quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Donas Marias e a humanidade

   Seu nome era Maria Rosa, mas todos a chamavam de Dona Maria. Ela morava num bairro distante e que não tinha muita atenção do governo - era como se se eles ignorassem a doença, ela se curasse sozinha. Era muito engraçada a forma como Dona Maria e todas as outras pessoas do bairro eram tratadas: como leprosos no século XII - jogadas à própria sorte que, até ela!, as tinha abandonado.
  Dona Maria tinha cinco filhos homens, todos casados com mulheres maduras e bem apessoadas. Eram homens robustos de bons empregos e corações podres. Ah, você me pergunta, por que "podres"? Porque aqueles corações que conseguem conviver com a própria consciência depois de descuidar da mãe são simplesmente corações que não serviram ao seu propósito.
  Um desses filhos produziu um neto, um bom neto, daqueles que sabem o valor de uma avó. Sabem que é preciso amor, muito amor, antes de um pedaço gostoso de bolo. Sabem que todos um dia envelhecem e que o que você faz, você recebe no futuro. Claro que isso não é uma praga, é simplesmente física: todos os nossos atos geram consequências que são, obviamente, a reação de uma ação - provavelmente Newton não pensou na aplicação humanística de suas leis, mas com certeza ficaria orgulhoso de tal interpretação.
  Ah, Dona Maria... Ela tinha uma doença vascular muito grave, sabem? Daquelas que nos impossibilitam de dobrar o joelho direito ou de  ficar em pé por muito tempo. Seu braço estava meio atrofiado assim como suas pernas e ela mal conseguia tomar banho sozinha. Se as noras sabiam disso? Sim, elas sabiam. Se elas a ajudavam a banhar-se? Não. E sabe por que? É, eu também não sei. Talvez porque Dona Maria as tenha maltratado no passado. Talvez ela tenha sido uma péssima sogra e uma pessoa horrível. Talvez ela merecesse ser punida por seus semelhantes que também cometeram falhas ao longo da vida... Parece-me que essa última explicação não faz muito sentido.
  Punir o outro com aquilo que ele usou para feri-lo não me parece uma saída muito justa. Mesmo que ela tenha sido uma pessoa horrenda, com hábitos detestáveis e um comportamento repreensível, cabe as noras repreender? Cabe a elas deixá-la sem banhar-se inadequadamente apenas para ensinar-lhe uma lição?
  Mais do que do curar doenças com remédios, o ser humano precisa aprender a curar as feridas  com  amor. Pagar ódio com ódio, não torna aquelas noras pessoas melhores do que a sogra, torna?
  De qualquer  forma, a questão de Dona Maria poderia ser resolvida de forma um pouco mais prática: o governo poderia liberar um médico vascular para cuidar do caso dela e, enfim, fazer uma cirurgia em sua perna. Poderia liberar os remédios de forma adequada e completamente consciente. Poderia proporcionar acompanhamento médico. E sabe como eu sei que poderia? Porque recentemente saiu uma pesquisa do Banco Mundial dizendo que o Brasil investe sim em saúde, mas o mal planejamento dos hospitais faz com que o atendimento seja ruim e isso prejudica os pacientes.
   A história de Dona Maria é real e quantas outras Donas Marias vão ter que existir e sofrer para que o governo e as pessoas se tornem mais humanos e conscientes? Quantas pessoas entrarão em depressão por conta  do descaso da humanidade para que todos entendam que a doença só se cura com carinho e dedicação? Não sei. Sei apenas que cursar medicina e almejar trabalhar no centro de uma grande metrópole enquanto chutamos  os médios cubanos não é a solução. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Freud não explica

