domingo, 19 de junho de 2016

Ao lado



A passos miúdos de quem já havia andado demais na vida entrou na sala escura. Parecia muito maior do que de fato era - iluminada a meia luz, poltronas confortáveis. Tudo parecia simples demais perto do que já fora um dia. E não era mais. Não havia glamour em ir ao cinema. Ato rotineiro de mães, avós e casais. Não era um grande evento como antes - as pessoas não se arrumavam para ir à matinê. Na verdade, talvez só colocassem um roupa melhor pelo fato de terem que encontrar com outras pessoas no tão famigerado shopping center. 
Sentou-se da mesma forma: devagar e com leveza. Não era todo mundo - já dizia sua mãe. E iria apreciar o filme como quando era jovem: quando a preciosidade do cinema estava no momento, em se capturar cenas graciosamente, tentando passar ao telespectador toda emoção do roteiro. 
Hoje, mesmo com as técnicas afiadas de fotografia, a narrativa cada vez mais aperfeiçoada, as pessoas deixaram de contar histórias. Bombas, explosões, sexo. Filmes não eram como antes - feitos meticulosamente para serem compreendidos. Não estavam mais mastigados pra quem não entendia nada de cinema - agora eram complexos de uma forma vazia. Que a mente pode até acompanhar, mas os olhos se perdem - como compreender algo que não se enxerga? Não se sente?
Um suspiro profundo percorreu-lhe o corpo. Talvez o cinema tivesse acompanhado o amor. Nos primórdios, parecia flor: desabrochava quando bem regado. Depois, foi tolhido, se moldou ao patriarcado. Tardiamente, descobriu-se livre. Ah. Foi justamente nessa época que conheceu Rosa. Livre como uma folha e forte, ah, forte como um prédio de 20 andares. Rosa não era sua - era dela e escolheu se compartilhar com ele por longos 50 anos.
Talvez o cinema tivesse acompanhado o amor ambos decaídos de seus tempos áureos, agora esgueiravam-se em bares, enchendo a cara de poesia vazia. Poesia sem verso. Sem nexo. Nem sentimento. 
Mas não Rosa. Plenamente confortável em sua solidão, ela o amou. Não como o cinema, mas como companheiro. Com direito a mãos dadas depois do jantar e risadas no meio da noite. Amou mais do que se poderia amar alguém - assim, de tão pleno, a gente até esquece que está amando.
Hoje, Rosa não estava mais ali. Partiu, levando consigo um pedaço da alma dele - alma compartilhada, plena e lúcida. Amor vívido, mas incansável.
Talvez o cinema tivesse tentado acompanhar o amor, mas falhou porque este, ah, seguiu em frente, cresceu e voou. Talvez de forma torta. Errônea. Mas nunca pouca. Nunca em migalhas. Enquanto filmes a gente faz da boca pra fora, amar, ah, amar a gente sente do peito pra dentro. 

Dedico este textos a todos que, como eu, não sabem amar pela metade. 

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Cova

Não era mais que qualquer outra pessoa. Seu cabelo não era mais interessante. Sua roupa mal poderia se chamar diferente. Era ordinária, como diriam alguns. Não sabia se por dom ou por maldição, foi outra coisa, menos palpável, que cavou sua cova desde o início - o desamor.
Não dela pelos outros - na verdade, transbordava sentimento. Era afeto puro - daqueles que a gente coloca no choconhaque pra aquecer um pouco mais. Floquinhos de açúcar poderiam se transportar de seu riso para um xícara de chá - tão doce era a menina. Mas nem sempre o mundo sabe como apreciar a doçura - às vezes, é a pauladas.
Não sabia quando ia acontecer, mas que aconteceria. Era um fato, não consumado, mas premeditado. Talvez fosse jovem demais, esperançosa de menos. Talvez fosse incompleta em seu pequeno ser - sendo que jamais tinha sido. Era constelação e estrela só. Solitária, brilhava em seu universo particular, incomodando uns, animando outros. Mas reluzindo só para si mesma.
Sem pensar em nada, dançava. Rodopiando no ar, seguia. Nítida. Sua. Imensa. O erro estava em não olhar - não ter visto que, naquele canto, naquela rua escura, tinha alguém a observando. Olhava de longe, quieto. Gatuno não fazia barulho. Ouvia o respirar dela, tranquilo, animado pela noite estrelada. Quando começou a caminhar atrás de seus pequenos pés, sentiu o coração disparar - era ódio. Não amor. Sentia a raiva pulsar observando a menina que, sem saber, pecava ao ser feliz.
Era ordinária - sempre pensou. Quantas de nós não tem o cabelo curto? Quantas não usam moletons em detrimento dos casacos que esquentam pouco? Tantas. Quantas de nós usavam jeans folgado? Quantas preferiam beijar meninas e não meninos? Tantas. Mas não para ele. Para ele eram umas poucas - pragas que precisavam ser excluídas da realidade. 
Num bater surdo, a atingiu. Chamava-se realidade. Como um furacão que não tinha mais para onde levar a destruição, a atingiu. Atingiu assim, sem perguntar, sem emitir som de piedade. Na verdade, sentiu alívio - eliminava mais uma.
O espesso líquido vermelho que escorria pela barra de ferro não significava nada se não cura. Cura de todos os amores. Cura de todas as lutas. O sangue vermelho representava a vitória fictícia da moral. 
Como num sonho, despertou. Estava sentado numa cadeira fria, olhando para as luzes confusas da polícia. Haviam descoberto. Tirado o cobertor de sua fúria e mostrado ao mundo sua justiça. Com sorriso de vitória, seguiu. Dentro da cela, nada mais o esperava - a justiça havia sido feita. A fúria, no entanto, veio mais tarde, quando ouviu no jornal que a morte tinha sido ocasionada pelo momento, pela noite, pela solidão da menina. Esqueceram de dizer seu pecado. Esqueceram de mencionar o justiceiro. Esqueceram. Afinal, crime passional, homem que não pode se controlar, é natural. Matar por ser homem é natural - justificável se a vítima era uma mulher. Injustificável era matar por ser lésbica. Isso não existe - diziam. Ninguém mata por isso - justificavam. A única unanimidade estava em dizer que a culpa era da roupa, do cabelo, do gênero. Da mulher. 

