segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Devaneio

Era um olhar constante que cantava a imensidão de seu pensar. De pensamentos que ocupavam o silêncio de seus lábios. Como quem sabe, ele soube que dizer não era a melhor forma de demonstrar e por isso só existia dizendo palavras puídas que susteniam o seu olhar.
Não apenas com os olhos ele o fazia - era com as mãos, com a boca, com o cantarolar de seus passos percalçados pela grama. Uma poesia recitada para o ninguém ouvir já que o espectador não era o fim em si, mas o começo dentro do ser.
Com suspiros e toques, ele caminhava dizendo palavras que não seriam entendidas por meio entendedor... Como se contasse uma história com seu andar, seu cantado falar era como o sol que simplesmente inundava cada partícula do meu ser.
Não que eu fosse - na verdade, nada eu era. Era apenas alguém que, sem ter o que esconder na própria vida, ficava procurando coisas palpáveis nas de quem tinha meu amor... De quem era dono de meus pensamentos mais distantes.
Sem olhar para trás, ele andava cada vez mais próximo de tocar meu suspiro com seus olhos afáveis. Olhava como quem não queria olhar... se achegando e achegando...
Mas, quando não tinha mais o que achegar, chegou. E ficou. E susteniu ao saber pequeno das coisas grandes... Ou nada saber que encanta e emudece... A nós.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Dois, por favor

Ao pensar em se encontrar por um segundo, percebeu que estava perdida em si mesma. Seu coração já não mais dizia o que deveria dizer e, naquele momento, ela poderia ser o que chamavam em tempos antigos de louca. Mas o que é a loucura se não uma amplificação muito mais intensa da realidade? Deitada no jardim de sua mãe, sob a grama verde e pequena - não de fato um grande jardim - percebeu que o tempo não mais importava. Nada ali valia alguma coisa se não aquele pequeno instante que poderia ser esquecido por qualquer um, mas não por ela.
Fechou os olhos com a mais doce ilusão de que tudo o que lhe iludira um dia poderia ser realidade. Um dia poderia ser mais do que uma simples ilusão. Mas não seria. Mas não era.
A grama macia não poderia ser nada além de grama, assim como quando você almeja uma torta e obtém um bolo, você sabe que aquilo não é uma torta.
O sol brilhava intensamente sobre sua face como um belo dia de primavera - diferentemente de todas as outras pessoas do mundo, Ana se sentia confortável naquele tremeluzir incandescente e feliz. Ah, a felicidade. Se pudesse dar um palpite, a menina de bonitos olhos castanhos afirmaria que vira aquela palavra cintilante em meio aos raios UV - ou não, ou era só loucura.
Rolou de um lado para o outro sem saber o que gostaria de fazer naquela lindo dia iluminado. Rolou até não ter mais o que rolar e se deparou com grandes olhos a observando - eram tão azuis quanto a imensidão sob suas cabeças. Um garoto - daqueles descalços, com pés quase peludos e dentes tortos de criança levada. Ele sorriu pra ela como se o mundo todo não fosse importante naquele momento. Sorriu como só um menino pode sorrir aos 12 anos.
Ele pegou em sua mão e a ajudou a levantar. Eles correram por todo o jardim completamente adoidados, obcecados com a ideia de que mais tarde poderiam comer um delicioso bolo de cenoura com leite e jogar videogame. Correram como apenas crianças conseguem correr.
Ao chegarem à esquina, com o sol apino sob suas cabeleiras bagunçadas, souberam que aquele era o momento certo para um sorvete - não que sorvetes precisassem de um instante específico para acontecer, qualquer hora é hora de sorvete.
Mais uma vez correndo e suando e suando e correndo, os meninos conseguiram chegar aquela bela loja colorida e gelada em que você só entra quando tem mais de dois reais ou, pelo menos, está lá com seu pai ou sua mãe.
-Chocolate, por favor. - pediu o garoto com seus brilhantes olhos azuis.
-Morango. - Ana disse, sorrindo como nunca e sem soltar as mãos do pequeno projeto de homem.
-São cinco reais. - respondeu a moça antes de pegar o sorvete, ela sabia muito bem que não se poderia confiar em menores de idade desacompanhados.
Com um sorriso conflitante, o menino disse que só tinha dois reais, mas que aquilo era realmente fácil de resolver.
Saíram, então, da sorveteria com um sorvete napolitano e dois grandes sorrisos, afinal, é assim que começa o amor e a loucura: com a troca de um delicioso sorvete de chocolate por 1/3 de um napolitano e mãos melecadas grudadas nas suas.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Era só solidão

As flores amarelas não apareciam tão amarelas quando poderia-se supor - claro que a suposição perante tal fato não é realmente relevante já que ninguém realmente se importa com o que se passa na vida de uma pequena flor.
Não que a realidade pareça a realidade - afinal, o que é ser real? É corresponder às expectativas que alguém impõe a cada um que vive neste grande mundo? É ser o que muitos podem considerar bom? Mas o que é, de fato, o bom?
A relatividade presente na imensidão desta cidade cinzenta era o que mais o incomodava. Não eram os prédios altos demais ou a poluição que poderia ser palpável dependendo de onde se estivesse. Era a imensidão que dava tanta margem para erro quanto possível - era como dizer "já que temos tantos postes, então tente bater em todos, um só não basta". Um só não basta.
Caminhando pelas calçadas sujas, ele não conseguia encontrar nenhuma daquelas flores amarelas que antes o incomodavam tanto - não por sua cor sutil, mas pela palidez que ele mesmo tinha em sua existência tão pouco plausível.
A cada passada, o menino que não poderia se equiparar a um homem se sentia mais menino com seus tênis surrados e sua regata escura. Sentia-se perdido no meio da larguitude complacente que não parecia de fato compadecer de sua dor.
Sua respiração não parecia com uma respiração qualquer, na verdade poderia mais ser comparada com a de um cachorro faminto, cansado e sozinho. Sozinho. Não que a sofreguidão com a qual não sabia quem era não fazia com que ele mesmo se sentisse perdido dentro de seus tão escuros sonhos. Tão abstratos quanto gemas e claras num omelete - se é que poderia chamar um ovo mexido de omelete.
O ar soprava calmo, diferentemente dos outros dias de primavera, e o pequeno menino não sabia se seus cadarços faziam sentido batendo em seus pés e no chão. Não sabia se era correto tomar um refrigerante ou reverter sua situação emocional completamente confusa e sem nexo.
Talvez, a cada passo, os cadarços traçassem seu destino e ele não poderia questionar, afinal foram seus próprios pés que o levaram até ali - fora ele quem provocou todas as reações newtônicas que aconteceram em sua existabilidade ao mesmo tempo em que o vento levava qualquer escolha que ele poderia ter ao se deparar com a vida. Vida esta muito mais difícil do que de fato parecia ser quando era criança.
Ao olhar para cima, percebeu que a imensidão era muito mais imensa do que ele poderia supor. Muito mais densa do que as águas negras na qual ele escolhera se afundar.
Era mais do que o mais que ele poderia supor. Era quase pedir para que a imensidão o engolisse.
E engoliria. E engoliu.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Uma grande ideia


