domingo, 25 de dezembro de 2016

Who am I? WHO AM I? 24601

Desde que nasci, eu sou alguém. Sempre fui destinada a ser alguém. Talvez, para quem não me conhece (ou não me conhece bem) eu possa parecer ser ninguém - mas isso é uma inverdade. A real verdade, tal qual sempre se prostrou a minha frente, é que eu sempre estive predestinada a ser eu. Assim, do jeitinho que eu sou. Com todas as lágrimas presas na garganta, os tropeços em pisos de cerâmica e as gargalhadas mal contidas. Sempre estive destina a ser essa pessoa extremamente racional que não tem a menor lógica. Pode parecer clichê, mas sinceramente sinto que é verdade - e a verdade dói, tanto que a gente demorar para enxergá-la, não é mesmo?
Pois bem. Depois de anos tentando entender que eu realmente era (sou?) não cheguei a nenhuma conclusão. Talvez eu não seja nada que já tenha existido, certo? Ou talvez eu nem exista. Não sei. Não entrarei nestes méritos que, até pra mim, são confusos demais. Vamos nos ater a uma questão simples e básica da existência humana: quem eu sou? 
É uma pergunta forte demais, não é mesmo? Pois tenho certeza que todos vocês se perguntam isso todos os dias. Não, este não é um texto de autoajuda. Também não é uma crônica ou um bom texto. De fato, não é nada. Como eu - ninguém destinada a ser alguém. Talvez. Não sei ao certo. O que eu bem sei é que, em todos esses muitos 22 anos de vida, eu sempre achei que sabia quem eu era: uma moça, insegura, que escreve extremamente bem, nasceu para ser jornalista (literalmente, não acho que tenha outro motivo pra eu ter vindo pra este mundão ingrato) e, mais importante de tudo isso, sempre sabe o que quer da vida.
Vocês já se depararam com momentos na vida em que parece que a gente não é a gente? Eu chamo isso de síndrome de Jean Valjean, sabem? Do Victor Hugo? Os Miseráveis? Pois bem. É bem no início do livro, quando ele é liberto depois de ficar preso por um milhão de anos (talvez menos, mas pra mim pareceram um milhão) por ter roubado um pedaço de pão. Jean não sabe mais quem é. Ele foi, durante anos, apenas chamado por "prisioneiro 24601". Ele era um número. Uma coisa. Uma propriedade do governo francês. Jean não se pertencia mais. Jean não sabia quem era. Jean acreditava ser 24601. Acho que todos nós passamos por isso, por essas tremendas crises de identidade que nos levam a desistir de faculdades, pedir as contas em uma empresa ou nem mesmo sair da cama por alguns dias.
É exatamente a síndrome de Jean Valjean que nos prende em nós mesmos e faz com que esqueçamos quem somos - mas não é por isso que deixamos de ser.
Para almas atormentadas como a minha, que não conseguem dormir direito e nem parar de pensar nas possibilidades, pensar em que se é é muito complexo. Exige uma parada que a gente não tem: bom senso.
Por isso, considero uma vitória (saca só o trocadilho), quando a gente encontra um pequeno sentido no nosso ano, no nosso dia, na nossa existência - só ser alguém nunca foi o bastante.
Enrolei, enrolei e enrolei para dizer que: nem todas as experiências ruins são realmente ruins. Às vezes, como na física, a gente só está olhando pelo ângulo errado. E não digo isso como uma pessoa otimista que está tentando ver o lado bom - não se engane, não sou otimista. Digo isso como uma mulher insegura, com o coração partido e mil possibilidades e medos bem na minha frente. Digo isso como 24601 que acabou de lembrar que é Jean Valjean e não um prisioneiro qualquer em uma prisão qualquer. Digo isso, honestamente, como uma mulher com algumas metas (extremamente cumpríveis, segundo meus cálculos) e muitos medos.
A única lição de que tiro de 2016 é: até quando a gente erra (e persiste no erro mais oito vezes), a gente pode acertar. 

sábado, 17 de dezembro de 2016

Para minha eterna (e indesejada) companheira

Eu tenho tanta coisa para te dizer, querida, que nem sei por onde começar. São tantos anos juntas, tantos anos, que mal consigo lembrar de como nos conhecemos. Acho que sempre estivemos juntas, mas que nossa relação começou mesmo a ficar séria no ensino médio. Eu tinha saído de uma escola industrial e, de certa forma, "do povão" pra um ensino particular caro que não tinha nada a ver com minha vida até então. Sai de uma avaliação média/baixa para uma escola de alto padrão em que eu não me encaixava - bolsista, né, quem quer se envolver de fato? E foi ai que você me encontrou. Você me disse que eu tinha que focar nos estudos, que precisava tirar boas notas, que tinha que manter a bolsa. Naquele primeiro ano você tirou meu fôlego por completo - tinha dias que eu nem lembrava mais como se respirava. Cheguei a desmaiar por você.
Anos mais tarde, você começou a me deixar deprimida - depois de um relacionamento abusivo, muito menor do que o que nós temos, você foi a única coisa que me restou, mas, mesmo assim, queria que ficássemos deitadas, juntas, na cama, o dia todo. Você sempre me quis só pra si mesma.
Posteriormente, já na faculdade, sua possessão se agravou. Você se tornou cada vez mais ciumenta e, alguns dias, simplesmente não me deixou sair de casa. Alguns dias, me fez ficar chorando sozinha ao seu lado. Isso quando não brigava comigo em lugares públicos e me fazia ficar paralisada, sem saber para onde ir. Desde então, nossa relação só se tornou mais e mais controladora - por você, é claro.
Hoje consigo entender todo o mal que você me faz - às vezes, consigo fazer com que você trabalhe a meu favor e me ajude a executar minhas tarefas mais rápido. Às vezes, não. Às vezes, você só tira meu ar completamente e me diz como é difícil me amar.
Às vezes, você some por meses e vai aparecendo devagarzinho ao longo de uma semana - até que me dá um susto e me prende novamente na cama. Você é ruim pra mim, mas sinto que nunca vai realmente me deixar. Você é a única com quem posso contar pra sempre, não é mesmo? É isso o que você sempre me diz. Que ninguém pode me amar como você ama. Que não sou digna de amor. Você sempre me diz que faço tudo errado e que você é a única que aprecia meus talentos. Você sempre me diz o quanto sou patética. E eu acredito em você. 
Você me prende nesse círculo vicioso, você me tortura, você me bate. E, então, quanto estou tão paralisada que mal consigo me mover, você me faz apagar de sono. No dia seguinte, sem mais nem menos, você vai embora, sempre deixando um grande rastro de destruição pela casa. Rastro este que passo semanas tentando consertar - com relacionamentos superficiais, egos inflados e cigarro. Sempre esperando que você não volte mais - mas você sempre volta, não é mesmo? 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Os homens que não amam as mulheres