Por um momento a menina das palavras se confundiu com a menina do relógio e passou a apressar o tempo. Passou a desejar que as coisas acontecessem mais rápido do que deveriam acontecer. Passou a demonstrar toda insegurança que estava dentro dela. Seria essa menina capaz de conter tantos sentimentos incontidos? Talvez o tempo fosse o melhor remédio - o único problema é que já se passara tempo demais e o tempo nada tinha curado com o tempo.
Ao caminhar entre as petúnias, a pequena menina não conseguia apreciar a beleza daquela paisagem, não conseguia absorver todo o seu resplendor  - isso porque, com o coração inquieto, a mente não consegue trabalhar direito. Engraçada essa relação que nada tem de comum: a razão é inversamente proporcional aos nosso sentimentos que, de qualquer forma, estão relacionados diretamente com a razão. É, às vezes nem a matemática faz sentido.
Será que Freud conseguiria explicar? Será que uma simples análise psicológica poderia entender um complexo ser humano? Seria capaz de decifrar o que nem mesmo a razão conseguiu entender? Talvez - Freud parece explicar grande parte das coisas inexplicáveis.
A cada inspiração sua aura parecia estar fora do corpo como se quisesse se libertar de uma verdade que ainda pairava sobre sua cabeça. Uma verdade que ela queria que pudesse ser negada, que pudesse ser mentira. Uma verdade que a fazia temer a vida muito mais do que temia a morte. Viver necessitava muito mais coragem - morrer era simples e nem sempre definitivo se fossemos considerar a quantidade de séries sobre zumbis que vem sendo produzidas. 
O que a fazia se sentir viva? O que fazia seu corpo ter reações involuntárias de forma feliz e prazerosa? Talvez a resposta para essas perguntas fosse "comer" - não que não possa ser, é claro que pode uma vez que comer dá muito menos trabalho - mas a resposta mesmo era amar. Amar a deixava feliz, mesmo que por alguns poucos segundos. Mesmo um amor passageiro que nada deixasse se não um olhar turvo e um coração palpitante.
Amar não é uma coisa eterna, não é uma coisa de uma pessoa só para outra só pessoa - amar é algo que pode ser momentâneo e completamente efêmero. Pode durar um segundo, uma hora, uma vida. Amar é tipo viver - a gente não sabe exatamente onde começa e onde  termina, sabe apenas que está acontecendo. O único problema é quando a gente começa a amar pensando no morrer - quando vai acabar? Essa é uma relação tão frustrante quanto aquelas que a matemática é incapaz de explicar.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A menina e o relógio

Enquanto ela caminhava, fitava o céu - era um lindo dia de primavera e o cheiro do ar quente e pesado dificultava sua respiração. Ela não entendia muito bem como tudo aquilo poderia estar acontecendo num dia tão belo: por que ele a havia deixado? Fazia algum sentido amar alguém que nem sequer te disse mais do que algumas palavras carinhosas? Fazia sentido amar alguém com todo o seu coração e receber apenas um pouquinho de amor em troca? É. Talvez não fizesse sentido - mas a vida geralmente não fazia mesmo. 
Ela deveria chorar naquele momento, mas uma força maior do que ela segurou suas lágrimas dentro dos expressivos olhos castanhos. Chorar não adiantaria, não resolveria seu problema. Continuou a caminhar pelo parque - as crianças brincavam com seus cachorros, as mães pareciam mais exaustas do que o normal, pessoas corriam suando a beça por conta do sol forte. Elas pareciam tão felizes naquele momento, tão felizes porque os raios de sol continuavam a brilhar intensamente e foi ali que Laura se deu conta do que estava fazendo com sua vida. A menina dos cabelos loiros estava tão preocupada em viver o futuro que  se esquecia completamente de presenciar o presente. 
À imersão de seus passos, a vida fazia um eco diante do que ela imaginava que poderia acontecer. O ruir do despertador era apenas mais um barulho que a preparava para o futuro, para o momento seguinte. A cada segundo que se passava, ela pensava no próximo. Mal via que os ponteiros continuavam girando porque estava muito preocupada com o número seguinte, com a próxima estatística. Talvez fosse algo de sua cabeça, mas por um instante todo o mundo parou e ficou em silêncio. Laura se sentou perto de uma árvore robusta e verde demais e observou os passarinhos congelados no ar. Observou as crianças que não mais corriam, mas ainda assim sorriam estáticas. Por uma fração de segundo, a menina compreendeu que nada mais importava além do presente e do sorriso que carregava dentro de si.
Talvez o amor que ela estava oferecendo fosse mais do que realmente pudesse dar - talvez ela tivesse tirado um pouco do amor próprio e oferecido a ele. Assim, quando ele partiu, não levou apenas si, mas a levou junto. Levou sua essência, seu coração e provavelmente um ou outro CD que ela tinha emprestado. Claro que o CD era o de menos, mas a canção ainda seria deles. Independente de onde ela tocasse, a canção seria sempre uma memória compartilhada através de uma rede de dados... uma rede que não poderia ser desconectada porque estava ligada à lembranças que não poderiam ser apagadas. Ah! Mais uma vez ela estava vivendo outro momento, só que agora esse momento era o passado.
Ao erguer os olhos e encarar o sol como se ele fosse o culpado por toda sua dor, Laura percebeu que a única solução para seus próprios problemas era a solução que ela lhes desse. Dizer que sentia dor de nada adiantaria porque a dor não vai embora quando manifestamos nosso descontentamento. A única solução seria viver o presente sem temer o futuro ou sofrer pelo passado. 
Tudo voltou a se mexer novamente: as crianças, os pássaros, o vento. Ela se levantou de seu confortável assento e seus olhos encontraram os de outra pessoa: olhos tão azuis que poderiam certamente representar o mar. Eram olhos expressivos que estavam sorrindo para ela. Laura sorriu de volta e, como uma boa fada de jardim, cansou de ficar plantada na grama: estava na hora de voar por novos horizontes.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

