quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Despedidas delicadas

Sabe, eu tenho tanta coisa pra te dizer. Tanta coisa presa aqui na garganta, entende? Que fica até difícil de respirar. Às vezes, eu concluo que não é o cigarro que faz doer minhas cordas vocais e sim tudo isso que não consigo te dizer. Há semanas não escrevo - claro, a culpa não é sua. É de quem veio antes e quebrou tudo o que eu tinha construído. Destruiu a esperança, comeu a fé e, sinceramente? Levou todo o amor. Anos tentando construir minha própria fortaleza e, de repente, num piscar de olhos, tudo voa com a ventania. Vai embora assim, sabe? Sem a gente ter tempo de perguntar o porquê.
Quando você apareceu, não te restou nada. Eu não esperava nada. Não queria nada. Achei que seria só mais qualquer. Mas você quis ser mais, não quis? Quis tomar aquele assento que você sabia estar vazio. Pena que não sentou direito - sentou assim, pela metade, quase caindo do banco sabe? Só que, no fim das contas, quem caiu fui eu que nem sentada estava. Levei aquele tombo que todo mundo da risada de você na escola, mas minhas amigas não acharam tão engraçado - seguraram minha mão, me ajudando a levantar, mas queriam mesmo era chorar. Lágrimas de raiva, ressentimento, por um penhasco que a gente nem sabia que existia dentro de você.
Mas tudo bem, acontece. Claro que era melhor a gente saber quando há um rombo no chão firme que a gente pisa, mas nada irremediável se cairmos lá dentro - a não ser que a quebremos o pescoço, dai não tem jeito mesmo, desculpe. De qualquer forma, foi bom. Foi bom o que a gente teve - aquelas semanas intermináveis, você me chamando de linda e me fazendo cafuné. Foi bacana. Pra ficar na memória - os momentos, não você. Definitivamente, não você. Não me leve a mal, não é nada pessoal, sabe? Só que eu tô cansada de ficar lembrando de gente que, apesar de ter sido importante, não foi a lugar nenhum comigo.
É isso. É isso o que eu quero - um lugar. Um fim. Uma parada. Correr em círculos é bacana quando a gente é criança, mas quando crescemos, ah, dai a coisa começa a complicar. Queremos brincar de coisas mais inteligentes como montar casinhas com peças de Lego, ter um telescópio da Barbie e jogar na internet. Coisas mais complexas que, de fato, fazem parte do momento em que a gente vive. Não me leve a mal, você é ótimo. Só que não pra mim. 
Talvez se você transbordasse mais. Se fosse mais completo. Se soubesse o que quer. Talvez se você fosse aquele "q" que eu estou procurando - na verdade, você é, só que perde muito tempo sem saber conhecer de verdade a si mesmo e esse belo "q" se perde em tanta confusão. Talvez se você preenchesse todas as lacunas que eu deixei abertas pra alguém entrar - aquele cafuné de madrugada que a gente não pode fazer sozinha ou aquele abraço quentinho num momento de desespero. Desculpe dizer isso, mas preciso de mais do que uma ou outra transa casual e uma cerveja gelada. 
Preciso de calor humano. Sentimento. Envolvimento emocional e físico. Sinceramente, não sei como as pessoas se excitam sem envolvimento - me explica como é? Não vou fazer igual, mas vou entender pelo menos. Sei que a pergunta parece ofensiva, mas eu realmente gostaria de saber - sou jornalista, não sei "não saber as coisas".
Talvez se você fosse aquele "a mais" que eu estou procurando. Sim, procurando. Apesar de amar estar sozinha, não quero isso agora. Não agora, definitivamente. Talvez você seja. Seja todo esse "a mais", mas não saiba. Não sabe. E não posso te mostrar isso agora - (in)felizmente, estou focada em ser plenamente feliz. Sozinha. Acompanhada. Mas comigo, sabe? Só comigo. Sempre comigo.