quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Era só solidão

As flores amarelas não apareciam tão amarelas quando poderia-se supor - claro que a suposição perante tal fato não é realmente relevante já que ninguém realmente se importa com o que se passa na vida de uma pequena flor.
Não que a realidade pareça a realidade - afinal, o que é ser real? É corresponder às expectativas que alguém impõe a cada um que vive neste grande mundo? É ser o que muitos podem considerar bom? Mas o que é, de fato, o bom?
A relatividade presente na imensidão desta cidade cinzenta era o que mais o incomodava. Não eram os prédios altos demais ou a poluição que poderia ser palpável dependendo de onde se estivesse. Era a imensidão que dava tanta margem para erro quanto possível - era como dizer "já que temos tantos postes, então tente bater em todos, um só não basta". Um só não basta.
Caminhando pelas calçadas sujas, ele não conseguia encontrar nenhuma daquelas flores amarelas que antes o incomodavam tanto - não por sua cor sutil, mas pela palidez que ele mesmo tinha em sua existência tão pouco plausível.
A cada passada, o menino que não poderia se equiparar a um homem se sentia mais menino com seus tênis surrados e sua regata escura. Sentia-se perdido no meio da larguitude complacente que não parecia de fato compadecer de sua dor.
Sua respiração não parecia com uma respiração qualquer, na verdade poderia mais ser comparada com a de um cachorro faminto, cansado e sozinho. Sozinho. Não que a sofreguidão com a qual não sabia quem era não fazia com que ele mesmo se sentisse perdido dentro de seus tão escuros sonhos. Tão abstratos quanto gemas e claras num omelete - se é que poderia chamar um ovo mexido de omelete.
O ar soprava calmo, diferentemente dos outros dias de primavera, e o pequeno menino não sabia se seus cadarços faziam sentido batendo em seus pés e no chão. Não sabia se era correto tomar um refrigerante ou reverter sua situação emocional completamente confusa e sem nexo.
Talvez, a cada passo, os cadarços traçassem seu destino e ele não poderia questionar, afinal foram seus próprios pés que o levaram até ali - fora ele quem provocou todas as reações newtônicas que aconteceram em sua existabilidade ao mesmo tempo em que o vento levava qualquer escolha que ele poderia ter ao se deparar com a vida. Vida esta muito mais difícil do que de fato parecia ser quando era criança.
Ao olhar para cima, percebeu que a imensidão era muito mais imensa do que ele poderia supor. Muito mais densa do que as águas negras na qual ele escolhera se afundar.
Era mais do que o mais que ele poderia supor. Era quase pedir para que a imensidão o engolisse.
E engoliria. E engoliu.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Uma grande ideia


Nem sempre as ideias grandes são grandes mesmo - muitas vezes elas começam pequenas, lá na cabeça da gente, sem que percebamos que elas podem ser algo realmente valioso. Geralmente a gente pensa em como aquilo é idiota e como qualquer outra pessoa poderia ter pensado a mesma coisa.
Mas, em algum momento durante aquele processo criativo, vemos que aquilo tem algum valor, na verdade, tem mais valor do que aparentava ter segundos atrás. É assim que nasce uma boa ideia: de dentro de onde a gente menos espera.
Convivendo com pessoas diferentes de grandes ideias, pude perceber o quão importante é a diversidade: sem várias línguas, o mundo não teria graça; sem comidas diferentes, não faria sentido ter uma comida preferida. Sinceramente, sem toda a pluralidade existente em comunicação, não poderia haver sucesso.
E por que? Porque comunicação não é apenas estabelecer contato verbal, é vender uma ideia por meio das palavras certas.
Quando a gente pensa que qualquer um pode se comunicar, estamos errados e estamos certos. Estamos errados porque o dom de transmitir uma informação com todo o seu conteúdo, sem que ele se perca ou se deturpe, é algo mais difícil do que pode parecer. Mas também é algo fácil porque, parafraseando Manuel Bandeira, o português gostoso mesmo é aquele falado pelo povo - é aquela comunicação que nem todo mundo entende porque vem de uma riqueza de detalhes que pertencem à uma comunidade específica, uma comunidade que se entende e onde há compreensão, há comunicação.
A gente de jornalismo tem essa mania boba de pensar que vai salvar o mundo com um texto, um faminto com uma palavra e um morador de rua com uma foto. Mania boba de pensar que a gente realmente é independente e pode fazer o que quiser, quando quiser, porque somos imbatíveis.
Mas não somos. Não somos nem metade do que gostaríamos que fossemos. Entretanto, nós temos um time com quem podemos contar e do qual não devemos abrir mão: o time da comunicação social.
Nele se encaixam publicidade, comunicação mercadológica, relações públicas e jornalismo. Profissões que, como nós, têm que lidar com gente. Têm que entender o que as pessoas precisam e têm que atender essa demanda da forma mais ética e moral possível. Mas, assim como nós, eles têm que trabalhar em conjunto.
Sem a cooperação, a colaboração e o companheirismo nenhum ramo vai pra frente - e, na comunicação social, nós temos muito ramos.
É por isso que a gente tem que valorizar a comunicação de uma forma geral, como um bem que pode ser cuidado por mais de uma pessoa, por uma diversidade de gente que pensa diferente e, mesmo assim, pode ajudar um todo.
A comunicação é isso: a língua do povo traduzida pra gente.