"Loving" is not right

Aquele era mais um dia comum: tínhamos ido a escola, discutimos coisas bobas e agora estávamos a caminho da Elisa - como toda semana, precisávamos comprar comida para o peixinho. Ele estava muito bravo comigo naquele dia - aparentemente minha real discordância das muitas afirmações dele o tinha irritado. Enquanto ele caminhava com o olhar duro, mas um sorriso nos lábios, eu comecei a pensar em toda a nossa trajetória. Não fazia sentido nós darmos certo. Não fazia sentido nós sermos amigos - não concordávamos em absolutamente nada! 
Ele conversava com Elisa com aquela expressão tão singela que até parecia que ele não estava bravo - era mestre nessa coisa de controlar emoções. Mestre em simplesmente "mudar de cara" quando não era conveniente expor o que estava sentindo e eu era o contrário, é claro. Mas, a verdade é que ele não era exatamente assim. Era um menino doce e completamente bom - independente de seus próprios conceitos sobre si mesmo. Ao pensar em nossa amizade, eu me dei conta do quão faceiro é o amor: ele pode vir de formas engraçadas, pode bagunçar a vida da gente e pode nos fazer passar pelos melhores (piores ?) momentos de nossas vidas. Mais engraçado ainda é que o verbo amar, em inglês love, não pode ser conjugado no presente contínuo - ou melhor, até pode, mas não é usual e nem muito correto. Veja bem, se o presente contínuo é um tempo verbal que te permite expressar o que você está fazendo ou está sentindo naquele momento, então se você está "loving", está amando naquele momento, não além dele. Não faz muito sentindo, correto? Pois bem. Assim é o amor - um verbo que não se conjuga no presente contínuo porque vai muito além disso. É um sentimento que a gente tem, que a gente teve ou que podemos ter. 
A amizade é mais ou menos assim: não podemos ser amigos apenas quando convém, apenas naquele momento. Temos que manter esse estado ou descartá-lo. Ele olhou para mim como quem faz uma pergunta e eu apenas sorri - ele poderia nunca demonstrar quão grande era o amor dele, mas eu sempre saberia que não acabaria com uma discussão na loja de ração para peixes.

sábado, 17 de agosto de 2013

Era um país muito engraçado...

O dia amanheceu em guerra. Não havia passarinhos cantando na janela - na verdade, seus ninhos haviam sido destruídos por uma bomba caseira na semana passada. Mas ela não tinha perdido a esperança.
Ainda se lembrava daquelas tardes jogando bola com os meninos - ela era pobre, nem havia porque se comportar como uma garota muçulmana, pelo menos, não quando ninguém estava olhando. Quando jogava ela era ela mesma, só uma criança. Sem imposições, sem punições.
Por que deveria cobrir-se toda quando sentir o sol em sua pele era muito mais prazeroso? Por que se submeter aos homens quando se considerava muito mais capaz e inteligente? Porque é o que eles mandam, pensou um amargura. Porque eles pensam estar à serviço de Alá. Mas, será que Alá permitiria tantas atrocidades contra a mulher? Ele as apoiaria?
O sol brilhava intensamente enquanto ela decidia se iria ou não se levantar da cama. Decidia se acordaria para mais um dia de luta pela sobrevivência. Já sonhou em ser médica - sonhou em ajudar as pessoas e mostrar que era uma mulher forte. Mas, em meio ao show de explosões e tiros, não havia lugar para sonhos ou questionamentos. 
Decidiu, por fim, levantar-se. Vestiu calças e calçou suas botas. Não importava mais se seria apedrejada por se mostrar. Não importava se seria estuprada por "não se dar ao respeito". A única coisa que importava era lutar para que outros pudessem viver.
Ao colocar a mochila nas costas, pensou em como seu pai se sentiria se a visse agora. Imaginou a fisionomia dura e os olhos pequenos e desconfiados. Por um momento, supos que ele ficaria furioso. Entretanto, dadas às circunstâncias, apenas beijaria sua testa e lhe desejaria sorte.
Afastou aquela imagem com a lembrança da morte dele. Esse era o motivo pelo qual lutaria - por todos aqueles que morreram naquela quarta-feira escura. Lutaria por um país que não tinha Estado, não tinha lei, não tinha nada.
Ao abrir a porta de sua casa e se deparar com todas aquelas pessoas correndo em alvoroço, soube que a luta pela democracia, pelo poder de escolha, não seria fácil. Soube que morreria por um país que matava mulheres como ela. Mas também soube que, se não lutasse, não teria algo pelo que viver.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Darwin no século XIX

