sexta-feira, 24 de março de 2017

Parecia amor, mas era cilada, Bino

Nossa história começou ainda na infância - foi uma relação tão precoce, com uma conexão tão imediata e intensa que eu mal posso descrever. Naquele primeiro momento, obviamente, não posso dizer que nos apaixonamos, na verdade, nos tornamos boas amigas. Ela virou uma das minhas vantagens na vida - me ajudava a fazer minhas atividades mais rápido, me dava uma ótima vantagem sobre os outros porque eu sempre era mais eficiente e mais rápida.
Com o passar dos anos, ela foi ficando cada vez mais possessiva e nossa amizade foi ficando mais ameaçada, apesar de nós continuarmos sempre juntas em todos os nossos afazeres. Nós éramos como unha e carne, sabe? Só que ela, enquanto carne, começa a passar por cima de mim, unha. Nossa relação foi ficando cada vez mais difícil porque a felicidade que ela me proporcionava se tornou medo - algumas vezes, quando nós saíamos para passear por lugares que sempre costumávamos ir, eu esquecia onde estava. Eu sentia o choro preso na minha garganta e o desespero latente no meu peito.
Meus pais passaram a não gostar dela - eles não gostavam que nós saíssemos e menos ainda que ela viesse aqui para casa. Quando eu tive um surto de desmaios constantes por causa de nervosismo, eles a proibiram de vez de me ver - mas isso não nos deteve.
Mesmo com tudo e todos contra nós, seguimos nessa amizade que já não parecia mais tão vantajosa para mim, mas que era extremamente importante para ela. Quando entrei na faculdade, ela veio junto - não se conteve em me deixar ir embora, para outra cidade. Cada vez mais, nossa relação era de posse: eu pertencia a ela e não o contrário. Nossa relação passou de psicologicamente agressiva para ameaçadoramente real - agora os danos eram físicos ao em vez de só emocionais. Ela acabava comigo. Enquanto em alguns momentos ela me dava muita felicidade e muita vontade de viver, em outros ela simplesmente me arranhava, tirava meu ânimo e me deixava jogada em um canto.
Há uns anos, eu entendi que nosso relacionamento era completamente abusivo - entendi que ela não queria meu bem, que ela não queria ficar comigo porque éramos amigas e nos amávamos. Há alguns anos, entendi que era cilada. Bino.
Por muita pressão de meus pais, comecei a tratá-la como ela merecia, mas, às vezes, ela ainda vem me atormentar. Às vezes, ela ainda vem machucar o meu corpo e minha mente, me bagunçando desde a porta de entrada. Às vezes, ela não me deixa sair de casa - infelizmente, não posso denunciá-la por cárcere privado, infelizmente, ninguém acreditaria em mim.

Dedico este texto à todas as pessoas que, como eu, vivem um relacionamento abusivo consigo mesmas, com distúrbios de ansiedade, depressão, bipolaridade. Dedico este textos à pessoas que, como eu, muitas vezes não sabem como lidar com a dor que é ser o que se é, mas que continuam lutando, diariamente, contra suas auto-opressões.