Nem sempre as ideias grandes são grandes mesmo - muitas vezes elas começam pequenas, lá na cabeça da gente, sem que percebamos que elas podem ser algo realmente valioso. Geralmente a gente pensa em como aquilo é idiota e como qualquer outra pessoa poderia ter pensado a mesma coisa.
Mas, em algum momento durante aquele processo criativo, vemos que aquilo tem algum valor, na verdade, tem mais valor do que aparentava ter segundos atrás. É assim que nasce uma boa ideia: de dentro de onde a gente menos espera.
Convivendo com pessoas diferentes de grandes ideias, pude perceber o quão importante é a diversidade: sem várias línguas, o mundo não teria graça; sem comidas diferentes, não faria sentido ter uma comida preferida. Sinceramente, sem toda a pluralidade existente em comunicação, não poderia haver sucesso.
E por que? Porque comunicação não é apenas estabelecer contato verbal, é vender uma ideia por meio das palavras certas.
Quando a gente pensa que qualquer um pode se comunicar, estamos errados e estamos certos. Estamos errados porque o dom de transmitir uma informação com todo o seu conteúdo, sem que ele se perca ou se deturpe, é algo mais difícil do que pode parecer. Mas também é algo fácil porque, parafraseando Manuel Bandeira, o português gostoso mesmo é aquele falado pelo povo - é aquela comunicação que nem todo mundo entende porque vem de uma riqueza de detalhes que pertencem à uma comunidade específica, uma comunidade que se entende e onde há compreensão, há comunicação.
A gente de jornalismo tem essa mania boba de pensar que vai salvar o mundo com um texto, um faminto com uma palavra e um morador de rua com uma foto. Mania boba de pensar que a gente realmente é independente e pode fazer o que quiser, quando quiser, porque somos imbatíveis.
Mas não somos. Não somos nem metade do que gostaríamos que fossemos. Entretanto, nós temos um time com quem podemos contar e do qual não devemos abrir mão: o time da comunicação social.
Nele se encaixam publicidade, comunicação mercadológica, relações públicas e jornalismo. Profissões que, como nós, têm que lidar com gente. Têm que entender o que as pessoas precisam e têm que atender essa demanda da forma mais ética e moral possível. Mas, assim como nós, eles têm que trabalhar em conjunto.
Sem a cooperação, a colaboração e o companheirismo nenhum ramo vai pra frente - e, na comunicação social, nós temos muito ramos.
É por isso que a gente tem que valorizar a comunicação de uma forma geral, como um bem que pode ser cuidado por mais de uma pessoa, por uma diversidade de gente que pensa diferente e, mesmo assim, pode ajudar um todo.
A comunicação é isso: a língua do povo traduzida pra gente.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Já diziam os Beatles

Seus olhos eram como sementinhas a olhar para ela - estreitos, talvez doces e completamente puros. Ele tinha essa mania engraçada de fazer grunhidos enquanto dormia, mas ela não se sentia no direito de reclamar - Ana falava coisas sem sentido enquanto dormia e ele aceitava conversar com ela, mesmo sem saber se lembraria no dia seguinte daquelas palavras perdidas ditas na vigília.
Calmo e sereno, ele respirava e inspirava enquanto os raios do sol penetravam pelas janelas do quarto. Parecia aqueles sonos gostosos de quando a gente é criança e pode dormir até tarde nas férias. Podemos viver como se as únicas coisas que importassem fossem os amigos e os fins de semana na casa da vovó.
"Não faz sentido a gente ter tão pouco trabalho na infância e, de repente, se ver como um adulto cheio de afazeres. Um adulto que precisa desesperadamente sair das casas dos pais, mas antes tem que ter uma estabilidade financeira satisfatória".
Ao olhar para o sono tranquilo dele, a menina dos longos cabelos escuros se pergunta de onde surgiram todos esses paradigmas perfeitamente estabelecidos para que a gente siga em cada fase de nossas vidas. "Por que devemos trabalhar e estudar para ter essa tal estabilidade? Por que não podemos só viver? Por que não fazer e esperar pra ver o que acontece?".
Ele se mexe, abraçando-a enquanto ainda está dormindo. A noite toda fora assim: uma dança sincronizada de carinho adormecido, como se nada no mundo realmente importasse.
Mais uma vez enroscada em seu abraço, ela vê que a vida pode sim ser mais simples: quando há amor, há sucesso. E não apenas "amor amoroso"; é toda forma de amor.
Amor ao trabalho, à família, aos filhos. Amor ao fato de estar vivo e poder amar o próximo.
"Quando pudermos amar aquela pessoa em pé e cansada no ônibus a ponto de ceder nosso lugar... quando amarmos aquele morador de rua como o ser humano que ele é, ajudando da forma que podemos, então nós saberemos o que é o amor".
É disso que precisamos.
Amor.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Terra de ninguém

O sol brilhava intensamente sobre as flores molhadas pelo orvalho do inverno. As pessoas que corriam ali respiravam e inspiravam com uma calma descomunal - seus rostos estavam concentrados, ignorando as gotas de suor que rolavam em direção à boca. Eram jovens, adultos, idosos e crianças a aproveitar mais um gostoso dia no parque.
Dali nem se podia ouvir os gritos atemorizados das crianças moreninhas, de olhos amendoados e amargura latente. Em meio a tantas árvores e sons naturais, não se poderia lembrar das luzes ofuscantes que, em menos de dois segundos, davam espaço para uma fumaça densa e um barulho ensurdecedor em algum canto do mundo.
A bela senhora japonesa se alongava em frente ao pequeno banco iluminado, pensando talvez em quando seus netos iriam chegar para vê-la, sem imaginar, porém, que aqueles gritos que ela não ouviu quando proferidos poderiam ter sido dos netos de alguém.
As crianças que corriam pelo gramado e chutavam a bola de futebol com gosto, escolhendo por grau de preferência qual jogadores iriam ser, poderiam ter sido as mesmas que foram interrompidas no meio de um passe rumo ao gol.
Naquele dia ensolarado não havia fumaça densa, gritos de horror nem um guri a segurar o próprio intestino em frente ao hotel. Não havia guerra ali, drones ou presidentes de outras nações sentados em suas cadeiras observando a morte tomar conta de um lugar disputado por Deus.
Sob a sombra das árvore, o cantar dos pássaros e o sorrir das crianças, não havia tristeza ou podridão. Havia apenas esquecimento do que, como nossos olhos não viram, nossos corações não poderiam sentir.

