A passos miúdos de quem já havia andado demais na vida entrou na sala escura. Parecia muito maior do que de fato era - iluminada a meia luz, poltronas confortáveis. Tudo parecia simples demais perto do que já fora um dia. E não era mais. Não havia glamour em ir ao cinema. Ato rotineiro de mães, avós e casais. Não era um grande evento como antes - as pessoas não se arrumavam para ir à matinê. Na verdade, talvez só colocassem um roupa melhor pelo fato de terem que encontrar com outras pessoas no tão famigerado shopping center.
Sentou-se da mesma forma: devagar e com leveza. Não era todo mundo - já dizia sua mãe. E iria apreciar o filme como quando era jovem: quando a preciosidade do cinema estava no momento, em se capturar cenas graciosamente, tentando passar ao telespectador toda emoção do roteiro.
Hoje, mesmo com as técnicas afiadas de fotografia, a narrativa cada vez mais aperfeiçoada, as pessoas deixaram de contar histórias. Bombas, explosões, sexo. Filmes não eram como antes - feitos meticulosamente para serem compreendidos. Não estavam mais mastigados pra quem não entendia nada de cinema - agora eram complexos de uma forma vazia. Que a mente pode até acompanhar, mas os olhos se perdem - como compreender algo que não se enxerga? Não se sente?
Um suspiro profundo percorreu-lhe o corpo. Talvez o cinema tivesse acompanhado o amor. Nos primórdios, parecia flor: desabrochava quando bem regado. Depois, foi tolhido, se moldou ao patriarcado. Tardiamente, descobriu-se livre. Ah. Foi justamente nessa época que conheceu Rosa. Livre como uma folha e forte, ah, forte como um prédio de 20 andares. Rosa não era sua - era dela e escolheu se compartilhar com ele por longos 50 anos.
Talvez o cinema tivesse acompanhado o amor ambos decaídos de seus tempos áureos, agora esgueiravam-se em bares, enchendo a cara de poesia vazia. Poesia sem verso. Sem nexo. Nem sentimento.
Mas não Rosa. Plenamente confortável em sua solidão, ela o amou. Não como o cinema, mas como companheiro. Com direito a mãos dadas depois do jantar e risadas no meio da noite. Amou mais do que se poderia amar alguém - assim, de tão pleno, a gente até esquece que está amando.
Hoje, Rosa não estava mais ali. Partiu, levando consigo um pedaço da alma dele - alma compartilhada, plena e lúcida. Amor vívido, mas incansável.
Talvez o cinema tivesse tentado acompanhar o amor, mas falhou porque este, ah, seguiu em frente, cresceu e voou. Talvez de forma torta. Errônea. Mas nunca pouca. Nunca em migalhas. Enquanto filmes a gente faz da boca pra fora, amar, ah, amar a gente sente do peito pra dentro.
Dedico este textos a todos que, como eu, não sabem amar pela metade.