domingo, 6 de agosto de 2017

Ainda somos os mesmos e vivemos

Por muito tempo, eu fui uma pessoa fechada. Eu não permitia que pessoas entrassem na minha vida, que pessoas se importassem comigo e que eu me importasse com elas a ponto de ficar magoada com alguma atitude. Por muito tempo, eu simplesmente vivi comigo mesma, confortável em minha solidão. Então, sem entender ou pedir, eu me apaixonei por uma das melhores pessoas que eu já conheci. Quando nossa jornada juntos terminou, eu já não era mais a mesma. Eu havia voltado a ser uma pessoa frágil, vulnerável. Eu havia voltado a me importar - mas demorei muito para entender que a pessoa dura e intransigente que eu me tornei ainda estava aqui, convivendo de forma difícil com essa Vick frágil e apaixonada pelos romances de Jane Austen.
Como conciliar em si mesma duas pessoas tão diferentes? Uma mulher resiliente que havia enfrentando poucas e boas na vida com uma moça sonhadora, apaixonada, amável, que se magoava com pouco e se alegrava com menos ainda? Devo dizer que eu ainda não sei bem como lidar com essa nova fase de mim.
Acredito que, acima de tudo, o primeiro passo seja aceitar que eu não sou quem eu fui um dia - nem totalmente frágil nem totalmente forte. Hoje, por mais que eu deteste admitir isso, eu sou esse meio termo - nem branco nem preto, cinza. Às vezes, um cinza mais escuro, às vezes um cinza mais claro. Sou esse emaranhado de emoções controversas que não fazem sentido nem para mim, mas que sei que fazem parte de quem eu sou. 
Muito provavelmente eu não sou o que as pessoas gostariam que eu fosse - devo admitir que nem correspondo às minhas próprias expectativas. Muito provavelmente eu realmente faço tudo errado e para algumas pessoas seja mais menina do que mulher - assim como, para outras, seja muito mais mulher do que menina. 
A verdade que aprendi ao longo dos meus quase 23 anos de existência é que não é possível agradar a todos. Algumas vezes você vai se machucar e, em outras, você vai machucar alguém. A vida é isso: uma série de tentativas falhas que, em algum momento, podem dar certo. Em algum momento, a gente pode simplesmente encontrar tudo o que sempre quis, tudo o que sempre procurou, e seguir sem olhar para trás. 
A única coisa que realmente importa nesse mundo é aceitar que nós não somos perfeitos e estamos em constante mudança. A mulher que eu sou hoje saúda a mulher que eu fui antes: a nova Vick agradece à Vick resiliente e durona, mas também é grata à Vick cheia de lágrimas mal contidas e amores imaginários. 
Talvez, no fundo, nem eu mesma saiba o que eu quero nesse mundo. Talvez, no fundo, nem eu mesma saiba o que eu preciso. Talvez a graça esteja realmente em não saber, mas, sim, em tentar. Tentar diariamente atingir os meus próprios objetivos traçados de improviso numa tarde fria no metrô lotado. Talvez a verdadeira essência da gente seja ser quem a gente é por acidente, por acaso de nossas constantes tentativas. Talvez a única coisa sobre a qual a gente possa ter certeza é ousadia de fazer, de ir além, de buscar coisas que nunca buscamos antes. Não dá para saber se vai dar certo, mas nós sempre podemos tentar. 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Mulher Maravilha: filme de super herói ou algo para silenciar críticas feministas?