terça-feira, 1 de julho de 2014

As luvas verdes

As pedras que estavam no caminho pareciam muito mais incômodas agora - eram muito menores do que ele imaginava, mas ainda assim se assemelhavam a bolas de futebol em sua cabeça fértil.
Os obstáculos estavam cada vez mais palpáveis como quando a gente é criança e pular o muro é extremamente difícil, apesar de a altura não ser tão grande.
Cabisbaixo mais uma vez, ele rabiscava um papel em branco que nunca era completamente desenhado - nada saía de sua caneta, nem uma gota de tinta. Estaria o menino louco? Estaria imaginando uma branquidão onde nem se quer havia lápis? Estaria a vida brincando de enganação com um jovem que acabava de se adulterar?
Sem conseguir enxergar os próprios traços, o menino-homem desistiu de continuar, desistiu de persistir sem ver. Ele decidiu que só poderia seguir o que visse e o que fosse visto seria crível.
Andando pela branquitude de seu próprio papel, ele não sabia como distinguir as curvas das retas e as retas das bordas. Tudo se tornara confuso e claro, quase brilhante, perante seus olhos pouco treinados - ele enxergava sem ver, como muitos em SP.
Não que ele fosse igual, não. Ele era totalmente diferente - mas como poderia ver a diferença se não conseguia enxergar por conta da branquidão causada por sua cegueira? Talvez fosse exatamente isso o que Saramago quisesse que todos nós víssemos: não enxergar a si mesmo é pior do que não enxergar o mundo porque te torna muito mais impotente perante ele.
Ao se dar conta de tal equívoco, o menino-homem pegou mais uma vez o nanquim e a folha em branco, só que dessa vez, ele conseguiu ver a tinta no papel.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Ponto de espera

Ao observar a rua pela janela, Julia percebeu que as coisas não eram como antes - os passarinhos não cantavam mais tão alegremente e nem o seu Juca da mercearia parecia ser o mesmo, ele não conversava mais com ela e as outras crianças e mal conseguia pensar em algo além de "quando as obras acabarem".
Afinal, quando toda aquela monstruosa construção estivesse pronta, o que seriam deles? Haveria ainda um aterro sanitário que não funcionava? Ou emprego para todos? O que seria do pai dela sem o emprego concedido pela empreiteira? 
Debruçando-se para olhar melhor as crianças jogando bola na pracinha ali em frente, a menina de faces bronzeadas pelo sol percebeu que nada mais seria como era antes - antigamente ela poderia jogar futebol com aquelas crianças, podia realmente brincar e aproveitar sua idade. Mas não mais hoje.
A pequena menina teve crescer, assim como seus pais quando tinham a idade dela. Teve que entender que as coisas não eram sempre como gostaríamos que elas fossem.
Andava rumo ao banheiro para se arrumar - o sol iria se pôr em breve e seria necessário estar pronta quando sua mãe chegasse. Enquanto a água molhava-lhe os cabelos, os olhos permaneciam fechados esperando que algum milagre a salvasse. Esperando que houvesse um Deus misericordioso que pudesse mudar seu fatal destino. Mas não havia. Não naquela noite. 
A toalha enrolada sob seu corpo esguio não cobria mais do que o necessário - o dinheiro era pouco e não possibilitava que comprassem toalhas melhores. As roupas, da mesma forma, eram batidas e um pouco rasgadas - pelo menos, as que usava durante o dia.
Ao abotoar as botas maiores do que os próprios pés, Julia se deu conta que não poderia mais contar com Deus, com o governo ou com os donos de mais uma grande hidrelétrica no Nordeste. Não poderia contar com seu próprio pai ou com seus irmãos que poderiam morrer a qualquer momento enquanto faziam trabalhos ilegais.
-Tão ilegais quanto o meu. - Ela disse em voz alta ao sair pela porta ao encontro de sua mãe no ponto em que deveriam esperar por aqueles que cedo ou tarde viriam.

sábado, 17 de maio de 2014

Equalize

A brisa daquele dia ensolarado estava quente e soprava como se não pudesse levar nenhuma lembrança embora - soprava como se quisesse guardar um segredo. Porque, estava óbvio, que aquilo era um segredo. Não era um sentimento como qualquer outro, uma pessoa como qualquer outra. Era algo tão especial que precisava ser escolhido para quem contar - caso contrário, poderia desaparecer no ar. Desaparecer porque não era real? Não. Desaparecer porque os momentos bons voam quando contamos para pessoas erradas, pessoas essas que fazem questão de soprar bem forte para que qualquer lembrança feliz se desfaleça no ar. Mas não aquele momento - aquilo era como um segredo concreto que nem o vento nem o tempo poderiam desfazer.
Fechou os olhos para sentir melhor o soprar dos ares - sentir aquele sentimento que, mais do que um simples tocar, era ser. Mais do que esperar, era fazer. E por que? Porque era assim que as coisas eram, sem mais porquê, só eram. Era de uma naturalidade estonteante - como respirar ou voltar pra casa. Era como o soprar da brisa que, ao contrário do que diria a física, não tem explicação.
Pra quê traduzir o que parecia intraduzível? Pra quê esperar por algo incerto se o certo estava logo ao lado?
Ao abrir os olhos novamente, Helena percebeu que todo o céu estava sem nuvens - nenhumazinha, nenduazinhas. Nada que pudesse encobrir seu olhos abertos novamente. Caminhava com tranquilidade pelo parque como todas as manhãs - como se o vento, o tempo e a vida pudessem caminhar junto dela, como cúmplices. Andava e andava, sem rumo pela vida. Quer dizer, pelo parque.
Sabia que quando o momento chegasse, ele simplesmente chegaria - como a fome. E, chegando assim de forma chegada, traduziria a fome em chocolate para saciar a si próprio como só as coisas gostosas da vida podem fazer. Chegando chegasse mais uma vez chegado, faria no seu coração um momento instantaneado de prazer - momento mais duradouro não haveria de haver.
Talvez mais uma vez tivesse que parar de divagar esses tão clichês devaneios - mas o que seria de sua própria vida sem a divagação de pensamentos abstratos, porém tão palpáveis? Instantes capitaneados pela vontade de ser mais, de ter mais. Mais palpacidade? Mais momentaneinadade? Não. Mais subjetividade. Sim, mais do que não se pode ver, mas se pode sentir. Mais do que só teve uma vez na vida - ou, quem sabe, nunca de fato tivera. Mais de algo que nunca teve. Sorriu ao pensar esse breve pensamento... tropeçando em si mesma - ou quem sabe numa pequena pedra - Helena desequilibrou-se até o chão, caindo um tombo surdo, sentindo a superfície dura antes de senti-la. Mas não sentiu.
-Você está bem? - Perguntou o homem com belos olhos expressivos. Olhos de poeta tão desnorteado que poderia ter tombado também.
-Talvez. - Ela respondeu sabendo que, enfim, o instante estava instantaneado, afinal, quem vê olhos tão desnorteados assim, tão de perto, acaba por desnortear-se também.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Los enamorados não têm tradução