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Cores frias x cores quentes


Um era azul. O outro vermelho. Sendo pertencente às cores frias, deveria, portanto, ser também ele gélido. Calculista. Simétrico. Mas não era. Distante no início, aproximou-se de tal forma que não mais cabia na palma da mão. De uma sutileza sem igual, corria pelas veias dela, enchia seus poros de alegria com o sorriso torto, o bigode mal feito e os olhos brilhantes. De um amor. Uma plenitude. Podia ser azul e ser quente? Seria, de fato, o azul do seu coração a cor que fazia ferver a pele dela? Talvez tenha sido. 
O vermelho, completamente oposto, não sabia ser cauteloso. Era explosão. Sentimento vivo. Palpável, Atordoava. Tirava o ar. Todo o fôlego guardado naquele azulado calmo se perdia em meio ao queimar do fogo ardente. Complementares. Únicos. Azul e vermelho ardiam na mesma intensidade, mas em elementos diferentes.
Sem compreender a imensidão de cada um, seguia. Por vezes, esbarrando em um. Em outras, agarrando o outro. A dor do não largar permanecia, mas a dor do inesperado, do inconfundível amor à primeira vista, ainda ardia no peito. Ardia constante. Diariamente. Não sabia o que era intervalo - toda hora era hora de pensar.
Talvez na imensidão do sentimento contínuo seja possível que o amor se divida em dois: presente e passado, sem perder a intensidade, o calor e a calmaria. Da mesma forma que o fogo queima os dedos sem tocar, o gelo arde na pele com o simples encostar. É leve, suave, dolorido e permanente. Talvez as cicatrizes tão profundas sejam irreversíveis. Talvez os machucados, os pedaços e o caminho esteja permanentemente remendado. Indesculpável. Indescritível, Mas segue. Porque todo gelo que havia ficou para trás: foi, lentamente, se derretendo pelo vermelho. Pelo calor que, sem mais nem menos, aqueceu. Esquentou. Se fez presente. Ir embora? Ah. Essa é uma pergunta que não dá para ser respondida ainda. 

Dogville particular


De longe, era só mais um senhor pacato. Morava em uma casa de esquina num bairro em que todos se conheciam. Eram velhos amigos desde antes de se conhecerem há mais de 50 anos. Sabiam dos filhos, dos netos. Quem fizera faculdade. Quem largara o curso. Quem engravidou antes do casamento. Quem dormia com todas e todos. Cada detalhe era capciosamente compartilhado como aquele pedaço de bolo que a gente faz especialmente pra visita - as crianças não podem tocar antes, mesmo vivendo ali, porque a ideia é justamente que o convidado se sinta especial. Parte da vida da gente - mesmo que a vida não seja dele.
Pertencemos ao outro antes mesmo de pertencemos a nós mesmos. Esse era o lema implícito daquela singela vila. Talvez, fosse a vontade unânime de cuidar. De querer o melhor para o outro. Claro, o que é bom para nós obviamente será bom para todos - já pensava Hitler, Mussolini ou Getúlio.
De uma grandeza simples, pouco particular, mas sempre bem humorada, a comunidade ia seguindo, cuidando vagarosamente de vidas que, mais do que delas mesmas, eram de todo mundo.
O velho senhor, mais do que alguém que apenas morava na casa da esquina, também era pai, avô, vizinho. Obviamente, portanto, sabia muito bem como cuidar. A passos lentos, ia tomando pra si uma vida que não era sua, mas que, é claro, lhe pertencia uma vez que as contas eram pagas com seu dinheiro suado de falcatruas de meninice. Quer dizer, aposentadoria de um homem honesto. Quando a gente é singelo, comum, ordinário, e não rouba grandes quantias ao mesmo tempo em que trabalha como uma mula numa grande fábrica levada pelo proletariado, está mais do que claro que é justo tirar unzinho por fora. Ainda mais se formos brancos - que mal tem, já que não temos mal nenhum? Somos pessoas de bem. 
Seguindo em seu diário cuidar, o senhor ia. Tocava sua vida e de seus compatriotas a esmo. Afinal, o que seriam deles sem seu ralado dinheirinho? Portanto, controle total e vigilância completa era o mínimo que poderiam lhe oferecer.
O velho havia percebido há muito tempo algo que, muitas vezes, nós, jovens incorretos e incapacitados, demoramos a vida toda para aprender: homens (brancos e burgueses) de bem sempre controlam, ganham e estão por cima. É a lei da vida. Da selva. Da comunidade. Dói mais não aceitar. Não entender que sua incapacitada existência não tem propósito se não quando cuidado pelos tais homens de bem. Como uma grande verdade que brilhou no céu, está se prostrou na Terra. Única. Inabalável. Tudo pela palavra dos homens de bem.