Antes que vocês queiram me matar, por favor, leiam o texto até o fim porque eu tenho um propósito com este título polêmico. Quem me conhece sabe que eu detesto uma resenha - acho que é algo egocêntrico, sem propósito e presunçoso. No entanto, este filme me obriga a expressar minha opinião - como estou dizendo aqui, é a minha análise e não a verdade absoluta dos fatos, então, por favor, nada de comentários raivosos nem ameaças de morte, tudo bem? Vou misturar pontos positivos com pontos negativos, então, por favor, não venham para o embate sem entender do que se trata - e quando eu digo "entender do que se trata" eu digo: leiam de mente aberta, reflitam e, então, vamos debater.
Muitos podem se questionar sobre o porquê de eu estar me justificando tanto: bem, eu sou uma mulher, (que se diz) nerd e está fazendo uma crítica a um filme nerd sobre super heróis. Preciso dizer mais alguma coisa sobre meus motivos para tantas justificativas? Se precisar, então, pode parar de ler este texto porque você é uma pessoa (provavelmente homem) que não enxerga além de seus próprios privilégios. 
[CONTÉM SPOILERS]
Começo dizendo que: sim, eu amei o filme. De uma forma geral, eu acho que é um longa bacana, que tem momentos tensos de ação e que possui diálogos intrigantes. No entanto, toda a magia inicial do filme que parece que vai dar o tom da história vai se perdendo ao longo do tempo. 
Quando começamos a acompanhar a destemida Diana, princesa amazona concebida do barro (daqui a pouco voltamos a este ponto), única criança da ilha Themyscira, percebemos uma jovem que tem ânsia por lutar, por aprender, por se tornar uma verdadeira guerreira. Vemos uma comunidade matriarcal forte, que vive em harmonia até que (veja bem) um homem chega ao local por conta de uma explosão de força de Diana que, de certa forma, dá uma rompida na barreira que esconde a ilha. E daí a história começa a ir de mal a pior - isso do ponto de vista feminista, do ponto de vista cinematográfico, o filme é excelente. 
A questão que quero destacar é que: depois desse momento, o início do clímax do filme, da ação "de verdade", Diana passa a dividir seu protagonismo com Steve Trevor. Parece fofo? Parece. Meu lado romântico quase cegou o machismo por trás da divisão de protagonismo? Sim. Mas, então, voltei com os dois pés para o chão. 
A partir do momento em que eles se cruzam, Diana e Steve são uma dupla dinâmica - ela precisa dele e ele precisa dela. O filme tenta dar uma maquiada nessa situação colocando várias situações de perigo em que Diana se destaca, mas, não se engane: é só fachada. 
E aí, muita gente vai argumentar: mas filme de super herói homem também tem par romântico. Aham, de fato. Mas não dessa forma. Amo Batman e vou protegê-lo, no entanto, nenhuma de seus pares românticos dividiu o protagonismo. Nem Lois Lane em Superman. Não, não, não, não é a mesma situação.
Sim, isso me incomodou muito.
Outro ponto que me deixou bastante irritada é o fato de que os diálogos entre Steve e Diana sempre, SEMPRE, S-E-M-P-R-E, tem uma conotação sexual por trás: eles não poderiam conversar como dois parceiros? Não? Não rola? O único diálogo menos sexual que há entre os dois é quando estão nas trincheiras, mas, logo em seguida, vem a cena que eu gostaria de esquecer: Diana caminha no meio do campo de batalha como uma verdadeira top model. Mas, gente, pra quê? Sério mesmo? Ela é fodona, a gente sabe, mas essa cena foi totalmente para agradar macho quando, claramente, várias mulheres estavam presentes no cinema para aclamar nossa querida Mulher Maravilha.
O filme é excelente porque fala sobre o feminismo que vende: uma mulher bonita, padrão de beleza, que é forte (mas não tanto) e precisa da ajuda de homens para salvar o mundo. 
Isso tudo sem contar a chamada síndrome de Smurfete que o filme também trás a tona: Diana é a ÚNICA mulher no meio de tantos homens tentando salvar o mundo. Nem me venham mencionar a secretária que faz o papel de mulher burra e ingênua e não tem sequer um diálogo decente com Diana. 
E aí, muitos vem com o argumento: mas veja a época em que se passou o filme, em que se passou o HQ. Queridos, diversos filmes da Marvel e da DC tiveram adaptações péssimas para o cinema e ninguém utilizou esse argumento. Você provavelmente está argumentando assim porque está indignado com minhas críticas - e você pode estar indignado, não vou te condenar, não.

Agora, vamos a alguns pontos positivos que eu tenho muito prazer em destacar. Algumas amigas minhas criticaram o fato de Diana ter vencido tudo com o "amor" - acharam isso bastante machista. Por um lado, realmente, pode ser bem machista. Mas eu proponho uma outra visão dos fatos: Diana não foi gerada como uma criança qualquer - ela nasceu do barro, não da junção de um espermatozoide e um óvulo. Diana nasceu praticamente por combustão espontânea. Diana é filha de Zeus e ela estava predestinada a derrotar Áries, o deus da guerra, que corrompeu os seres humanos. Vocês já ouviram essa história em algum lugar? Eu já - no livro dos livros, a Bíblia. Pois é, vocês podem estar rindo loucamente dessa análise, mas eu vejo a imagem de Diana como uma salvadora do mundo (que é o que ela, de fato, é) que veio para lutar e combateu o "mal" com destreza e compaixão (se Jesus não lutou assim, então, não sei o que ele fez). Não estou falando de crenças, estou falando de histórias - e a Bíblia é uma puta história enorme cheia de mortes, batalhas, egoísmo, etc. A Bíblia é quase Game of Thrones só que de Deus rs. A análise pode até parecer desproporcional em um primeiro momento, mas essa mesma analogia é utilizada diversas outras vezes no cinema e com homens e ninguém fala nada: como em Harry Potter ou Senhor dos Anéis e etc etc etc.

E tudo isso torna o desfecho da história ainda mais brochante: POR QUE RAIOS STEVE TREVOR TEVE QUE MORRER PARA AJUDAR DIANA A SALVAR O MUNDO? Se não foi para os homens verem um pouquinho de protagonismo, então, eu não sei.

Mulher Maravilha é foda. Mulher Maravilha é um mulherão da porra e veio para empoderar diversas mulheres - mas o capitalismo patriarcal se aproveitou disso e fez um filme machista e rentável, isto é, algo que vai "empoderar" mulheres com um feminismo liberal, sem machucar muito o ego dos homens. 