Enquanto ele caminhava pela rua ouvia o som dos cascalhos batendo em seus tênis. O sol brilhava intensamente, apesar do redemoinho que girava em sua cabeça. Como ele pôde ser tão tolo? Como pôde acreditar que as coisas haviam mudado e tudo seria diferente porque era "um tempo de inclusão"? Não tinha respostas. Não tinha nada. 
Chutou uma pedra em seu caminho e pensou em quantas pedras já tinham parado ali. Pensou em quantas vezes poderia ter sido mais fácil se ele fosse de outra cor. Talvez o mundo simplesmente fosse assim: uma seleção natural. Um lugar em que o mais evoluído sobrevive. Riu consigo ao imaginar que não o consideravam tão evoluído. Mas, afinal, quem era eles? Quem poderia julgá-lo como inferior se nem Ele o julgava assim? 
O mundo dos homens era difícil. Difícil entender como alguns pensam que podem ter tudo simplesmente passando por cima dos outros e como aqueles que tem capacidade para alcançar seus sonhos são inferiorizados por serem considerados insuficientes. Quem deu tamanho poder para o homem? De classificar seu semelhante de tal forma que um potencial concorrente fosse marginalizado e esquecido a ponto de ele mesmo se sentir menor?
Olhou para o céu mais uma vez e esperou que Deus pudesse vê-lo. Esperou que as coisas fossem melhorar e ele pudesse pagar uma nova casa para sua mãe... Dar uma vida melhor a seus  filhos. Se ele pudesse comprar algum leite para sua menininha. Ah, como ela era linda. Os olhos azuis como os da mãe e a marra que puxara do pai. Ela seria uma guerreira em um mundo tão cruel. Se sobrevivesse...
Seu coração começou a bater rápido e suas pupilas dilataram-se com aquele pensamento sombrio: não fazia sentindo que ela pudesse morrer, não era a ordem natural das coisas um filho morrer antes do pai. Ele não poderia deixar que aquilo acontecesse. Não poderia jamais permitir que seus filhos não tivessem o que comer assim como ele não tivera. Só precisava de um minuto. Um minuto e tudo estaria acabado.
-Pegue o dinheiro do caixa e me dê. Isso é um assalto. - Ele anunciou para o homem atrás do balcão. O palpitar dentro do seu peito era um pedido silencioso para que o senhor a sua frente não fizesse nada que pudesse trazer consequências desastrosas para aquele ato extremo. Ele implorava mentalmente para que Deus tivesse compaixão de sua alma e que ele pudesse alimentar suas crianças.
O velho entregou-lhe o dinheiro e ele correu. Correu como se não tivesse para aonde ir - e não tinha. Sua casa fora tomada naquela manhã e sua família estava com todos os móveis espalhados pela calçada. Estavam completamente desamparados e ele não sabia o que fazer. 
Por um instante o sol o cegou, o suficiente para fazê-lo entender a gravidade de seus atos. Entretanto, como poderia ele, um jovem desempregado, negro e suburbano fazer outra coisa se não a coisa errada? Como ele poderia ter pensando em uma atitude mais digna quando o desespero de não ter nada o dominou?  
Ele não podia. Ele não pensou. Ele seguiu a seleção natural e evoluiu ao contrário: decidiu que o mais forte tinha que sobreviver.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Nos perderemos entre monstros