É engraçado o funcionamento de cada idioma - cada palavra em uma língua tem um gosto diferente, como se a textura mudasse de uma para outra. Por isso, existem palavras que conseguem ter uma sentido muito mais amplo em determinados idiomas do que em outros - como "enamorado". Em espanhol, enamorado poderia ser traduzido de forma pobre como "apaixonado", mas a verdade é que significa muito mais do que isso.
Traduzir enamorado é o mesmo que traduzir o que é um sentimento complexo como é paixão. É simplesmente dizer: é isso, nos sentimos assim e ponto. Não há nada mais a acrescentar. Exatamente como um tradutor online. Entretanto, não é assim que as coisas funcionam na maioria das línguas originarias do latim - essas parecem sempre ter um significado subentendido que só os falantes nativos conseguem compreender, mas que não só eles conseguem sentir.
Enamorado é uma palavra que representa a felicidade, a constância de um sentimento inconstante. Enarmorarse é como viajar com o vento soprando quente e tangente em seu rosto - como se não houvesse leveza maior e você pudesse flutuar.
Como uma palavra tão complexa poderia ser traduzida como "apaixonado"? Talvez as pessoas simplesmente não entendam o prazer que se é dizer: "estoy enamorado por ti". Não entendem como algumas frases simplesmente não têm tradução.
De que valeria cada momento se não observássemos os detalhes atentamente? De que valeria enxergar sem realmente ver? É como naqueles dias bonitos, com céus límpidos e rosados – nós podemos escolher apreciar aquela beleza etérea durante algum tempo ou podemos optar por entrar dentro do escritório e trabalhar. Será realmente que valeria a pena sem observar os pequenos detalhes que fazem um diferença absurda?
Enamorase é como parar um minuto para gostar do arranjo do céu – é apreciar o momento de tal forma que ele se prolonga por muito tempo, como aqueles chicletes bacanas que prometem sabor duradouro.
A efemeridade da vida não atinge esses enamorados. Não os fazem duvidar da felicidade. Pelo menos, não naquele momento. Enamorarse é esquecer por alguns segundos que tudo pode dar errado. É entender que, infelizmente ou não, os momentos realmente valem mais. Afinal, a vida é feita de cada um desses pequenos sabores que, juntos, fazem uma esplêndida sonoridade ao longo do tempo.
Cada fração de segundo passada enamorando-se do outro é como mais um momento somado ao resto da eternidade.
Agora, retorno com a pergunta: como tanto conceito pode caber numa tão singela tradução? Simples: não cabe. Se enamorarse mal cabe num peito, como poderia caber em apenas dez letras?

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Igual a tudo na vida

Todas as nuvens têm o mesmo formato. A mesma cor. A mesma textura - se é que alguém já tocou realmente numa nuvem. Todas elas são simplesmente iguais. Iguaizinhas. Nada as difere, só o nome, a identidade. É como se cada uma delas só fosse outra porque diz ser e não porque aparenta ser.
Mas... se todas elas eram iguais, então isso significava que todas teriam o mesmo destino? Todas elas não poderiam escolher entre uma coisa e outra?
-Que pensamento tolo... - murmurou Helena. Deitada no parque a observar o céu, a menina de grandes olhos sonhadores. Mas não era de todo tão estúpido - muita gente pode realmente acreditar que tudo na vida é igual, como uma constante matemática que faz com que os gráficos tenham sempre as mesmas curvas.
Enquanto o sol ofuscava seu olhos por momento, Helena sentiu todo seu corpo irradiar - refletindo a luz do da brilhante estrela, a morena sabia exatamente o que sentia, sabia exatamente o que queria e sabia que nem todo mundo poderia querer o sentir aquilo. Sabia que não era uma constante e que não queria ser porque a vida não era matemática - talvez fosse física e química, mas, certamente, não poderia ser medida em um gráfico.
Levantando-se lentamente - a grama muito verde sob o sol, muito úmida por causa da chuva daquela manhã - Helena se deu conta de como tudo na vida é diferente simplesmente por ser... Simplesmente por não conseguir ser igual.
Não seria isso algo bom? Ser tão diferente a ponto se não poder nem por um segundo ser igual? Talvez.
Talvez as nuvens pudessem se sentir melhor agora sabendo que, mesmo sendo diferentes, todas elas pertenciam ao mesmo Grande Universo.

domingo, 4 de maio de 2014

A menina e o relógio - parte II

Nem sempre as mesmas histórias têm as mesmas personagens - muitas vezes, histórias semelhantes são contadas por gente diferente, com perspectivas diferentes, mas com temas incrivelmente iguais. Seria isso algo ruim?, ela se perguntava. Seria ruim que o tempo valesse para todos assim como não valia para ninguém?
Quando os segundos parecem minutos e os minutos parecem horas, todo mundo podia ser parecido - todos já se sentiram assim em algum momento de suas vidas... Mas, por quê? Por que o tempo parece algo tão importante pra nós? Porque nunca sabemos o que pode acontecer amanhã, respondeu a garota.
Enquanto observava aquelas luzes resplandescentes e solitárias, a menina de expressivos olhos castanhos se perguntava sobre a imensidão do mundo e a forma etérea como algumas coisas são. A forma como cada coisa parece ter seu lugar nessa vastidão, ao passo que parece não se encaixar em nada que tenha uma forma definida, como se pudesse ser delimitada.
As luzes rodavam por sua cabeça, o mundo tremia sob seus pés, mas seu interior estava completamente pacífico, como se nada mais importasse além do equilíbrio de cada um de nós. 
Naquele instante, ela sentiu toda imensidão do mundo dentro de si - como se as horas, os dias e os anos não importassem mais. Ali ela enfim entendeu o que queria dizer momento: palavras ditas ao vácuo que, mesmo sem que as escutem, fazem tanto sentido quando um grito alto e estrondoso. Compreendeu que momento é você se sentir cheio de si ao mesmo tempo em que sabe que pode se perder em si mesmo sem realmente sair o lugar.
Tudo naquela rua larga parecia fazer sentido agora: as brilhantes luzes dos prédios, as pessoas que conversavam animadas, o luar que mal aparecia sob a poluição: momento era se sentir repleto de felicidade, como naquela bela expressão em inglês "fulfilled". Completo. Preenchido. Momento era ela se sentir preenchida por uma felicidade inexplicável e sem razão de ser, mas que, mesmo assim, era tão sincera que poderia ser latente.
Ao sentar-se na beira da calçada para observar os prédios, ela enfim compreendeu que nem tudo pode ser compreendido, mas que é maravilhoso se sentir fulfilled.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Uma "w fragen" sem resposta