sexta-feira, 19 de maio de 2017

San junipero

Ela foi como a última brisa de primavera antes de chegar o verão: aquela brisa demorada, que chega sem avisar, bagunça tudo o que está arrumado e depois vai embora sem dizer adeus, mas deixando aquele quentinho dentro do coração. Ela trouxe um perfume floral, daqueles que a gente não esquece com facilidade porque marca a pele e o coração.
A conheci num desses dias quentes de outono - muito menos comuns do que a gente imagina. É, incomuns como ela. Na hora, aquele sorriso doce me conquistou - ou foi o olhar gentil? Ou o beijo apaixonado? Bem, o beijo é uma outra história que a gente não vai contar aqui. Acho mesmo que foi a forma como ela entrelaçou os dedos nos meus e disse que me amava com os olhos antes mesmo que tivesse algum resquício de amor para inundar o coração. Tem gente que marca a gente só por existir, mesmo sem entrar em nossas vidas. 
Mas a vida nem sempre é fácil. Não. Às vezes, as coisas simplesmente acontecem em momentos errados - errados? Seriam mesmo taxados como errados? Não sei. Talvez devamos reformular a frase. Às vezes, as coisas simplesmente acontecem - e também simplesmente acabam. Talvez não acabem por inteiro, talvez nem devam, de verdade, acabar. Elas podem fazer um pausa como quando colocamos aquela vírgula safada fora do lugar apenas para dar uma respirada e, então, continuar o texto, ops, a vida.
Tem coisas que simplesmente acontecem. Tem coisas que simplesmente acabam. E tem coisas que simplesmente precisam de uma pausa, no tempo, no espaço, mas não no coração. Talvez, em um outra realidade, em um outro mundo, em que só possa existir a primavera, as coisas possam durar. Talvez em uma realidade aumentada em que o coração não precise seguir essas regras de tempo que a gente coloca. Talvez em uma realidade em que não haja regras, apenas essa harmonia gostosa de se ser o que se é. É. Talvez em San junipero possa existir felicidade plena, transbordar de corações e realidades tão palpáveis que realmente parecem reais. 
No momento, San junipero não existe, mas, quem sabe, no futuro possa existir.

domingo, 14 de maio de 2017

A dor precisa ser sentida

A gente tem essa péssima mania de acreditar que a vida é feita apenas de felicidades e que só as felicidades valem a pena, mas não é bem assim. A vida é feito de momentos, de pessoas que ficam ou que a gente deixa passar. A vida é esse negócio louco que a gente nem sempre sabe se está (sobre)vivendo ou apenas vendo fluir. Talvez se nossos corações soubessem como amar, a vida seria mais simples. Talvez se a gente aceitasse que nem tudo são flores, a vida teria algum sentido, algum propósito. 
Veja bem, não estou dizendo que não há propósito em viver (embora, eu ache todos os propósitos bastante duvidosos e incerto), tô apenas dizendo que viver é um negócio doido também composto por tristezas. É, tristezas. A tristeza precisa ser sentida. Pode parecer muito masoquista dizer isso, mas é verdade. É real. A dor é algo que faz a gente crescer e ela precisa ser mastigada e digerida com cuidado pra não aguçar a gastrite - de preferência, faça a digestão sem tomar café porque isso só pode piorar tudo. Ninguém quer ficar com dor de amor e dor de estômago ao mesmo tempo. Não. Cada dor ao seu tempo. 
A dor é um sentimento muito pouco valorizado pelas pessoas. Muitas vezes, em momentos de dor ou de tristeza, a gente prefere colocar a emoção num cantinho da mente e evitar colocar para fora - digo por experiência, eu sou a própria rainha do choro em momentos impróprios quando a situação já passou há dias. Não é nada pessoal, sabe, eu queria ser capaz de chorar - é péssimo ficar com a agonia presa dentro dos olhos e não conseguir derrubar uma lágrima sequer. Pessoas choronas, vocês tem meu respeito - um dia, quem sabe, eu volte a ser assim.
O que ninguém conta pra gente quando somos crianças é que a vida vai te dar uma surra e, quando você perceber, vai estar mais duro do que jamais imaginou. É. Sei que este livro é controverso, não nego, mas Scarlett O'Hara é a personificação da superação e da lapidação que a vida da na gente. Scarlett O'Hara deixou de ser uma menina mimada, rica, racista, para se tornar uma mulher dura, que faz o que tem que fazer e que ressurge das cinzas quando todos esperam que ela ficará chorando no carpete vermelho de sua casa. Não. Scarlett O'Hara é a mulher que arou campos e campos e algodão com as próprias mãos para não ver a família passar fome. Scarlett O'Hara é a mulher que fez um vestido das cortinas de sua mãe e tentou vender o próprio corpo para que ninguém nunca mais passasse fome. Scarlett O'Hara sentiu fome, frio, desespero, desilusão. Scarlett O'Hara tomou a maior surra da vida - não uma, mas pelo menos quatro vezes.  Quem pode culpá-la por priorizar a razão em detrimento do coração depois de tantos anos de dor? É, a vida machuca a gente. O grande erro de Scarlett não foi ter se deixado lapidar pela vida, coisa que a deixou muito mais forte: o grande erro de Scarlett foi não ter se permitido ser fraca. Em nenhum momento ela se permitiu sentir toda aquela dor que estava presa no peito. "Penso nisso amanhã, quando aguentar" - e nunca mais pensava naquilo. 
O grande erro que a gente comete é o de não deixar a dor entrar no coração. A dor precisa ser sentida, precisa ser vivenciada em toda a sua glória. É só sentindo que poderemos valorizar cada pedacinho de um coração partido, que poderemos aprender alguma coisa com isso. A dor machuca, mas algumas coisas simplesmente precisam acontecer para que, nas palavras de Margaret Michell, "amanhã seja um novo dia". 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Péssimos hábitos que a gente cultiva (e se machuca por isso)