Ele tentava falar, mas parecia que ninguém o escutava - sua voz era nada e seus gritos não saiam realmente de sua boca. Estaria enlouquecendo? Talvez não. Talvez fosse apenas a voz da sociedade que falava mais alto, apesar de a voz dele dizer algumas verdades. Não queriam ouvi-lo nem por um segundo - queriam apenas ser ouvidos. Será que isso está certo?, ele se perguntava. 
A verdade é que nada mais fazia sentindo naquela multidão de vozes que ecoavam. Eles pediam por tudo e, ao mesmo tempo, por nada. Suas mentes eram tão vazias quanto se diziam cheias. Provavelmente eles nunca viram aquela estátua de Buda que tem a boca menor do que as orelhas - se tivessem visto, entenderiam que falar não é o que vale mais. 
Essa era a primeira vez que eles gritavam de verdade, mas será que alguém os estava escutando? Será que as suas reivindicações seriam atendidas? Não. Eles mesmos respondiam: não. Como poderiam eles saber? Porque sabiam. Sabiam que o homem não se preocupa com algo além do seu próprio umbigo. Amor maternal? Que nada - a velha só estava cuidando de mim para que eu não a colocasse num asilo no fim de sua vida. Amizade eterna? Fala sério - até Cássia Eller disse que "o pra sempre, sempre acaba". 
Não estariam eles sendo precipitados? Afinal, julgar quem o julga não o torna igual aquele que o julgou primeiro? Claro que não!, gritou um outro no meio de sua autonegação. Eles, telespectadores, eleitores, cidadãos, tinham sim o direito de julgar aqueles no poder, seus representantes democraticamente eleitos. Entretanto, será que algum deles foi até a prefeitura cobrar o que o prefeito prometeu se se elegesse? "Dou um Kit Kat para quem levantar a mão", pensou com seus botões - claro que aquele Kit Kat ele mesmo comeria.
A sala em que estavam era bem iluminada e as senhoras sentadas a sua frente eram mulheres distintas e, provavelmente, casadas, com filhos e netos. Elas pareciam furiosas por ter que estar ali ouvindo tantas "baboseiras". Mas será que elas estavam ouvindo mesmo? Será que não estava muito preocupadas em como "aquilo tudo era uma grande mentira" que não estavam realmente ouvindo? "A verdade é que a política é algo manipulável porque é feita por seres humanos que são manipuláveis", ele ressaltou, rindo consigo mesmo.
- Do que é que o senhor está rindo, senhor prefeito? - Indagou a mulher de cabelos loiros e olhos incisivos.
- De nós, senhora. Ele está rindo de nós porque fomos estúpidos o suficiente para ouvir suas promessas de início de ano. - O senhor ao seu lado respondeu, fazendo de suas, minhas palavras.
"Eu poderia retrucar. Poderia perder a compostura e dizer algumas verdades para aquela senhora que, com certeza, não votou em mim. Eu poderia dizer que tenho uma esposa, um filho e um cachorro e pago minhas contas assim como ela. Mas estaria eu dizendo a verdade? Eu não tenho que cuidar da casa o dia inteiro e certamente ganho mais do que um salário mínimo. Acho que não tenho o direito de revidar. Entretanto, ela tem o direito de me culpar por todos os crimes do mundo? Ela tem o direito de não me ouvir porque acha que eu sou um ladrão assim como muitos outros?
Eu sou um ladrão? Claro que não! Todos são inocentes até que se prove o contrário... Certo?"