Refleti muito antes de escrever este texto. Não apenas sobre minhas próprias experiências pessoais com homens como sobre as experiências de minhas amigas com esse gênero tão controverso. A partir disso, junto com algumas (várias) leituras, cheguei à algumas conclusões que outras mulheres antes de mim chegaram e a principal delas é: os homens não amam as mulheres.

Antes que comecem a me chamar de misógina, que não faz sexo e odeia os homens, deixem-me explicar minha análise, que foi cuidadosamente pensada. Então, depois de refletirem (vejam bem, reflitam antes), vamos debater.

Muitas e muitos aqui vão dizer que estou generalizando quando digo que os homens não amam as mulheres, apontamento do qual não posso me esquivar. Sim, eu estou generalizando. Por isso, volto a dizer o que falo todas as vezes que escrevo textos polêmicos: se você (TEM CERTEZA) não se encaixa nisso, fique quietinho e faça valer essa diferença na sua vida. Coloque em prática com as mulheres com que você se relaciona.

O primeiro ponto que eu gostaria de destacar é: os homens tem uma falsa imagem do que é a mulher, criada, obviamente, pelo patriarcado e pelo machismo. Os homens vêem a mulher como um objeto sexual. Como um objeto de limpeza. Como um objeto de auxílio. Mas sempre como um objeto. Os homens desconsideram o fato de que mulher também é um ser humano e, portanto, tem sentimentos, dores e fraquezas.

Para os homens, somos um filme pornô. Bonecas que querem cada vez mais fundo e mais forte e que gritam e gritam e gritam. Bonecas que soltam jatos quando são penetradas. Para os homens, é impossível sentir prazer sem penetração - não no caso deles, é claro. Homens adoram um boquete, não é mesmo?

Homens dizem que mulheres são sentimentais demais. O que, biologicamente, não é verdade. A verdade é que nós somos criadas para sermos assim: somos moldadas em uma sociedade que fala que mulheres nasceram "sentimentais" e com "instinto materno" e com "instinto de limpeza" e, por isso, os cuidados da casa e dos filhos ficam com a mulher - que é considerada apenas uma AUXILIAR no trabalho remunerado, enquanto os homens ignoram todo serviço doméstico não remunerado relegado às mulheres - é claro, porque só as mulheres comem, vivem naquela casa e fizeram os filhos, sozinhas, obviamente.

Os homens desconsideram o feminino enquanto ser humano e é justamente ai que mora todo o problema dos relacionamentos. Muitas e muitos de nós questionam a frivolidade e a distância com que temos lidado com relacionamentos - muitos, inclusive eu, acham um absurdo essa história estúpida de "não se apegar". Como se fôssemos robôs que decidem sobre suas emoções e sentimentos.

De qualquer forma, embora as relações humanas sejam empenhadas por pelo menos duas pessoas, é inegável que uma relação heterossexual seja abusiva - em maior ou menos grau. Os homens se sentem tão superiores por terem um falo e pelo mundo girar em torno do seu próprio falo que desconsideram o que é ser mulher. Desconsideram nossos sentimentos - sentimentos criados a partir de uma relação entre duas ou mais pessoas. Não tem a ver apenas com amor, mas com sentimentos de uma forma geral. Homens desconsideram suas responsabilidades com o outro e jogam a culpa de qualquer envolvimento sobre a mulher - isso desde que os tempos são os tempos.

Não estou dizendo que é impossível se relacionar com homens - obviamente, mulheres heterossexuais não têm escolha quanto a isso. Também não estou dizendo que não existem homens exceção - só que nem eu nem minhas amigas encontramos um ainda. O que estou querendo com este texto é dizer, não apenas para minhas companheiras, mas para os homens que ousaram ler esta película até o fim, que os homens precisam mudar. Os homens precisam ser humanos, precisam ser menos egoístas e precisam se desconstruir diariamente. Nós, mulheres, estamos cansadas. Cansadas de tentativas frustradas, permeadas pelo machismo, pela babaquice e pelo patriarcado.

Embora, em algumas situações, tenhamos interesse pelo falo, é sempre bom lembrar que o mundo evoluiu: e hoje em dia existem vibradores.

Até a próxima.