"When there is nothing left to burn, you have to set yourself on fire"

O céu estava claro demais. As nuvens pareciam estar longe - voando para algum lugar onde precisavam menos delas... Onde um céu límpido com certeza era mais bem-vindo. Era como um estado de espírito. Como uma dor incessante que, de tanto doer, ela não sentia mais. Como uma enxaqueca que vai e vem e por isso não se torna mais tão incômoda.
Quanto mais observava aquele belo céu muito azul, mais se afogava em si mesma... Era como deixar de respirar respirando... Como perder o que havia acabado de encontrar - claro que não era o amor de outra pessoa, era o amor próprio.
Sobreviver tendo se perdido de si por ter se esgotado no outro. Seria possível? Seria possível não saber mais quem se era? Quem se foi? Talvez sim, afinal, tudo é possível, não? Não. 
Ouvia seus tênis empurrando o chão, ouvia o cantarolar dos pássaros e o soprar do vento. Sentia suas mãos molhadas quando chovia e sabia que estava em seu quarto quando via as paredes marcadas pela retirada de quadros. Sabia que tudo isso era real... Então, por que tudo parecia tão terrivelmente perdido? Tão terrivelmente sem nenhum sentido? Tão perdido sem si mesmo?
Passou as mãos pelo cabelo num ato de puro desespero interno - seus olhos continuavam serenos, sua rotina permanecia a mesma, ela não havia emagrecido ou engordado... Tudo parecia demasiadamente normal. Demasiadamente satisfatório... Então, por que satisfatório não parecia o suficiente.
O tempo corria como em qualquer outro dia - segundos, minutos, horas - nada rápido demais, nada lento demais. Apenas corria... Então, por que era como se a vida dissesse: "tudo está passando em frente aos seus olhos apáticos"? Como poderia parecer um sinal divino de que toda aquela dor entorpecente seria passageira? Porque sim. Porque por mais "W fragen" que fosse aquela pergunta, por mais que necessitasse de uma resposta ampla e profunda, a única coisa que ela possuía naquele momento era um "sim" ou um "ja" se formos falar em alemão.
Porque nem tudo tem resposta. Assim com nem sempre dá pra deixar de se afogar.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Pacatamente anormal

O que é o amor, afinal? É a gente se sentir feliz, novo e amado de volta? É sermos correspondidos?... Mas o que sentimos para sermos correspondidos? Como podemos pensar que é amor? Amor é necessidade? Carinho e confiança? Ou será que isso é um relacionamento que, nem sempre, pressupõe amor? Será que estabilidade, companheirismo e contentamento não são apenas sentimentos de uma relação duradoura, com uma única pessoa, sem muitas surpresas?

Talvez seja tudo uma grande questão de ponto de vista porque, se pararmos para pensar, o que pode haver de divertido numa coisa estável? Como podemos encontrar brilho em algo que não nos surpreende constantemente? Como podemos viver com alguém que conhecemos plenamente? Por mais cheio de rimas tenha sido esse parágrafo, o que quero dizer é: que graça existe nos relacionamentos maduros?

Não sei se vale a pena ter um relacionamento como esse mais de uma vez na vida. Não sei se vale a pena continuar com algo estável e companheiro só para que seja duradouro. E a emoção? Deixamos onde? Talvez o presente seja mais importante do que o futuro - por mais que nosso coração doa pensando que pode não ter mais do que tem agora... Por mais que o medo corroa nossa alma e o desespero pareça a única saída...

A verdade é que nenhum sofrimento é eterno, assim como nenhuma felicidade é contínua - é simplesmente impossível ser feliz o tempo todo e, se alguém está passando por isso, acho válido procurar ajuda terapêutica - você pode estar na fase do desespero sem saber.... Pode estar procurando pelas coisas erradas ou se contentando com um pouco que não deveria ser contentador.

Quanto mais eu penso nisso, mais concluo que a instabilidade é uma coisa boa. Essa história de ficar feliz e triste várias vezes ao longo do dia sempre decorre de um momento de reflexão, assim, acredito que quem não reflete, não é instável. Quem não reflete, simplesmente não pode ser infeliz. E sabe porquê? Porque é impossível você ser infeliz se não questiona o mundo....

Acho que gosto das pessoas questionadoras. Aquelas que nos desafiam a pensar e a sentir... Que não se contentam com pouco e que, depois de levarem tudo o que você tem, ainda tem a dignidade de voltar e dizer adeus. Porque é assim a vida: nem sempre quem a gente quer eu fique, fica, mas a estabilidade com certeza é uma coisa muito mais aterrorizante que a dor.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Quem me dera ao menos uma vez

