voz grave de um perfume que cheirava a noz moscada e grama.
Ao levantar o olhar a loira se deparou com o lindo par de olhos azuis e pensou em como seria fácil mergulhar neles e se perder ali. Sorrindo ainda mais e colocando uma das mãos sobre  testa para tapar o sol, respondeu:
-Na verdade estava pensando em ir convidá-lo para ir ao cinema. - Assustada com a própria ousadia a moça de cabelos dourados e olhos de mesma cor tentou manter a expressão serena e a voz pausada.
Um sorriso esboçou-se no rosto dele enquanto sentava-se ao seu lado para contemplar um casal de crianças soltando pipa.
-Talvez seja uma boa ideia. - Sua voz grave era suave e melodiosa e nossa protagonista gostou consideravelmente da resposta.
-Talvez.
E seus olhares se encontraram mais uma vez - mas dessa vez o coração bateu mais rápido, as mãos ficaram úmidas e os lábios tornaram-se secos. Talvez, talvez... Talvez se seus lábios encontrassem os dela e como um momento mágico... Talvez se seus cérebros parassem de pensar no que era correto ou em quanto tempo se conheciam... E então, como num segundo, aquilo que talvez acontecesse, aconteceu. E a magia foi tão intensa que naquele momento duas almas puderam ser resgatadas não pelo amor, mas pela fé de que o talvez pudesse acontecer.