Numa belíssima segunda-feira de reflexão, eu me vi em mais uma das muitas situações em que eu simplesmente gostaria de explodir, mas em que eu tinha que ser ponderada para não ofender ninguém, para não magoar ninguém, para não causar desconforto a ninguém - as pessoas de uma forma geral não sabem lidar com críticas (claro que me incluo nessa lista, embora eu mesma me critique o tempo todo).
Quantas vezes você ficou calado para não machucar alguém, mas, ainda assim, foi ferido por essa pessoa? Quantas vezes você colocou o bem estar do outro acima do seu sem levar em consideração como isso poderia te prejudicar de tantas formas diferentes?
A gente tem a péssima mania de inventar mentiras para si mesmo, para se reconfortar, que, em algum ponto, nós começamos a acreditar nessas mentiras. Nós passamos a acreditar na belíssima vida que nós criamos para nós mesmos em nossas cabeças.
A gente tem a péssima mania de tentar absorver tudo, de tentar entender o mundo sozinho. A gente não quer sobrecarregar o outro e, por isso, sobrecarregamos a nós mesmos. Nós engolimos muitos sapos diariamente e não colocamos para fora - a gente deixa que as pessoas pisem na gente. É duro ler isso, não é? Mas vai me dizer que não é verdade? Vai me dizer que você não está ou nunca esteve em um emprego péssimo em que você era constantemente humilhado (a), mas não fez (ou não faz) nada sobre isso? Vai me dizer que você nunca foi humilhado (a) e repudiado (a) por pessoas que você sempre acreditou que deveriam amá-lo (a) incondicionalmente? Sim, você já esteve (ou está) nestes lugares.
Nós perdemos tempo demais tentando ser gentis com os outros que esquecemos que nós somos - esquecemos o nosso próprio valor e esquecemos que precisamos nos impor. Precisamos levantar a cabeça e dizer: não, você não pode falar comigo assim. Precisamos interromper aquele sexo péssimo e dizer em alto e bom tom: você não está fazendo isso direito, você quer tentar de novo de outra forma ou podemos encerrar por aqui? Porque isso não está me dando prazer. Precisamos olhar para as pessoas que dizem que nos amam, mas nos machucam e dizer: não, você não pode fazer isso comigo só porque você é sangue do meu sangue, só porque somos amigos (as) há anos - você não tem o direito de pisar em mim.
Nós temos o péssimo hábito de se deixar pisar por quem quer que seja só porque a pessoa está num patamar de importância em nossas vidas - mas isso é completamente errado. A gente se cobra e se cobra e se cobra para ser mais, para ter mais, para agradar mais, mas o que ganhamos com isso?
O que você ganhou estudando o que seus pais gostariam que estudasse? O que você ganhou pensando como sua família aprovasse o que você gosta?
O que você ganhou em todos esses anos que escondeu sua opção sexual? Em que escondeu que queria trabalhar com entidades colaborativas ou com moda ou com ecologia? O que você ganhou fingindo que era (ou é) uma pessoa que você não era (ou não é)?
Não perca mais tempo se mutilando pelos outros quando você poderia estar juntando e cuidando de seus pedaços por você.
Como diria Billy Joel: "You've got your passion, you've got your pride, but don't you know that only fools are satisfied? Dream on, but don't imagine they'll all come true".

When you realize, Vienna waits for you... 


segunda-feira, 17 de abril de 2017

A organização dentro do caos

Eu tenho a péssima (ou ótima fama) de ser intensa demais. Não, não. Não sou intensa como aquelas pessoas que se dizem intensas, mas depois saem correndo de mim (rindo de nervoso). Eu sou uma pessoa intensa do tipo que fica parada no meio de uma tempestade só pra ver o que acontece ou que pede para descer do ônibus antes de chegar no ponto certo só para observar uma noite bonita. Eu sou uma pessoa intensa do tipo que fica imaginando possíveis cenários hipotéticos para minhas possíveis mortes - o que pode acontecer com minha família e meus amigos se esse ônibus tombar e eu morrer? Será que alguém vai sentir minha falta? O que pode acontecer se eu for estuprada e morta ali na esquina? Será que irão me julgar? O que pode acontecer se eu perder um olho em uma manifestação ou meu quadril precisar ser substituído porque eu fui brutalmente espancada? Serei vilã ou heroína?
É. É nesse tipo de coisa que eu penso - o tempo todo na verdade. Às vezes, eu me pego parando de ler um livro para imaginar como ele se aplica a situação atual de um país x e se há possibilidade de ele se interligar com outro livor - inclusive, passei semanas analisando a relação entre Star Wars e Star Trek para concluir que George Lucas era um tremendo fã frustrado de Strar Trek que resolveu criar este universo com um roteiro melhor, personagens mais filosóficos e mais verba (mas isso é outro debate). 
O que eu quero dizer é que nós vivemos em um universo em que as pessoas estão concentradas demais em si mesmas, em se sentem intensas, e esquecem de perceber que, na verdade, não são. Não são intensas. Não sofrem de ansiedade nem de depressão nem pânico. As pessoas esquecem de perceber que, é claro, são especiais por serem quem são, mas, não necessariamente, são intensas. Não estou romantizando os distúrbios psicológicos, vejam bem, foi só um exemplo completamente desnecessário.
O que eu quero dizer é que a gente vive num mundo de pessoas reais e de pessoas reais que se sentem impostoras (vamos chamar essas pessoas de ansiosas). As pessoas reais sentem-se reais, elas conseguem se apalpar, elas conseguem realmente acreditar no que estão dizendo o tempo todo. As pessoas reais estão nos mais diversos tipos de lugares - desde militâncias organizadas de esquerda (leia-se indireta) até grande bordéis da notícia (VEJAM como quiserem). A questão aqui é que uma pessoa real se sente real apenas pelo fato de existir - ela, inclusive, se sente no privilégio de não realmente ter crises de existência, no máximo, tem crises para dizer que tem crises, sabe? Aí sim estamos falando de uma romantização dos distúrbios psicológicos.
Agora, os impostores, vulgo ansiosos, nunca se sentem parte realmente de alguma coisa. É como se eles sempre se sentissem faltando, como se não coubessem naquele ambiente - mesmo que tenham tudo a ver com aquele ambiente, mesmo que tenham dado duro para estar naquele ambiente. Eles simplesmente não pertencem aquele ambiente. De fato, não pertencem a lugar nenhum.
Os impostores vivem em um mundo único da sua mente incansavelmente pensante - nunca conheci gente que pense mais do que os ansiosos. Esses impostores tem a péssima mania de refletir demais, de analisar demais, de pensar demais. Tem a péssima mania de sentir demais.
E é aí que entra o nosso questionamento: será que realmente é uma péssima mania ou será que, simplesmente, é uma mania que não é mais cultivada na sociedade atual? Vivemos uma glorificada cultura do desapego, do deixe ir, do "vamos transar, mas não me ligue amanhã, ok?". Vivemos uma cultura em que é muito bonito não se apegar a ninguém e aí que entra a grande questão: será que quem vive assim, em sua maioria, gostaria de viver assim ou apenas se adaptou?
E, mais uma vez, é aí que está o grande ponto: impostores são péssimos em se adaptar, então, é claro que eles (nós) ficam para trás nesse sentido.
Talvez sentir demais, nessa intensidade imensa que faz o coração disparar até quando se está parado, seja péssimo por um lado. Sentir demais te deixa agoniado, não deixa? Mas quando há amor, ah, quando há amor esse sentimento explode de dentro de você para o mundo como quando você era criança e sua mãe te comprava aquele pirulito que você enfiava dentro do saquinho para dar o gosto (eu sei que você lembra daquela sensação). É um negócio tão seu, tão único, tão frágil.
Afinal, todo momento é frágil: é uma junção de fragilidades que, em instantes, irá, enfim, acabar. Momentos que formam a vida de uma pessoa intensa são, sem dúvida, muito mais interessantes do que momentos que são apenas momentos para alguém que vê a vida passar - e é aí que voltamos a teoria do amor de George Lucas por Star Trek. A moral, meus amigos e minhas amigas, está na intensidade que você coloca nas coisas - tudo depende da intensidade e, é claro, de um bom roteiro e uma imaginação fértil. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

