Ao som de "Assinado eu" - Tiê
Poderia dizer que caminhou em círculos, mas não era redonda - talvez só aos olhos de alguns distorcidos. Nessa visão, talvez fosse a própria distorção. Aos seus, era só sua. Seguiu, reta, direta, linha. Passo ante passo - ou seria anti? Não sei. Se anti fosse, oposto seria? Não sei. Não sabia. Seguia. A passos frente a frente - não opostos, mas complementares. Complementava-se a si mesma. Sem jogos ou rodeios. Apesar do espaço de sobra, sabia que era tudo seu - teu. Dela. Transbordava-se. Apesar de estar perdida em si, sabia exatamente onde estava e onde não queria estar. O ressoar das dúvidas não era nada se comparado com o gritar das certeza - era dela. Sabia disso. Embora ele não o fosse. Não importava mais.
O céu tranquilamente brilhava acima de sua cabeça. Era estranho perceber o quanto achara de si em tão pouco tempo conhecendo seus traços. Os lábios, finos demais. O nariz, rechonchudo. O sorriso. Esse o mais bonito do mundo. Perdida nas palavras que nem sempre conseguia falar, afogava-se nos sentimentos que nem sempre transbordavam para fora - às vezes, sufocavam. Tampavam as narinas e, ah, faziam-na esquecer do mundo. Da ansiedade. Do paladar.
Amar a si mesma é a tarefa mais difícil com que se deparou em todos estes anos de vida. Olhar no espelho e ver alguém feliz, completa e sua. Amar o riso frouxo, o choro preso e o sentimento mal condido. Sem querer, ia sumindo por ai. Doando-se nos outros. Perdendo-se nas esquinas. É fácil esquecer da gente quando não sabemos mais quem somos. Nos perdemos dentro de nós - nas dobrinhas da barriga, na covinha da risada. Nas frases que deixamos de falar. Nos amores que deixamos de amar.
Às vezes, a plenitude do encontrar está no deixar ir. Esquecer. Desamar. Para, então, amar de novo. De dentro da gente. Do fundo do peito. Saindo, enfim, de dentro daquela escuridão que é ficar perdido onde a gente desconhece.