Eles corriam. Corriam desesperadamente sem saber para onde poderiam ir, sem ter para onde correr, de fato. Como poderiam fugir de uma realidade que os perseguiam desde que disseram que eram gente? Como poderia ser gente se eram tratados como bichos? Como alguém poderia tratar bichos daquela forma grotesca? Podendo. Eles tinham a permissão do governo para bater, reintegrar. Tudo em nome da paz, é claro. Paz para quem precisa de paz - aqueles lá que precisam de polícia.
E quem precisava mesmo? Os donos de supermercados, de enormes cadeias alimentícias. Aqueles que, simplesmente, recebiam o dinheiro dos bichos. Aqueles que viviam num mundo doente e precisavam curar esse mundo - da mesma forma que se cura a homossexualidade: com chutes, pontapés e, nesse caso, balas de borracha e cassetetes. Afinal, bicho a gente tem que bater até virar gente. Até não conseguir levantar do chão. Até decidir que vai trabalhar quietinho, sem reclamar se tem que dormir no chão ou se não tem o que comer.
Bicho a gente tem que adestrar, sabe? Na porrada mesmo porque de outro jeito eles não entendem... Pelo menos é isso o que o governo prega, não? Prega que quem invade terrenos desocupados é marginal, é invasor. Invasor porque está entrando numa terra que não é dele - mesmo que o dono não esteja usando. Invasor é aquele lá que entrou naquele prédio capenga que era de outra pessoa. É aquele lá que pegou a terra que não tinha nada e montou uma plantação pra sustentar a família. É aquele babaca que fica protestando pela reforma agrária e nem pensa que está atrapalhando o trânsito - trânsito disposto por gente que não tem que brigar por terra, por direito ou por comida. Por gente que não precisa brigar por nada a não ser por uma promoção no trabalho. Gente, gente, gente. Gente que é gente e não é bicho.
Quanto mais aquele povo tentava entender o que estava acontecendo, mais porrada eles levavam. Porrada por questionar, porrada por pegar alimento de um supermercado sem pagar - porque eles estavam roubando. Sim, eles estavam saqueando na cara dura mesmo... Claro que, dentre a agressividade dos policiais, o pânico dos moradores e a destruição dos barracos o saque no mercado era o mais importante - e justamente por isso foi o primeiro parágrafo de tantas matérias.
"Tumulto em desocupação" - hum. Tumulto.T-U-M-U-L-T-O. Policias agressivos? Não. Gente chorando desesperadamente porque estava perdendo tudo? Não. Jornalistas sendo presos porque estavam fotografando a ação da polícia? Não. Só um pequeno tumulto. Um humilde tumulto. Apenas uma desocupação turbulenta. Hum.
Quem precisa de bom jornalismo nesses dias se temos manchetes incríveis, imparciais e completamente abrangentes sobre as ações civis na sociedade?
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