  Eles corriam. Corriam desesperadamente sem saber para onde poderiam ir, sem ter para onde correr, de fato. Como poderiam fugir de uma realidade que os perseguiam desde que disseram que eram gente? Como poderia ser gente se eram tratados como bichos? Como alguém poderia tratar bichos daquela forma grotesca? Podendo. Eles tinham a permissão do governo para bater, reintegrar. Tudo em nome da paz, é claro. Paz para quem precisa de paz - aqueles lá que precisam de polícia.
  E quem precisava mesmo? Os donos de supermercados, de enormes cadeias alimentícias. Aqueles que, simplesmente, recebiam o dinheiro dos bichos. Aqueles que viviam num mundo doente e precisavam curar esse mundo - da mesma forma que se cura a homossexualidade: com chutes, pontapés e, nesse caso, balas de borracha e cassetetes. Afinal, bicho a gente tem que bater até virar gente. Até não conseguir levantar do chão. Até decidir que vai trabalhar quietinho, sem reclamar se tem que dormir no chão ou se não tem o que comer.
  Bicho a gente tem que adestrar, sabe? Na porrada mesmo porque de outro jeito eles não entendem... Pelo menos é isso o que o governo prega, não? Prega que quem invade terrenos desocupados é marginal, é invasor. Invasor porque está entrando numa terra que não é dele - mesmo que o dono não esteja usando. Invasor é aquele lá que entrou naquele prédio capenga que era de outra pessoa. É aquele lá que pegou a terra que não tinha nada e montou uma plantação pra sustentar a família. É aquele babaca que fica protestando pela reforma agrária e nem pensa que está atrapalhando o trânsito - trânsito disposto por gente que não tem que brigar por terra, por direito ou por comida. Por gente que não precisa brigar por nada a não ser por uma promoção no trabalho. Gente, gente, gente. Gente que é gente e não é bicho.
  Quanto mais aquele povo tentava entender o que estava acontecendo, mais porrada eles levavam. Porrada por questionar, porrada por pegar alimento de um supermercado sem pagar - porque eles estavam roubando. Sim, eles estavam saqueando na cara dura mesmo... Claro que, dentre a agressividade dos policiais, o pânico dos moradores e a destruição dos barracos o saque no mercado era o mais importante - e justamente por isso foi o primeiro parágrafo de tantas matérias.
  "Tumulto em desocupação" - hum. Tumulto.T-U-M-U-L-T-O. Policias agressivos? Não. Gente chorando desesperadamente porque estava perdendo tudo? Não. Jornalistas sendo presos porque estavam fotografando a ação da polícia? Não. Só um pequeno tumulto. Um humilde tumulto. Apenas uma desocupação turbulenta. Hum.
  Quem precisa de bom jornalismo nesses dias se temos manchetes incríveis, imparciais e completamente abrangentes sobre as ações civis na sociedade? 

sábado, 5 de abril de 2014

Mas quem precisa do chefe da folia?

Aquele foi mais um dia de terror - a cada minuto que se passava as coisas pareciam dar mais e mais errado, como quando você torce, se esforça, tenta pra dar certo e nada funciona. Diferente do céu aberto que todos podiam ver, nuvens cobriam a mente de Pedro* - ele poderia ser morto a qualquer momento e ninguém saberia seu nome porque ele não soube gritar.
Gritar contra a repressão, gritar contra a agressão e o silêncio. Estaríamos nós na ditadura?, pensou. Não mais, respondeu o governo, alegando que isso foi há 50 anos. Que o golpe acabou, que a luta não tinha porquê de ser. Mas como então estaria ele correndo, correndo, correndo para não apanhar dos fardados? Para não apanhar daqueles que deveriam proteger?
Seria essa a sociedade que Durkheim pretendia quando disse que deveria haver ordem social? Quando disse que o ser humano precisava de uma diretriz e proteção para seus dias? Imagino que não. Por mais que não concordasse com suas ideais, Pedro também não acreditava que Durkheim pudesse ser tão "mau" ao pensar na questão da sociedade.
Sentindo o sangue correr por sua face, mais do que um grito, Pedro queria despejar palavras de raiva, palavras que só resultariam em mais socos e pontapés. Palavras que nada significariam quando ele estivesse morto porque ele nada significava, afinal, quem se importava realmente com um cara pobre que pedia auxílio moradia na faculdade? Quem realmente se importava com qualquer pessoa pobre? 
Talvez cada um daqueles estudantes não merecesse estar onde estavam - pelo menos, era o que os uniformizados diziam a eles. Sim, uniformizados porque quem mais seriam? Você pode até pensar em responder: "A sociedade burguesa!", mas acredito que, nesse caso, essa sociedade são eles.
Sociedade sem lei, por mais irônico que isso possa ser. Por mais irônico que seja o destino, Pedro não morreu naquela tarde. Não porque merecia sobreviver - segundo algumas vozes que latejavam em sua cabeça, "cães negros não eram gente, pobres não eram gente" -, não merecia estudar e menos ainda ser tratado como um ser humano.
Afinal, cada uma das ditaduras que se impõe sobre nós são merecidas. Cada soco, pancada e sangue que escorre pelas faces dos jovens que representam a liberdade foi completamente merecida. Afinal, eram eles quem precisavam de uma lição. Precisavam aprender que a vida é dura com quem eles jugam pobres, pouco importantes e sem nenhum valor. Afinal, eram eles que precisavam, não é mesmo? Que precisavam aprender que pra ser humano nessa vida só perdendo completamente sua humanidade.

*Pedro é um nome fictício em um texto que, por mais fictício que seja, retrata a realidade de muitos jovens que que são agredidos em cidades pequenas como Assis. Agredidos por pessoas que deveriam "protegê-los". Agredidos por serem quem são. Pedro poderia ser apenas mais um de nós, estudantes, que lutam pelo direito de estudar e são barrados por gente que diz "que não existe racismo e preconceito no Brasil".


segunda-feira, 24 de março de 2014

Felicidade que não é de comer

Aquela dorzinha incômoda persistia - martelava ali no peito com uma cólera irritante. Talvez a dor passasse em algum momento, ela pensava. Talvez se conseguisse parar de pensar nela. Mas a verdade é que não dependia de Laura fazer a dor passar... Não dependia do que ela queria.
Ao sentar-se na grama e observar o céu pensou em como poderia ser mais fácil se as coisas tivessem permanecido como estavam - naquela época ela era feliz?
Feliz com seus belos olhos azuis a fitar um professor ministrar as aulas com destreza na universidade? Era feliz pensando apenas em trabalhos, projetos e comida? Talvez.
Quem sabe um tipo diferente de felicidade - uma alegria constante, completa e plena. Laura se sentia realizada de uma forma que poucos universitários se sentiam nos primeiros meses de curso - muitos ainda desistiriam, muitos perceberiam que aquilo não era o que queriam para vida toda.
Mas, e pessoalmente? Será que a vida acadêmica era a única que aquela garotinha tão frágil seria capaz de conduzir com sagacidade? Talvez.
Talvez ela simplesmente não fosse capaz de fazer nenhuma outra coisa direito.
Recomeçou a caminhar em direção ao portão - sua mãe precisava de leite para fazer o bolo daquela tarde... Bolo esperado, veja você. Porque chocolate sempre anima quem precisa ser animado - isso é um fato.
As calçadas estavam menos cinzas do que de costume e o sol brilhava intensamente. Aquele era um dia feliz. Um momento inesquecível como todos os pequenos momentos. E Laura se sentiu completa de novo - sentiu que talvez sua vida fosse plenamente satisfatória antes, mas será que satisfatório era o suficiente?
Ficar na zona de conforto não é algo que pessoas inteligentes apreciem e nossa pequena com certeza era uma pessoa inteligente - não genial, mas capaz de saber que chocolate com nozes é muito mais gostoso do que qualquer outro tipo de chocolate.
-Um litro de leite desnatado, por favor. - Pediu ao simpático padeiro. Ele sorriu pra ela e aquele foi mais um pequeno momento a ser apreciado.
Enquanto o homem colocava o leite em um saquinho, Laura se deu conta de que coisas que não são chocolate ou livros podem ser boas também. Coisas como o amor.
Mesmo sem poder ser ingerido, o amor é uma coisa temos que tomar diariamente - como uma droga ou café -, é algo que precisa ser degustado e curtido mesmo nos dias mais nublados.
Caminhando de volta para casa, a menina percebeu que algumas reviravoltas são boas. Alguns tropeços, alguns calos, alguns arranhões. Alguns, alguns, alguns. Algumas coisas merecem ser degustadas com calma, paciência e tranquilidade.
Afinal, como Scarlett disse anteriormente: "por algumas coisas vale a pena esperar".