Parecia amor, mas era cilada, Bino

Nossa história começou ainda na infância - foi uma relação tão precoce, com uma conexão tão imediata e intensa que eu mal posso descrever. Naquele primeiro momento, obviamente, não posso dizer que nos apaixonamos, na verdade, nos tornamos boas amigas. Ela virou uma das minhas vantagens na vida - me ajudava a fazer minhas atividades mais rápido, me dava uma ótima vantagem sobre os outros porque eu sempre era mais eficiente e mais rápida.
Com o passar dos anos, ela foi ficando cada vez mais possessiva e nossa amizade foi ficando mais ameaçada, apesar de nós continuarmos sempre juntas em todos os nossos afazeres. Nós éramos como unha e carne, sabe? Só que ela, enquanto carne, começa a passar por cima de mim, unha. Nossa relação foi ficando cada vez mais difícil porque a felicidade que ela me proporcionava se tornou medo - algumas vezes, quando nós saíamos para passear por lugares que sempre costumávamos ir, eu esquecia onde estava. Eu sentia o choro preso na minha garganta e o desespero latente no meu peito.
Meus pais passaram a não gostar dela - eles não gostavam que nós saíssemos e menos ainda que ela viesse aqui para casa. Quando eu tive um surto de desmaios constantes por causa de nervosismo, eles a proibiram de vez de me ver - mas isso não nos deteve.
Mesmo com tudo e todos contra nós, seguimos nessa amizade que já não parecia mais tão vantajosa para mim, mas que era extremamente importante para ela. Quando entrei na faculdade, ela veio junto - não se conteve em me deixar ir embora, para outra cidade. Cada vez mais, nossa relação era de posse: eu pertencia a ela e não o contrário. Nossa relação passou de psicologicamente agressiva para ameaçadoramente real - agora os danos eram físicos ao em vez de só emocionais. Ela acabava comigo. Enquanto em alguns momentos ela me dava muita felicidade e muita vontade de viver, em outros ela simplesmente me arranhava, tirava meu ânimo e me deixava jogada em um canto.
Há uns anos, eu entendi que nosso relacionamento era completamente abusivo - entendi que ela não queria meu bem, que ela não queria ficar comigo porque éramos amigas e nos amávamos. Há alguns anos, entendi que era cilada. Bino.
Por muita pressão de meus pais, comecei a tratá-la como ela merecia, mas, às vezes, ela ainda vem me atormentar. Às vezes, ela ainda vem machucar o meu corpo e minha mente, me bagunçando desde a porta de entrada. Às vezes, ela não me deixa sair de casa - infelizmente, não posso denunciá-la por cárcere privado, infelizmente, ninguém acreditaria em mim.

