sexta-feira, 5 de julho de 2013

Nos perderemos entre monstros

Ele tentava falar, mas parecia que ninguém o escutava - sua voz era nada e seus gritos não saiam realmente de sua boca. Estaria enlouquecendo? Talvez não. Talvez fosse apenas a voz da sociedade que falava mais alto, apesar de a voz dele dizer algumas verdades. Não queriam ouvi-lo nem por um segundo - queriam apenas ser ouvidos. Será que isso está certo?, ele se perguntava. 
A verdade é que nada mais fazia sentindo naquela multidão de vozes que ecoavam. Eles pediam por tudo e, ao mesmo tempo, por nada. Suas mentes eram tão vazias quanto se diziam cheias. Provavelmente eles nunca viram aquela estátua de Buda que tem a boca menor do que as orelhas - se tivessem visto, entenderiam que falar não é o que vale mais. 
Essa era a primeira vez que eles gritavam de verdade, mas será que alguém os estava escutando? Será que as suas reivindicações seriam atendidas? Não. Eles mesmos respondiam: não. Como poderiam eles saber? Porque sabiam. Sabiam que o homem não se preocupa com algo além do seu próprio umbigo. Amor maternal? Que nada - a velha só estava cuidando de mim para que eu não a colocasse num asilo no fim de sua vida. Amizade eterna? Fala sério - até Cássia Eller disse que "o pra sempre, sempre acaba". 
Não estariam eles sendo precipitados? Afinal, julgar quem o julga não o torna igual aquele que o julgou primeiro? Claro que não!, gritou um outro no meio de sua autonegação. Eles, telespectadores, eleitores, cidadãos, tinham sim o direito de julgar aqueles no poder, seus representantes democraticamente eleitos. Entretanto, será que algum deles foi até a prefeitura cobrar o que o prefeito prometeu se se elegesse? "Dou um Kit Kat para quem levantar a mão", pensou com seus botões - claro que aquele Kit Kat ele mesmo comeria.
A sala em que estavam era bem iluminada e as senhoras sentadas a sua frente eram mulheres distintas e, provavelmente, casadas, com filhos e netos. Elas pareciam furiosas por ter que estar ali ouvindo tantas "baboseiras". Mas será que elas estavam ouvindo mesmo? Será que não estava muito preocupadas em como "aquilo tudo era uma grande mentira" que não estavam realmente ouvindo? "A verdade é que a política é algo manipulável porque é feita por seres humanos que são manipuláveis", ele ressaltou, rindo consigo mesmo.
- Do que é que o senhor está rindo, senhor prefeito? - Indagou a mulher de cabelos loiros e olhos incisivos.
- De nós, senhora. Ele está rindo de nós porque fomos estúpidos o suficiente para ouvir suas promessas de início de ano. - O senhor ao seu lado respondeu, fazendo de suas, minhas palavras.
"Eu poderia retrucar. Poderia perder a compostura e dizer algumas verdades para aquela senhora que, com certeza, não votou em mim. Eu poderia dizer que tenho uma esposa, um filho e um cachorro e pago minhas contas assim como ela. Mas estaria eu dizendo a verdade? Eu não tenho que cuidar da casa o dia inteiro e certamente ganho mais do que um salário mínimo. Acho que não tenho o direito de revidar. Entretanto, ela tem o direito de me culpar por todos os crimes do mundo? Ela tem o direito de não me ouvir porque acha que eu sou um ladrão assim como muitos outros?
Eu sou um ladrão? Claro que não! Todos são inocentes até que se prove o contrário... Certo?"