sexta-feira, 21 de março de 2014

Coisas que nem o vento leva

  Naquele momento o chão não se perdeu como ela pensou que se perderia - aquilo já era esperado, almejado, sentido. Não que fosse algo bom, longe disso, mas era como um curativo: quanto mais rápido tirasse, menos doeria. 
  Não era uma decisão permanente, uma vontade constante ou um desejo pretensioso. Era algo que simplesmente tinha que acontecer em algum momento e seria melhor que acontecesse o mais cedo possível.
  Ela não sentia dor - seu estômago estava plenamente calmo e seus olhos não marejavam naquele instante. Na verdade, Scarlett estava convencida de que aquela seria uma situação passageira, algo que poderia ser diferente no dia seguinte, ou no outro, ou no outro... Algo que iria acabar um dia - nada que é ruim dura para sempre, assim como nada que é bom pode ser eterno sem esforço.
  Ao caminhar pelo vasto jardim de sua casa, a menina de longos cabelos loiros pensava que aquele momento era, de certa forma, decisivo: evitar adiar um período sempre pode torná-lo mais longo. Evitar sentir dor, evitar se deixar levar pela dor, sempre é pior.
  E por que? Simples: quando não nos permitimos sentir a dor, curtir aquela amargura e inintendimento, nós simplesmente prolongamos o inevitável. Sorrindo para sua própria sentença, Scarlett decidiu que era melhor sofrer de uma vez do que sofrer picado. Era melhor simplesmente desistir por um tempo do que continuar tentando de uma forma capenga, ruim e maldita.
  Talvez a dor seja a premissa do amor, ela pensou. Talvez depois de uma grande ausência ou um grande sofrimento, todo amor se torne maior - ou, pelo menos, a maioria deles. Talvez toda dor mereça ser plenamente curtida para que possa ser superada por ambas as partes.
  Sentou-se na grama entorpecida por seus próprios sentimentos e decidiu que iria esperar pelo dia de amanhã mesmo que o amanhã demorasse semanas para chegar. Por que? Porque tem coisas pelas quais vale a pena esperar.
  E "amanhã é um novo dia".
  

quinta-feira, 20 de março de 2014

O muito do pouco

  Enquanto caminhava por entre as pedras só conseguia pensar em como poderia parar de pensar. Talvez essa fosse uma tarefa relativamente simples para algumas pessoas, mas para Heitor esse não era o caso.
  Mais de uma vez parou para pensar em quão bonito estava o céu naquela manhã - era de um azul celeste tão forte que chegava a fazer  seus olhos doerem. O sol brilhava intensamente enquanto ele deitava na grama  e fechava os olhos - não poderia mais olhar para nada que o lembrasse dela.
  Não poderia olhar a luz por lembrar de como os olhos dela resplandeciam quando olhavam pra ele... Não poderia tocar porque ela adorava tocar suas próprias músicas que só faziam sentido pra ela. Talvez fosse esse o problema - talvez o fato de o mundo continuar a girar em questão da ausência dela fosse o motivo de nada fazer sentido.
  Por um segundo abriu os olhos e sentiu o choro preso na garganta. Sentiu uma vontade incontrolável de grita e pedir que toda aquela dor fosse embora - dor que a muito não sentia... Dor com a qual ninguém sabia realmente lidar.
  Levantou-se e recomeçou a andar pelo parque na esperança de que toda a agonia presa dentro de seu ser se esvaísse... de que o dia pudesse terminar ali e toda felicidade pudesse estar de volta. Mas o que é a felicidade? Seria um estado, um momento ou uma lembrança? Muitos não saberiam responder - ouso dizer que ninguém saberia o que é a felicidade de fato.
  Sorrindo, Heitor se lembrou de que sabia. Sabia que a felicidade era olhar naqueles profundos olhos castanhos... Sabia que a cada sorriso, ela iria fazê-lo feliz. Talvez a felicidade não tivesse a ver com tempo ou com onde, mas sim com quem. Talvez cada qual que pode ser feliz sozinho, pode também ser muito mais feliz conjunto.
  Talvez, mais do que um conceito, a felicidade tenha a ver com olhos, mãos e sensações. Talvez simplesmente ouvir possa fazer alguém feliz por uma fração ínfima de segundo.
  -Eu a amo. - Ele sussurrou como se dizer aquilo fosse a prova verídica da verdade. Como se nem todo o pleonasmo do mundo pudesse expressar o que o pleonasmo repetido naquela frase dita em voz alta pudesse dizer. Heitor não precisava falar que a amava. Não havia necessidade quando os atos dizem muito mais do que as palavras - por mais clichê que isso possa parecer.
  Mas ele disse. Ele disse para que o vento pudesse sentir e levar até ela. Disse porque tudo o que dizia respeito a ela o fazia feliz - mesmo as coisas tristes... Essas ele tinha vontade de retirar de dentro dela e pegar para si, pegar para nunca mais devolver.
  Talvez seja assim que é o amor: uma vida de silêncios balançada por um simples sussurro... Sussurro esse que pode quebrar esteriótipos, barreiras, mundos e etc.. Sussurro que vale mais do que mil palavras... Porque o amor é assim: pouca coisa que significa muito.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O fabuloso destino de todos nós

