domingo, 10 de abril de 2016

Na companhia (companheirismos)

Era tarde. Mas não o suficiente para os amantes. Ah, esses nunca veem a cor dos céus, o esvaziar e encher as ruas. Não sentem os ventos ou ouvem os sussurros. É como se o tudo girasse só para eles. 
O calor, tangível e impregnado naquela tal flor que fica na pele, ocupava um espaço comum nos corpos, mas não era capaz de afastá-los. Afinal, o que seria?
Talvez o motivo da incapacidade fosse o olhar. Compreensivo. Gentil. Companheiro. Olhar de vida. De anos. Inteiro. A imensidão, que sempre capitada aos poucos, estava ali, em sua plena forma, tão frágil e a mostra. Tão fácil de ser percebida. 
A completude de seus dias que chegou desavisada, sorrateira, sem deixar rastro ou fazer barulho, ia escalando os degraus da escada. Chegando ao topo, avistava a mais bela vista - luzes coloridas, prédios que impunham, em seus topos, a imposição que nem sempre tem o tudo.
Estacionou na então (in) completa vida. Aquela sensação de insensatez. Eram céus, arranha-céus, e ofegares. Ofegastes. Juntos. Sozinhos. Tão seus. Nossos. Plenos. Uma poesia que dançaria dançante. Perambulando entre os topos, entre as ruas. O entrelaçar de dedos. 
A melhor sensação, aquela que se tem na imensidão quente da noite escura, é o olhar em olhos inteiros, entrelaçados por mãos, braços, pernas e dizeres. História contada sem palavras.
A brisa, tão rebelde quanto a caloração, dava o recado: que se leve o que há de ruim. De dor. De mágoa. Que só fique a fortaleza de ser como se é: completo. Companheiro.