segunda-feira, 8 de junho de 2015

Tião: o contador de histórias

Já era tarde quando ele se deu conta de que o sol havia se posto. Em determinados empregos o tempo não realmente importa. Nada realmente importa. Mas para Sebastião as coisas pareciam ser diferentes - todos os pequenos detalhes eram valiosos e significavam uma boa história.
Não ter visto o dia passar não era algo na sua opinião - era praticamente um desperdício de tempo. Um desperdício de vida que poderia ser vivida intensamente - contando as gotas na janelas ou os "bom dia" que recebeu.
Olhou para o volante a sua frente e decidiu que gostaria que aquele dia acabasse de uma vez por todas.
Eu queria que as coisas fossem fáceis como o são na cabeça do seu Sebastião para quem basta uma boa prosa e alguma paz no café da manhã. Ele vê o mundo com olhos de velho, mas caminha com passos de moleque. Talvez se a vida fosse difícil como é para Tião, ninguém realmente teria problemas.
Com seu barquinho a navegar pelos mares como quem já sabe o que as ondas trazem, Tião conduzia sua van com maestria, levando as pessoas para o lugar mais bonito do mundo naqueles tempos: a praia.
Ele segurava no volante com gentileza como se pedisse permissão aos céus para conduzir - em seus olhos, víamos calma e preocupação, tudo muito definido como é óleo com água. Tião sabia que se deixar guiar pelo medo não o faria chegar a lugar nenhum - e foi justamente esse pensamento que o fez chegar tão longe.
Todos que subiam em sua van tinham a mesma impressão: a de que o mundo havia parado por alguns segundos enquanto adentravam numa outra dimensão. Sentiam-se tão imersos em si mesmos que mal podiam saber quando transporte enfim iria partir.
Era sublime ver o mundo por aquela perspectiva. Sublime pensar que nada de ruim poderia acontecer enquanto estivessem na van de seu Tião. Incrível porque nada no mundo se comparava aquilo - talvez colo de mãe.
Seu Tião sabia como iluminar uma vida apenas contando como foi seu fim de semana: ele não era displicente com os detalhes, contava cada um deles como se fossem fundamentais para a compreensão da história.
Engraçada essa forma de pensar, de falar, de entreter o mundo apenas existindo por si mesmo. Era como se só por ser Tião, Tião fosse a luz que iluminava aquele pequeno mundo.
Por mais que os dias passassem, sua essência permanecia intacta aos olhos de um lugar que, de tão volúvel, não sabia mais quem era. Era apenas Tião constante contando histórias para alegrar os dias.

*Dedico esse texto especialmente ao meu avô, o seu Tião, que de tanto contar seu causos me fez ter amor pela vida, pela escrita, pelo jornalismo. Senhor que me inspira todos os dias a viver cada detalhe como se fosse o último.