segunda-feira, 28 de abril de 2014

Uma "w fragen" sem resposta

"When there is nothing left to burn, you have to set yourself on fire"

O céu estava claro demais. As nuvens pareciam estar longe - voando para algum lugar onde precisavam menos delas... Onde um céu límpido com certeza era mais bem-vindo. Era como um estado de espírito. Como uma dor incessante que, de tanto doer, ela não sentia mais. Como uma enxaqueca que vai e vem e por isso não se torna mais tão incômoda.
Quanto mais observava aquele belo céu muito azul, mais se afogava em si mesma... Era como deixar de respirar respirando... Como perder o que havia acabado de encontrar - claro que não era o amor de outra pessoa, era o amor próprio.
Sobreviver tendo se perdido de si por ter se esgotado no outro. Seria possível? Seria possível não saber mais quem se era? Quem se foi? Talvez sim, afinal, tudo é possível, não? Não. 
Ouvia seus tênis empurrando o chão, ouvia o cantarolar dos pássaros e o soprar do vento. Sentia suas mãos molhadas quando chovia e sabia que estava em seu quarto quando via as paredes marcadas pela retirada de quadros. Sabia que tudo isso era real... Então, por que tudo parecia tão terrivelmente perdido? Tão terrivelmente sem nenhum sentido? Tão perdido sem si mesmo?
Passou as mãos pelo cabelo num ato de puro desespero interno - seus olhos continuavam serenos, sua rotina permanecia a mesma, ela não havia emagrecido ou engordado... Tudo parecia demasiadamente normal. Demasiadamente satisfatório... Então, por que satisfatório não parecia o suficiente.
O tempo corria como em qualquer outro dia - segundos, minutos, horas - nada rápido demais, nada lento demais. Apenas corria... Então, por que era como se a vida dissesse: "tudo está passando em frente aos seus olhos apáticos"? Como poderia parecer um sinal divino de que toda aquela dor entorpecente seria passageira? Porque sim. Porque por mais "W fragen" que fosse aquela pergunta, por mais que necessitasse de uma resposta ampla e profunda, a única coisa que ela possuía naquele momento era um "sim" ou um "ja" se formos falar em alemão.
Porque nem tudo tem resposta. Assim com nem sempre dá pra deixar de se afogar.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Pacatamente anormal

O que é o amor, afinal? É a gente se sentir feliz, novo e amado de volta? É sermos correspondidos?... Mas o que sentimos para sermos correspondidos? Como podemos pensar que é amor? Amor é necessidade? Carinho e confiança? Ou será que isso é um relacionamento que, nem sempre, pressupõe amor? Será que estabilidade, companheirismo e contentamento não são apenas sentimentos de uma relação duradoura, com uma única pessoa, sem muitas surpresas?

Talvez seja tudo uma grande questão de ponto de vista porque, se pararmos para pensar, o que pode haver de divertido numa coisa estável? Como podemos encontrar brilho em algo que não nos surpreende constantemente? Como podemos viver com alguém que conhecemos plenamente? Por mais cheio de rimas tenha sido esse parágrafo, o que quero dizer é: que graça existe nos relacionamentos maduros?

Não sei se vale a pena ter um relacionamento como esse mais de uma vez na vida. Não sei se vale a pena continuar com algo estável e companheiro só para que seja duradouro. E a emoção? Deixamos onde? Talvez o presente seja mais importante do que o futuro - por mais que nosso coração doa pensando que pode não ter mais do que tem agora... Por mais que o medo corroa nossa alma e o desespero pareça a única saída...

A verdade é que nenhum sofrimento é eterno, assim como nenhuma felicidade é contínua - é simplesmente impossível ser feliz o tempo todo e, se alguém está passando por isso, acho válido procurar ajuda terapêutica - você pode estar na fase do desespero sem saber.... Pode estar procurando pelas coisas erradas ou se contentando com um pouco que não deveria ser contentador.

Quanto mais eu penso nisso, mais concluo que a instabilidade é uma coisa boa. Essa história de ficar feliz e triste várias vezes ao longo do dia sempre decorre de um momento de reflexão, assim, acredito que quem não reflete, não é instável. Quem não reflete, simplesmente não pode ser infeliz. E sabe porquê? Porque é impossível você ser infeliz se não questiona o mundo....

Acho que gosto das pessoas questionadoras. Aquelas que nos desafiam a pensar e a sentir... Que não se contentam com pouco e que, depois de levarem tudo o que você tem, ainda tem a dignidade de voltar e dizer adeus. Porque é assim a vida: nem sempre quem a gente quer eu fique, fica, mas a estabilidade com certeza é uma coisa muito mais aterrorizante que a dor.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Quem me dera ao menos uma vez

