As flores amarelas não apareciam tão amarelas quando poderia-se supor - claro que a suposição perante tal fato não é realmente relevante já que ninguém realmente se importa com o que se passa na vida de uma pequena flor.
Não que a realidade pareça a realidade - afinal, o que é ser real? É corresponder às expectativas que alguém impõe a cada um que vive neste grande mundo? É ser o que muitos podem considerar bom? Mas o que é, de fato, o bom?
A relatividade presente na imensidão desta cidade cinzenta era o que mais o incomodava. Não eram os prédios altos demais ou a poluição que poderia ser palpável dependendo de onde se estivesse. Era a imensidão que dava tanta margem para erro quanto possível - era como dizer "já que temos tantos postes, então tente bater em todos, um só não basta". Um só não basta.
Caminhando pelas calçadas sujas, ele não conseguia encontrar nenhuma daquelas flores amarelas que antes o incomodavam tanto - não por sua cor sutil, mas pela palidez que ele mesmo tinha em sua existência tão pouco plausível.
A cada passada, o menino que não poderia se equiparar a um homem se sentia mais menino com seus tênis surrados e sua regata escura. Sentia-se perdido no meio da larguitude complacente que não parecia de fato compadecer de sua dor.
Sua respiração não parecia com uma respiração qualquer, na verdade poderia mais ser comparada com a de um cachorro faminto, cansado e sozinho. Sozinho. Não que a sofreguidão com a qual não sabia quem era não fazia com que ele mesmo se sentisse perdido dentro de seus tão escuros sonhos. Tão abstratos quanto gemas e claras num omelete - se é que poderia chamar um ovo mexido de omelete.
O ar soprava calmo, diferentemente dos outros dias de primavera, e o pequeno menino não sabia se seus cadarços faziam sentido batendo em seus pés e no chão. Não sabia se era correto tomar um refrigerante ou reverter sua situação emocional completamente confusa e sem nexo.
Talvez, a cada passo, os cadarços traçassem seu destino e ele não poderia questionar, afinal foram seus próprios pés que o levaram até ali - fora ele quem provocou todas as reações newtônicas que aconteceram em sua existabilidade ao mesmo tempo em que o vento levava qualquer escolha que ele poderia ter ao se deparar com a vida. Vida esta muito mais difícil do que de fato parecia ser quando era criança.
Ao olhar para cima, percebeu que a imensidão era muito mais imensa do que ele poderia supor. Muito mais densa do que as águas negras na qual ele escolhera se afundar.
Era mais do que o mais que ele poderia supor. Era quase pedir para que a imensidão o engolisse.
E engoliria. E engoliu.
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