Dedico este texto à todas as pessoas que, como eu, vivem um relacionamento abusivo consigo mesmas, com distúrbios de ansiedade, depressão, bipolaridade. Dedico este textos à pessoas que, como eu, muitas vezes não sabem como lidar com a dor que é ser o que se é, mas que continuam lutando, diariamente, contra suas auto-opressões. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A vida não é temporária

Todas nós passamos por momentos difíceis. Todas nós já nos deparamos com alguma situação que nos fez olhar para o céu e questionar "por que?". Todas nós acordamos um dia e, de repente, nos sentimos a escória da humanidade - não que eu acredite que existe, realmente, alguma escória na humanidade. É irônico e triste que, quando esses dias se repetem e se repetem e se repetem, a gente sinta como se este momento fosse infinito. A gente sente como se todos os dias fossem, de fato, difíceis. Mas isso só acontece porque é um momento. Porque aquilo é, de fato, uma fase pela qual estamos passando. Por algum tempo, a gente se permite pensar que aquilo é "temporário", que estamos vivendo mais um dos diversos momentos de nossas vidas. Por algum tempo, nós esquecemos que aquilo ali, que aquele momento que parece infinito é, na verdade, nossa vida. Esquecemos que aquela "fase" faz parte de quem nós somos e constrói exatamente o que nos seremos no futuro.
Muitas pessoas detestam o livro "E o vento levou" por motivos extremamente plausíveis, dentre eles o fato de que é a história de uma mulher estadunidense do sul durante a guerra da secessão, uma guerra em que os sulistas queriam se separar do resto dos EUA porque não aceitavam o fato de as pessoas negras não serem escravas, não serem diferentes. O livro fala sobre uma mulher racista em uma sociedade racista.
Ao longo dos anos, eu já li e reli este livro uma dúzia de vezes. Nem sempre leio inteiro, às vezes, apenas algumas passagens. Com o passar das leituras, eu cheguei a conclusão de que aquela mulher, Scarlett O'Hara, deixou de ser racista com os anos e as experiências. Cheguei a conclusão que, dentre tantas coisas em que ela evoluiu, essa foi uma delas.
O fato é que uma das questões que eu sempre admirei neste livro e nesta personagem em particular é que Scarlett mudou muito durante os muitos anos em que se passa o livro. No início, ela era uma menina rica e mimada de 16 anos e, no fim, ela viveu o que nenhum de nós gostaria de viver aos vinte e poucos anos. Ela passou fome, ficou viúva duas vezes, perdeu tudo o que tinha pelo menos três vezes, se aproveitou de pessoas, matou um homem e lutou por todos aqueles que ela amava, inclusive arando as suas terras de algodão sozinha, com as próprias mãos, para dar sustento a sua família.
O ponto em que quero chegar é que, ao longo do livro, Scarlett endurece. Ela deixa de ser uma menina para se transformar em uma guerreira que fará qualquer coisa para que ela e sua família possam sobreviver. Scarlett muda completamente. Apesar de, ao longo dos anos, ter me afeiçoado cada vez mais a este livro, eu nunca tinha, de fato, compreendido o que Scarlett tinha sentido em todos aqueles episódios horripilantes de sua vida. Eu nunca tinha entendido o que era dormir para esquecer que você tem fome ou ter tentado vender o próprio corpo, a própria vida, para salvar sua casa.
No entanto, a vida pode ser muito mais surpreendente do que a gente pensa. Sem querer, a gente passa por situações que não deseja para ninguém: a gente passa fome, a gente fica sem dinheiro para pagar a condução, a gente sente uma dor imensa que é tão grande que não conseguimos chorar. A vida corre por entre nossos dedos e, em meio a tantas situações difíceis, momentos, fases, a gente pensa que aquilo é temporário. De fato, a dor é temporária - ela vai embora em algum momento. Mas a vida não. A vida não é temporária. Toda a junção desses pequenos ou grandes espaços entre as dificuldades e as pequenas, mas valiosas, vitórias compõe a nossa vida.
Cada passo que nós damos em direção ao futuro faz parte de quem nós somos. Isso significa que nós não estamos vivendo uma fase "temporária": estamos vivendo nossas vidas. É claro que isso parece uma conclusão extremamente óbvia, mas me pergunto: quantas vezes você deixou aquele momento, mesmo que difícil, passar despercebido, esquecendo que ele faz parte da sua vida? Quantas vezes você adiou sentir aquela dor tão essencial de ser sentida só porque não queria sentir dor? Quantas vezes você deixou de fazer alguma coisa pela décima vez porque, das outras nove vezes, tudo deu errado?
A triste verdade é que nos apegamos demais às passagens da vida e esquecemos que são essas passagens que fazem nosso caminho. São essas tristezas e essas alegrias que fazem de nós quem somos, que constroem o castelo em que vamos morar, que fazem parte da trilha que estamos trilhando.
Esquecemos que a vida não é passageira e nos pegamos olhando para nós mesmos de longe, assim, como aquelas namoradeiras de barro que ficam nas janelas das casas de nossas avós. Ficamos observando nossa vida como a movimentação de uma rua, esquecendo completamente que nós somos os condutores daqueles carros, mesmo que estejam sem pará-choque ou com um enorme amaçado na porta traseira.
Esquecemos que não somos passageiros, mas, sim, condutores. A verdade é que "E o vento levou" pode ser um grande spoiler de nossas vidas (não vou contar o final, mas quem sabe, sabe) e eu não tenho certeza se realmente quero acabar naquele tapete vermelho, em lágrimas (opa). Na verdade, eu quero acabar meus dias pensando sempre "amanhã será um novo dia" para tentar.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Ansiosos Anônimos