  Eles corriam. Corriam desesperadamente sem saber para onde poderiam ir, sem ter para onde correr, de fato. Como poderiam fugir de uma realidade que os perseguiam desde que disseram que eram gente? Como poderia ser gente se eram tratados como bichos? Como alguém poderia tratar bichos daquela forma grotesca? Podendo. Eles tinham a permissão do governo para bater, reintegrar. Tudo em nome da paz, é claro. Paz para quem precisa de paz - aqueles lá que precisam de polícia.
  E quem precisava mesmo? Os donos de supermercados, de enormes cadeias alimentícias. Aqueles que, simplesmente, recebiam o dinheiro dos bichos. Aqueles que viviam num mundo doente e precisavam curar esse mundo - da mesma forma que se cura a homossexualidade: com chutes, pontapés e, nesse caso, balas de borracha e cassetetes. Afinal, bicho a gente tem que bater até virar gente. Até não conseguir levantar do chão. Até decidir que vai trabalhar quietinho, sem reclamar se tem que dormir no chão ou se não tem o que comer.
  Bicho a gente tem que adestrar, sabe? Na porrada mesmo porque de outro jeito eles não entendem... Pelo menos é isso o que o governo prega, não? Prega que quem invade terrenos desocupados é marginal, é invasor. Invasor porque está entrando numa terra que não é dele - mesmo que o dono não esteja usando. Invasor é aquele lá que entrou naquele prédio capenga que era de outra pessoa. É aquele lá que pegou a terra que não tinha nada e montou uma plantação pra sustentar a família. É aquele babaca que fica protestando pela reforma agrária e nem pensa que está atrapalhando o trânsito - trânsito disposto por gente que não tem que brigar por terra, por direito ou por comida. Por gente que não precisa brigar por nada a não ser por uma promoção no trabalho. Gente, gente, gente. Gente que é gente e não é bicho.
  Quanto mais aquele povo tentava entender o que estava acontecendo, mais porrada eles levavam. Porrada por questionar, porrada por pegar alimento de um supermercado sem pagar - porque eles estavam roubando. Sim, eles estavam saqueando na cara dura mesmo... Claro que, dentre a agressividade dos policiais, o pânico dos moradores e a destruição dos barracos o saque no mercado era o mais importante - e justamente por isso foi o primeiro parágrafo de tantas matérias.
  "Tumulto em desocupação" - hum. Tumulto.T-U-M-U-L-T-O. Policias agressivos? Não. Gente chorando desesperadamente porque estava perdendo tudo? Não. Jornalistas sendo presos porque estavam fotografando a ação da polícia? Não. Só um pequeno tumulto. Um humilde tumulto. Apenas uma desocupação turbulenta. Hum.
  Quem precisa de bom jornalismo nesses dias se temos manchetes incríveis, imparciais e completamente abrangentes sobre as ações civis na sociedade? 

sábado, 5 de abril de 2014

Mas quem precisa do chefe da folia?

Aquele foi mais um dia de terror - a cada minuto que se passava as coisas pareciam dar mais e mais errado, como quando você torce, se esforça, tenta pra dar certo e nada funciona. Diferente do céu aberto que todos podiam ver, nuvens cobriam a mente de Pedro* - ele poderia ser morto a qualquer momento e ninguém saberia seu nome porque ele não soube gritar.
Gritar contra a repressão, gritar contra a agressão e o silêncio. Estaríamos nós na ditadura?, pensou. Não mais, respondeu o governo, alegando que isso foi há 50 anos. Que o golpe acabou, que a luta não tinha porquê de ser. Mas como então estaria ele correndo, correndo, correndo para não apanhar dos fardados? Para não apanhar daqueles que deveriam proteger?
Seria essa a sociedade que Durkheim pretendia quando disse que deveria haver ordem social? Quando disse que o ser humano precisava de uma diretriz e proteção para seus dias? Imagino que não. Por mais que não concordasse com suas ideais, Pedro também não acreditava que Durkheim pudesse ser tão "mau" ao pensar na questão da sociedade.
Sentindo o sangue correr por sua face, mais do que um grito, Pedro queria despejar palavras de raiva, palavras que só resultariam em mais socos e pontapés. Palavras que nada significariam quando ele estivesse morto porque ele nada significava, afinal, quem se importava realmente com um cara pobre que pedia auxílio moradia na faculdade? Quem realmente se importava com qualquer pessoa pobre? 
Talvez cada um daqueles estudantes não merecesse estar onde estavam - pelo menos, era o que os uniformizados diziam a eles. Sim, uniformizados porque quem mais seriam? Você pode até pensar em responder: "A sociedade burguesa!", mas acredito que, nesse caso, essa sociedade são eles.
Sociedade sem lei, por mais irônico que isso possa ser. Por mais irônico que seja o destino, Pedro não morreu naquela tarde. Não porque merecia sobreviver - segundo algumas vozes que latejavam em sua cabeça, "cães negros não eram gente, pobres não eram gente" -, não merecia estudar e menos ainda ser tratado como um ser humano.
Afinal, cada uma das ditaduras que se impõe sobre nós são merecidas. Cada soco, pancada e sangue que escorre pelas faces dos jovens que representam a liberdade foi completamente merecida. Afinal, eram eles quem precisavam de uma lição. Precisavam aprender que a vida é dura com quem eles jugam pobres, pouco importantes e sem nenhum valor. Afinal, eram eles que precisavam, não é mesmo? Que precisavam aprender que pra ser humano nessa vida só perdendo completamente sua humanidade.

*Pedro é um nome fictício em um texto que, por mais fictício que seja, retrata a realidade de muitos jovens que que são agredidos em cidades pequenas como Assis. Agredidos por pessoas que deveriam "protegê-los". Agredidos por serem quem são. Pedro poderia ser apenas mais um de nós, estudantes, que lutam pelo direito de estudar e são barrados por gente que diz "que não existe racismo e preconceito no Brasil".