Desde que nasci, eu sou alguém. Sempre fui destinada a ser alguém. Talvez, para quem não me conhece (ou não me conhece bem) eu possa parecer ser ninguém - mas isso é uma inverdade. A real verdade, tal qual sempre se prostrou a minha frente, é que eu sempre estive predestinada a ser eu. Assim, do jeitinho que eu sou. Com todas as lágrimas presas na garganta, os tropeços em pisos de cerâmica e as gargalhadas mal contidas. Sempre estive destina a ser essa pessoa extremamente racional que não tem a menor lógica. Pode parecer clichê, mas sinceramente sinto que é verdade - e a verdade dói, tanto que a gente demorar para enxergá-la, não é mesmo?
Pois bem. Depois de anos tentando entender que eu realmente era (sou?) não cheguei a nenhuma conclusão. Talvez eu não seja nada que já tenha existido, certo? Ou talvez eu nem exista. Não sei. Não entrarei nestes méritos que, até pra mim, são confusos demais. Vamos nos ater a uma questão simples e básica da existência humana: quem eu sou?
É uma pergunta forte demais, não é mesmo? Pois tenho certeza que todos vocês se perguntam isso todos os dias. Não, este não é um texto de autoajuda. Também não é uma crônica ou um bom texto. De fato, não é nada. Como eu - ninguém destinada a ser alguém. Talvez. Não sei ao certo. O que eu bem sei é que, em todos esses muitos 22 anos de vida, eu sempre achei que sabia quem eu era: uma moça, insegura, que escreve extremamente bem, nasceu para ser jornalista (literalmente, não acho que tenha outro motivo pra eu ter vindo pra este mundão ingrato) e, mais importante de tudo isso, sempre sabe o que quer da vida.
Vocês já se depararam com momentos na vida em que parece que a gente não é a gente? Eu chamo isso de síndrome de Jean Valjean, sabem? Do Victor Hugo? Os Miseráveis? Pois bem. É bem no início do livro, quando ele é liberto depois de ficar preso por um milhão de anos (talvez menos, mas pra mim pareceram um milhão) por ter roubado um pedaço de pão. Jean não sabe mais quem é. Ele foi, durante anos, apenas chamado por "prisioneiro 24601". Ele era um número. Uma coisa. Uma propriedade do governo francês. Jean não se pertencia mais. Jean não sabia quem era. Jean acreditava ser 24601. Acho que todos nós passamos por isso, por essas tremendas crises de identidade que nos levam a desistir de faculdades, pedir as contas em uma empresa ou nem mesmo sair da cama por alguns dias.
É exatamente a síndrome de Jean Valjean que nos prende em nós mesmos e faz com que esqueçamos quem somos - mas não é por isso que deixamos de ser.
Para almas atormentadas como a minha, que não conseguem dormir direito e nem parar de pensar nas possibilidades, pensar em que se é é muito complexo. Exige uma parada que a gente não tem: bom senso.
Por isso, considero uma vitória (saca só o trocadilho), quando a gente encontra um pequeno sentido no nosso ano, no nosso dia, na nossa existência - só ser alguém nunca foi o bastante.
Enrolei, enrolei e enrolei para dizer que: nem todas as experiências ruins são realmente ruins. Às vezes, como na física, a gente só está olhando pelo ângulo errado. E não digo isso como uma pessoa otimista que está tentando ver o lado bom - não se engane, não sou otimista. Digo isso como uma mulher insegura, com o coração partido e mil possibilidades e medos bem na minha frente. Digo isso como 24601 que acabou de lembrar que é Jean Valjean e não um prisioneiro qualquer em uma prisão qualquer. Digo isso, honestamente, como uma mulher com algumas metas (extremamente cumpríveis, segundo meus cálculos) e muitos medos.
A única lição de que tiro de 2016 é: até quando a gente erra (e persiste no erro mais oito vezes), a gente pode acertar.