Eu não sei quando ela vem me visitar. Às vezes, ela passa quase uma semana me enviando cartinhas, torpedos ou mesmo mensagens de WhatsApp. Às vezes, ela tenta me avisar que está chegando - talvez chegue no fim de semana ou talvez num dia importante de um compromisso inadiável. A verdade é que, a maior parte do tempo, ela gosta mesmo é de surpreender - não só a mim, mas todos ao meu redor. Quando ela chega, me abraça de tal forma que eu fico sem ar. Em algumas visitas, ela simplesmente me faz parar tudo o que estou fazendo para dedicar minha atenção em tempo integral a ela. Às vezes, ela só quer ficar deitada na cama, olhando por teto, tirando minha respiração.
Eu poderia dizer que nós, ansiosos comprovados, pessoas com crise de ansiedade, até que vivem bem, mas isso seria uma tremenda de uma mentira - seria algo que a gente diz para aqueles que nos amam quando tentamos acalmá-los, às vezes, mais do que nós mesmos. Nós não tentamos nos acalmar - a gente sabe que, quando ela chega, ela derruba tudo o que está ao seu redor. Nós não somos páreos para dona A - ela sabe muito bem o que fazer para que nós fiquemos em suas mãos. 
De forma otimista, eu diria que nós, amigões da dona A, não vivemos um dia de cada vez - primeiramente porque não sabemos como aproveitar o presente de forma proveitosa, sempre sentimos que estamos perdendo tempo, passamos tempo demais planejando o futuro ou remoendo o passado, sempre condenando cada uma de nossas ações, sempre pressionando a nós mesmos. Somos ótimos em autocobranças, aliás. Ótimos mesmo. Se você conhece algum BFF da dona A, não se preocupe em cobrá-lo: ele já está fazendo isso por você.
Nós, os AA (Ansiosos Anônimos), tentamos, sinceramente, viver um dia de cada vez. Tentamos pensar como a mente de vocês pensa. Nós tentamos não nos preocupar o tempo todo, mas é cada dia mais uma tarefa impossível. Muitos de nós, como eu, chegam a um ponto decisivo, aquele em que percebem que não adianta mais sobreviver e tentar melhorar ou sair da companhia de dona A. Chegamos num ponto em que, simplesmente, aceitamos que ela está ali. Aceitamos que, às vezes, ela precisa ficar deitada olhando para o teto e que, em outras, ela simplesmente vai tirar nosso ar no meio da rua, fazendo com que a gente esqueça para onde estava indo.
Chegamos num ponto em que temos que aceitar que nosso medo de andar de transporte público não é irracional, mas, sim, é um pânico imenso de ficar num lugar fechado cheio de gente. Chegamos num ponto em que aceitamos que não queremos ir a um evento porque vai ter gente demais, falando alto demais e tentando conversar com a gente sobre coisas que, naquele momento, não somos capazes de entender.
Nós, AA, somos pessoas extraordinárias que, muitas vezes, usam esse diferencial para executar nossas tarefas com mais rapidez, sempre prezando pela eficiência porque não somos capazes de tolerar nossos próprios erros. Nós, AA, sempre estamos indo além de nossas próprias expectativas, ultrapassando barreiras e sendo todos os dias pessoas melhores. A verdade é que nós perdemos muito tempo desvalorizando a grande tempestade que nós somos. Perdemos tempo achando que nosso parafuso a mais é um defeito, quando, na verdade, é só um diferencial.
Não tem problema você ser um AA. Não tem problema você não conseguir lidar com sua companheira de cada dia - às vezes, você precisa de um tempo. É por isso que existem grupos de apoio, terapeutas e amigos - porque, assim como eles fazem com que nossa vida seja muito mais proveitosa, nós, AA, também fazemos com que a deles seja muito mais extraordinária. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Como Mr. Darcy sacou a vida antes de nós

Você soube exatamente como me conquistar, não é mesmo? Você não elogiou meus olhos, como a maioria das pessoas faz, nem me disse como eu era linda: você escolheu dizer que amava o que eu escrevia. Num domingo qualquer, daqueles que ninguém sai na rua mesmo com aquele sol agradável de uma manhã de fim de semana, você me disse que se via nas minhas palavras: você disse que eu era uma pessoa livre e que amava a liberdade e que você era exatamente esse tipo de pessoa (nunca imaginei que isso fosse tão real quanto foi, não é mesmo?). 
Durante todo o tempo, você não se preocupou em falar palavras quentes para mim, não se preocupou em termos conversas safadas ou em trocar excitações - você sabia desde o início que um bom papo sobre política me excita (até quando eu quero xingar algum vereador mal caráter ou um arrogante qualquer). Você sabia que falar sobre isso me deixava completamente doida - porque é exatamente meu assunto preferido no mundo, depois de amor, é claro.
Às vezes, em alguma de minhas muitas crises de ansiedade, me pego pensando em como tudo acabou como acabou. Não porque eu ainda te ame - como diria Clarice, "eu esqueci você" -, mas, sim, porque, como uma boa virginiana com distúrbio de ansiedade, eu tenho uma forte necessidade de entender as coisas. Nesses dias, esses raros dias que tento compreender aquele tal a gente, percebo que não tem nada muito real para compreender: grande parte foi coisa desse meu coração romântico e a outra parte foi pequena demais para ser chamada de real. 
Hoje, muito mais madura, mas ainda rainha das tolices da vida, percebo que, de fato, algumas pessoas tem a incrível habilidade de cativar o coração da gente, mas não são capazes de manter esse carinho por muito tempo - tem gente que simplesmente é ótima em acabar com tudo. É quase um dom - curioso, na minha opinião. É quase uma autossabotagem, mas muito mais consciente e manipulável do que a gente pode imaginar. 
Uma vez, Mr. Darcy disse para Elizabeth que "o Mr. Wickham tinha uma ótima capacidade de conquistar amizades e um jeito pobre de mantê-las". Mr. Darcy nunca poderia ter tido mais razão - Darcy tinha dificuldades em fazer amizades, mas sabia exatamente como mantê-las. Talvez, só talvez, num mundo de reflexões e becos sem saída, a gente entenda que é muito melhor ser como Mr. Darcy do que como Mr. Wickham. Talvez, só talvez, seja muito melhor ter barreiras para deixar os outros entrarem, mas deixá-los fazer a festa quando entram, do que permitir que qualquer pessoa com os pés sujos pise em você só porque está com um sapato bonito.
No fim, a lição sempre será a mesma: Jane Austen sempre estará certa. 

