Aquela dorzinha incômoda persistia - martelava ali no peito com uma cólera irritante. Talvez a dor passasse em algum momento, ela pensava. Talvez se conseguisse parar de pensar nela. Mas a verdade é que não dependia de Laura fazer a dor passar... Não dependia do que ela queria.
Ao sentar-se na grama e observar o céu pensou em como poderia ser mais fácil se as coisas tivessem permanecido como estavam - naquela época ela era feliz?
Feliz com seus belos olhos azuis a fitar um professor ministrar as aulas com destreza na universidade? Era feliz pensando apenas em trabalhos, projetos e comida? Talvez.
Quem sabe um tipo diferente de felicidade - uma alegria constante, completa e plena. Laura se sentia realizada de uma forma que poucos universitários se sentiam nos primeiros meses de curso - muitos ainda desistiriam, muitos perceberiam que aquilo não era o que queriam para vida toda.
Mas, e pessoalmente? Será que a vida acadêmica era a única que aquela garotinha tão frágil seria capaz de conduzir com sagacidade? Talvez.
Talvez ela simplesmente não fosse capaz de fazer nenhuma outra coisa direito.
Recomeçou a caminhar em direção ao portão - sua mãe precisava de leite para fazer o bolo daquela tarde... Bolo esperado, veja você. Porque chocolate sempre anima quem precisa ser animado - isso é um fato.
As calçadas estavam menos cinzas do que de costume e o sol brilhava intensamente. Aquele era um dia feliz. Um momento inesquecível como todos os pequenos momentos. E Laura se sentiu completa de novo - sentiu que talvez sua vida fosse plenamente satisfatória antes, mas será que satisfatório era o suficiente?
Ficar na zona de conforto não é algo que pessoas inteligentes apreciem e nossa pequena com certeza era uma pessoa inteligente - não genial, mas capaz de saber que chocolate com nozes é muito mais gostoso do que qualquer outro tipo de chocolate.
-Um litro de leite desnatado, por favor. - Pediu ao simpático padeiro. Ele sorriu pra ela e aquele foi mais um pequeno momento a ser apreciado.
Enquanto o homem colocava o leite em um saquinho, Laura se deu conta de que coisas que não são chocolate ou livros podem ser boas também. Coisas como o amor.
Mesmo sem poder ser ingerido, o amor é uma coisa temos que tomar diariamente - como uma droga ou café -, é algo que precisa ser degustado e curtido mesmo nos dias mais nublados.
Caminhando de volta para casa, a menina percebeu que algumas reviravoltas são boas. Alguns tropeços, alguns calos, alguns arranhões. Alguns, alguns, alguns. Algumas coisas merecem ser degustadas com calma, paciência e tranquilidade.
Afinal, como Scarlett disse anteriormente: "por algumas coisas vale a pena esperar".
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