  Era engraçada a forma como os passarinhos cantavam soltos no ar - engraçada a grande coordenação motora que  eles, diferentemente de mim, tinham ao bater suas asas e entoar belas canções. Talvez seja simplesmente essa a grande graça da história: eles podiam ser passarinhos, mas e eu? O que, de fato, eu poderia ser? Teria um destino fantástico e inimaginável ou seria uma menina comum com trejeitos comuns pelo resto da vida?
  Minha grande descoberta naquele momento de paz foi que ninguém poderia ser simplesmente comum... Ninguém seria tão ruim ou passageiro a ponto de não tocar outra pessoa em sua passagem - sim, eu sei que as palavra se repetiram, mas o objetivo dessa frase é enfatizar o fato de que a vida acaba. Just that - a vida não dura para sempre e só pode ser mensurada através das pessoas que tocamos enquanto estamos caminhando pela terra (leia-se: quando não somos zumbis, é claro).
  Cada um de nós gosta de uma  coisa em particular - não me refiro apenas ao nosso tipo favorito de chocolate ou a roupa que realça a cor de nossos olhos - cada um tem aquele momento, aquele pequeno detalhe que faz uma diferença incrível entre a sua vida e do outro. Vou contar o meu detalhe e espero que reflitam sobre o de vocês.
  "As luzes em movimento mais pareciam vagalumes naquela imensidão escura - prostravam-se sentinelas ao passo que se deslocavam na mesma direção, no mesmo sentido e na mesma velocidade que eu. Aquelas luzes eram minhas sentinelas vetoriais. Sentinelas que iluminavam toda a fantástica escuridão da noite... Elas representavam paz... Ela diziam que mesmo nas trevas há luz" - sem mais delongas, esclareço que estou me referindo às luzes dos prédios quando passamos de carro por uma rua à noite. Esses momentos são, sem dúvida, os meus favoritos.
  Pode até parecer tolo para algumas pessoas, mas para mim esse é um detalhe muito importante no mundo - sem ele talvez minha gastrite nervosa piorasse a cada segundo antes de entregar uma pauta. Sem esse pequeno detalhe (pleonasmo?), talvez eu nunca conseguisse ficar plenamente calma.
  Acredito, assim, que todos nós - da mesma forma que Amélie - podemos ver o mundo por nossa própria perspectiva, indagando verdades que por muitos são consideradas incontestáveis. Podemos observar e viver da nossa própria maneira, com nossas próprias escolhas - sejam elas boas ou ruins. 
  A singela verdade é que nossa vida pertence somente a nós - por mais louca que essa afirmação possa parecer.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O Grande Irmão e nossos pais

É muito provável que o Grande Irmão se sentiria à vontade entre a geração de nossos pais e avós assim como é muito provável que eles se sentiriam confortáveis com muitas das ideias propagadas (ou implantadas através de lavagem cerebral) pelo Grande Irmão.
Ao observar essa afirmação por uma perspectiva pouco analítica muitos dirão que eu estou sendo completamente injusta, mas, quando tal observação é vista de maneira mais crítica e aprofundada, é possível que compreendam meu ponto de vista com mais facilidade e menos “bronca”.
Quando nos deparamos com as ideias plenamente conservadoras ditas e repetidas pelas gerações mais experientes do que a nossa, nosso primeiro instinto é acatá-las. Sim, quando nós somos mais jovens, nós simplesmente acatamos o que nossos pais e avós disseram sem muito refletir porque, na nossa pequena cabeça, eles geralmente estão certos. Depois, quando nos tornamos adolescentes nosso instinto principal é refutá-las – não porque nós refletimos a respeito e discordamos, mas porque é nosso dever como adolescentes pensar que nossos pais dizem e fazem tudo errado. Por fim, nós nos tornamos universitários e é ai que o bicho pega – literalmente.
A universidade é um lugar novo, cheio de pessoas que querem (ou não) aprender coisas novas e que estão abertas para novas experiências e conhecimentos (não necessariamente bons). O fator principal aqui é que a característica que marca muitos de nossos jovens adultos é a revolução. Sim, porque nós começamos a nos questionar sobre tudo – sobre o que aprendemos durante o ensino médio, sobre as coisas absolutamente importantes que não aprendemos e, principalmente, nós começamos a nos questionar sobre o mundo – mais especificamente sobre nosso “mundinho”, nosso país.
É nesse momento que nossas ideias se embaralham mais e mais e nós começamos a compactuar com “ideias esquerdistas”, revolucionárias, iluministas. É precisamente nesse instante que nós começamos a nos perguntar por que nosso país é como é, se não podemos fazer nada para mudá-lo e como nossos pais nunca se deram conta da bagunça que está acontecendo frente aos olhos de todo mundo.
Ai que entra o conservadorismo, a revolução, nossos pais e o Grande Irmão. É ai que nós começamos a entender como essas coisas que parecem completamente sem nexo juntas, são simplesmente essenciais umas as outras.
Nossos pais nem sempre foram os conservadores que vemos hoje – talvez alguns poucos o fossem e, é bem provável, que foram completamente contestados durante a faculdade. Esses adultos antigos, completamente obtusos e que sempre dizem “o Brasil não vai pra frente” já foram os jovens revolucionários que nós somos hoje. Esses caras simplesmente pintaram os rostos e foram às ruas gritar por melhorias, por mudanças. Foram eles que tiraram um “presidente ladrão” do poder apenas com sua revolta.
Daí você se pergunta: mas se eles eram assim, então por que não continuaram? Por que não continuaram lutando por mudanças? Agora que já falamos sobre revolução e pais, está na hora de encaixarmos nessa história o conservadorismo e o Grande Irmão. É aqui que está o “x” da questão: eles cansaram. Exatamente: nossos pais não tinham mais tempo para revolucionar, conseguir um bom emprego, brigar com o chefe porque não concordavam com sua forma de liderar e, ao mesmo tempo, constituir uma família. Nossos pais não tinham mais inspiração para questionar o que já questionaram um dia. Você acha que pode culpá-los? Eles provavelmente passaram quatro ou cinco anos de suas vidas brigando para que as coisas mudassem, passaram tanto tempo gritando e se revoltando quanto era possível... Mas chegou um momento em que eles tiveram que “crescer” e foi ai que eles se tornaram conservadores. Foi a partir desse momento que eles proibiram você de ir aos “protestos que mexeram com o Brasil”, impediram você de chegar depois das 23h durante a semana... Foi nesse momento que eles começaram a pedir para que você não tivesse ideias perigosas, revolucionárias ou questionadoras. Foi aqui que eles pediram pra você pensar menos e se conformar com as coisas que não podem mudar (tudo). Foi exatamente aqui que eles decidiram zelar pela sua segurança, nem que para tal eles tivessem que brigar com você, tivessem que ouvir que são velhos e que não sabem lutar... Foi aqui que eles aceitaram que você os chamasse de covardes conformados – foi aqui que eles negaram a você o que eles já foram um dia.

Entendeu onde o Grande Irmão entra nessa história toda? Sinto muito informar, mas esse ponto específico eu vou deixar subentendido. Espero que você não condene mais seus pais por seus pensamentos conservadores, assim como espero que continue lutando mesmo que nada mude nunca.