domingo, 8 de janeiro de 2017

A menina que se perdeu no tempo ou a ordinária virtude de tentar

Andando por esse mundão a fora, ela quase nunca parava para olhar no relógio - "saber as horas para quê?", pensava, petulante. Nesse seu imenso universo particular, não fazia sentido contar o tempo da mesma forma que todo mundo, uma vez que ele se passava para ela de forma diferente. Não me entendam mal: nossa protagonista é um ser humano ordinário, que faz coisas ordinárias, que envelhece de forma ordinária e, eventualmente, morrerá - talvez não de forma tão ordinária assim. Na verdade, nossa protagonista realmente parece uma menina ordinária. Parece mesmo - não vou discordar de você. Mas o fato é que: não é. Talvez não pra mim. 
Nossa protagonista - vamos chamá-la de Alice? - está mais para uma menina estranha do que ordinária. Alice não gosta de comer frutas, embora aprecie um bom legume. Alice também não gosta de esportes coletivos, embora adore praticar esportes e goste (na maior parte do tempo) de pessoas. Mas, quando se trata de tempo, as coisas ficam muito mais confusas para Alice: ela se perde. Assim, num piscar do olhos, está tomando café da manhã em um lugar em que nunca esteve - possivelmente em sua mente distorcida, diriam alguns. De fato. Alice não pensa como a maioria das pessoas: para ela, o tempo passa de forma muito mais lenta e gradual. É quase uma daquelas melodias de Vivald - "Inverno", se eu pudesse nomear. 
Às vezes, quando ninguém está olhando, Alice fica ali, caminhando e olhando pro céu - assim, como alguém que procura um sinal, algo que mude completamente sua forma de ver o mundo. Nessas horas, o tempo passa rápido. Voa por Alice. No entanto, em outros momentos, como quando observa o cair das folhas num parque no verão, os minutos passam devagar - em uma hora se passam apenas cinco minutos. 
Mesmo assim, mesmo sem compreender como o tempo come sua vida com tanta voracidade, Alice tenta ser diferente. Tenta interromper esse fluxo contínuo de pensamentos que domina seu coração e sua mente. Tenta não pensar, ser um completo breu - mas já vou adiantar que, na maior parte das vezes, não dá certo.
Em meio a tantos pensamentos contínuos e mal espaçados, Alice segue sua vida tentando segurar o tempo, interromper o fluxo e voltar a ser uma menina normal. Tenta, desesperadamente, encontrar sentido num mundo tão perdido quanto o nosso. 
A primeira vez que vi Alice ela estava tentando fazer um bolo, mas queria quebrar os ovos e fazer com que o conteúdo caísse no seu tempo. Alice tentava controlar os ovos, uma vez que não conseguia ter controle sobre sua própria vida. Achei admirável a forma como, sem muitas opções, nossa protagonista se apegava a coisas pequenas como o tempo que irá assar um bolo ou sua própria respiração - às vezes, Alice ficava sem respirar de propósito, apenas para provar ao seu próprio corpo que ele era seu e de mais ninguém.
Falar de Alice é como falar de mim. Da gente. Desse povo que não para nem por um minuto para não perder o controle do seu próprio tempo, do seu próprio corpo, do seu próprio eu. Somos milhares de Alices por ai - algumas mais deprimidas e melancólicas do que outras, mas sempre tentando controlar o pouco que nos resta, uma vez que, de tudo, praticamente nada sobrou pra gente. É como se o mundo girasse ao contrário enquanto nossa própria órbita mal está alinhada com essa em que a gente vive. Nosso viver, às vezes ansioso, às vezes deprimido, é completamente alheio aos demais viveres que nos cercam, como se enquanto estamos tentando controlar as batidas do nosso coração, as demais pessoas estivessem felizes jogando futebol ou lendo um bom livro - ambas as coisas sem o menor estresse.
A verdade é que, para Alices, é muito difícil fazer qualquer coisa sem estresse - até atividades de lazer se tornam estressantes, ainda mais quando nossas protagonistas consideram que não são produtivas, que não estão fazendo nada de produtivo ao se divertir.
Ser Alice é complicado - tanto quanto ou talvez mais do que o simples existir. Ser Alice é querer viver existindo, assim, constantemente, sem parar nem um segundo para desistir. Ser Alice é querer ser mais do que uma menina ordinária e conseguir - mas, então, tentar de novo ser mais do que já se é. Ser Alice é complicado - machuca nosso próprio coração em busca de mais crescimento pessoal. Ser Alice dói - mas algumas de nós são masoquistas, não é mesmo?