quinta-feira, 28 de março de 2013

A droga

E ele a fitou - seus olhos eram tão calmos quanto a brisa de verão e focavam o chão sem entender o que se passava. Ela imaginava como as coisas era belas quando se estava amando. Como o mundo parecia girar da forma correta e os pássaros sabiam como cantar. Tudo parecia verdade. Tudo a seduzia e a luz parecia muito mais clara. Duraria para sempre. Duraria? Seus lábios curvaram-se num triste sorriso. Obviamente nada durava para sempre. Ou talvez durasse. Talvez o amor que inundava seu peito fosse tão grande que se tornasse tangível ao próximo rapaz que passassem. Talvez o amor de um pudesse representar o amor de muitos, não necessitando que eles o amem em troca. Afinal, amar não é ser correspondido. Amar é simplesmente amar. Porque um amor pode ser verdadeiro mesmo quando ignorado e maltratado. Mesmo quando não há mais ar para respirar, não há mais sangue para pulsar um coração, ele continua ali, vivo. Continua na alma de quem uma vez começou a amar, pois uma vez  que começou torna-se inacabável. Há quem diga que o amor pode ser passageiro, efêmero e fugaz, mas essas pessoas, certamente, nunca amaram de verdade. Não sabem como a dor de perder um grande amor pode estraçalhar o seu peito e mastigar sua auto-estima. Claro que essas consequências são aceitáveis depois de provar da droga, é como um período de abstinência. 
Quando se é feliz demais, quando no mundo não existem barreiras e a verdade parece inquestionável, podemos dizer que você provou da droga. A droga da felicidade. Provou o gosto de estar triste, sabendo que logo em seguida ficaria feliz de novo. Provou o gosto da liberdade mesmo tendo seu coração aprisionado. Provou o gosto de outros dedos ocupando o lugar vazio entre os seus. E dai, quando tudo isso acaba e seus pés voltam a ficar frios à noite sem ninguém para aquecê-los, você percebe que não pode ficar bem sem aquela bendita droga. Alguns começam a procurá-la incessantemente. Outros desistem de viver, desistem de seus objetivos. Outros - o tipo menos comum, eu diria - passam a observar a vida com certa expectativa de que algo aconteça. Esses últimos tiveram seus corações arrancados do peito e todos os seus planos foram arruinados. Eles simplesmente deixam de ter uma perspectiva futura de suas vidas. Mas mesmo assim, mesmo quando caem em desespero, existe aquele fio, sabe? Aquele frágil fio não consegue ser arrebentado. A cada voz que diz "Deixe de sonhar" uma voz mais forte grita "Continue tentando!" e é essa voz que ele ouve.
-Você gostaria de jantar comigo? - Perguntou João depois de quatro longos minutos tomando coragem para falar com a linda menina solitária.
O olhos tristes dela se ergueram e um brilho diferente apareceu ali. 
-Claro. - Mariana respondeu.
Aquele brilho chamavá-se esperança.

domingo, 17 de março de 2013

A modernidade que volta a Platão

E ela olhou para janela sem saber o que pensar - havia indagado o dia inteiro e ainda não chegara a nenhuma conclusão, o que era completamente frustrante. Por que as coisas eram como eram? Por que as pessoas não conseguiam fazer outra coisa se não consumir? Talvez tudo fosse diferente se o início tivesse sido diferente. Se as pessoas aprendessem que a vida não é feita de coisa, mas de pessoas e sentimentos. Mas, e aqueles sentimentos ruins? Aqueles que nós temos vergonha de sentir? Será que esses sentimentos nos fazem quem somo e, portanto, não aceitamos quem somos? Será que eles são, de fato, errados? Ou alguém nos disse que eles são errados?
Essas e outras questões filosóficas entraram em sua mente de tal forma que viver tornara-se complicado e tedioso. Não parecia haver respostas para suas perguntas. Afinal, como poderiam haver respostas se essas perguntas não haviam sido perguntadas mais do que algumas poucas vezes? Por que responder algo que raramente era questionado? Por que PENSAR? A verdade é que pensar  é complicado e te deixa muito mais confuso do que você estava antes de começar a raciocinar sobre as coisas da vida. Como será que os filósofos não enlouqueceram? Talvez eles tivessem enlouquecido. Talvez Sócrates fosse tão louco que nem mesmo ele conseguia se compreender e ai questionava as pessoas sobre suas próprias dúvidas. Pensar a estava enlouquecendo. Como poderia ser feliz se a felicidade havia sido tomada dela muito tempo atrás? Será que a felicidade é uma droga e, depois que você prova uma vez, fica completamente viciado e não consegue fazer outra coisa se não ir atrás dela desesperadamente? Ela achava que sim. Achava que a felicidade foi sua maior droga e ousava pensar que era a maior consumidora que já existiu. Ah... Ela já foi tão feliz! E agora esses dias não passavam de belas lembranças que ultrapassavam a linha tênue entre sanidade e insanidade. Tais memórias entravam e saiam de sua mente com uma frequência jamais vista e, então, entravam em colapso. Será que ela ficaria depressiva? Será que usaria drogas? Será que seria infeliz para sempre? 
Sinceramente, só existe uma pergunta para essas perguntas: depende. Depende da resposta dela, pois tudo depende de nossas escolhas e nossas respostas. Ninguém é obrigado a fazer nada - se até Deus nos deu o livre arbítrio, por que os homens poderiam nos dizer o que fazer? Não poderiam e é essa a questão. Todos os nossos atos, todas as nossas perguntas e todas as nossas decisões são isso: nossas. Cabem a nós e a mais ninguém. Mas, é claro que é difícil explicar isso para uma sociedade tão massificada e alienada que não consegue enxergar que está voltando a belle époque brasileira. Não consegue ver que nossa nova França é os EUA. Não consegue ver que o consumo está, de fato, consumindo-nos. Como mostrar a realidade para quem acredita que as sombras são reais?