Todos os dias seus passos ecoavam por aquela rua. Todos os dias. Mudava o sapato, o cabelo, as calças e os vestidos. Mas o rosto permanecia igual, o olhar, perdido, era o mesmo de todos os dias. Repetição atrás de repetição seguiam seu caminhar silencioso e rápido. Não queria se atrasar? Não. Não queria estar sozinha. A escuridão sobre sua cabeça cintilava, mas não era o suficiente para clarear seus passos que ecoavam atrás dos dela.
Como todos os dias, ela ignorava os passos que não seus estavam ali. Ignorava que tinha que correr para casa porque em nenhum momento entendeu que a escuridão não é a melhor amiga de uma menina.
Seus olhos enevoados passavam uma mensagem - um grito silencioso de socorro. Ela era apenas mais uma dentre tantas que evitavam olhar para os lados porque o que os olhos não veem o coração não sente, certo? Pode até não sentir, mas outros lugares sentirão.
Sentirão falta de seu riso modesto e de suas piadas engraçadas. Do seu caminhar alto e de suas dores que poderiam refletir todas as moléstias do mundo.
Como qualquer outra ela respirava ofegante enquanto os passos ficavam mais altos, mais próximos. Tentava não pensar no mundo, mas em como gostaria que ele fosse.
Será que em alguns anos iriam se lembrar dela? Será que se lembraria de como o mundo era triste, egoísta, grosseiro e impiedoso com as mulheres?
Talvez se lembrasse. Talvez lágrimas fossem derramadas por sua condição inferiorizada numa sociedade em que você só pode significar algo que não mexa nas estruturas preestabelecidas dentro do sistema.
Não era uma distopia como muitos podem pensar. Não era ficção ou um conto para assustar meninas que queriam sair à noite - era simplesmente a realidade que acomete várias vidas supostamente insignificantes todos os dias.
-Pare ai, seu viado. - gritaram os passos atrás dela.
Continuou andando como se não tivesse ouvido - como se o mundo não estivesse ecoando junto com as palavras dele.
Quando o pau a atingiu, ela sabia que seria só mais uma morte - não poderia ser estatística num governo que ainda tem dificuldades para entender Simone de Beauvoir.
"A missanga, todos vêem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas. Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo." Mia Couto
terça-feira, 17 de março de 2015
quinta-feira, 5 de março de 2015
Orwell estaria mais uma vez certo?
Como se não bastasse estar parcialmente certo quanto ao Grande Irmão, mais uma vez Orwell parece estar certo quanto à Revolução dos Bichos. "Não se sabia mais quem era porco e quem era homem". Acho que esta frase define bem o momento em que vivemos: um momento em que a irmandade, a paz, a cooperação e principalmente o amor estão em falta no mundo.
Vemos guerras, seres humanos contra outros seres humanos que eles acham menos merecedores da vida ou das terras que têm. Vemos irmãos brigando entre si e uma política que parece não representar quem somos.
Mas quem realmente somos? Quem pensamos que somos? Será que somos realmente tão "bons" quanto sempre pensamos que somos? Acho que não.
Tudo isso que acontece no mundo não aconteceu do nada - alguém fez aquilo. Alguéns. Mas quem? Nós? Sim. Todos nós fizemos tudo que existe de ruim no mundo - e tudo de bom também.
E é aqui que entra o senhor Napoleão: apesar de ser quase uma alegoria, Napoleão representa todos aqueles que uma vez no poder esqueceram completa ou parcialmente as demandas que prometeram aos bichos da Granja. Esqueceram que um dos mandamentos era "Todos os bichos são iguais". Não só esqueceram como manipularam isso para seu benefício - "Todos os bichos são iguais. Mas alguns são mais iguais do que outros".
Não acho que Orwell teria orgulho de suas teorias estarem se tornando realidade... Não acho mesmo. E acho que John Lenon também não estaria se fossemos pensar que ele achava DE VERDADE que mais gente "imaginava" um mundo diferente.
Irmã contra irmã. Pais contra filhos. Tucanos contra petistas. Isso realmente vale a pena? É uma questão tão simples mas, ao mesmo tempo, tão complexa. Talvez a resposta mais óbvia seja que a tolerância e amor sempre são as respostas mais coerentes.
Talvez não devamos mais jogar a culpa no 'mundo' e começarmos a culpar a nós mesmos - que fazemos parte do mundo. Talvez nem mesmo nos culpar - deveríamos tomar uma atitude e mudar essa política do ódio que vem se disseminando em todo lugar.
Afinal, não queremos de fato que isso vire uma distopia, não é?
Vemos guerras, seres humanos contra outros seres humanos que eles acham menos merecedores da vida ou das terras que têm. Vemos irmãos brigando entre si e uma política que parece não representar quem somos.
Mas quem realmente somos? Quem pensamos que somos? Será que somos realmente tão "bons" quanto sempre pensamos que somos? Acho que não.
Tudo isso que acontece no mundo não aconteceu do nada - alguém fez aquilo. Alguéns. Mas quem? Nós? Sim. Todos nós fizemos tudo que existe de ruim no mundo - e tudo de bom também.
E é aqui que entra o senhor Napoleão: apesar de ser quase uma alegoria, Napoleão representa todos aqueles que uma vez no poder esqueceram completa ou parcialmente as demandas que prometeram aos bichos da Granja. Esqueceram que um dos mandamentos era "Todos os bichos são iguais". Não só esqueceram como manipularam isso para seu benefício - "Todos os bichos são iguais. Mas alguns são mais iguais do que outros".
Não acho que Orwell teria orgulho de suas teorias estarem se tornando realidade... Não acho mesmo. E acho que John Lenon também não estaria se fossemos pensar que ele achava DE VERDADE que mais gente "imaginava" um mundo diferente.
Irmã contra irmã. Pais contra filhos. Tucanos contra petistas. Isso realmente vale a pena? É uma questão tão simples mas, ao mesmo tempo, tão complexa. Talvez a resposta mais óbvia seja que a tolerância e amor sempre são as respostas mais coerentes.
Talvez não devamos mais jogar a culpa no 'mundo' e começarmos a culpar a nós mesmos - que fazemos parte do mundo. Talvez nem mesmo nos culpar - deveríamos tomar uma atitude e mudar essa política do ódio que vem se disseminando em todo lugar.
Afinal, não queremos de fato que isso vire uma distopia, não é?
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