segunda-feira, 17 de abril de 2017

A organização dentro do caos

Eu tenho a péssima (ou ótima fama) de ser intensa demais. Não, não. Não sou intensa como aquelas pessoas que se dizem intensas, mas depois saem correndo de mim (rindo de nervoso). Eu sou uma pessoa intensa do tipo que fica parada no meio de uma tempestade só pra ver o que acontece ou que pede para descer do ônibus antes de chegar no ponto certo só para observar uma noite bonita. Eu sou uma pessoa intensa do tipo que fica imaginando possíveis cenários hipotéticos para minhas possíveis mortes - o que pode acontecer com minha família e meus amigos se esse ônibus tombar e eu morrer? Será que alguém vai sentir minha falta? O que pode acontecer se eu for estuprada e morta ali na esquina? Será que irão me julgar? O que pode acontecer se eu perder um olho em uma manifestação ou meu quadril precisar ser substituído porque eu fui brutalmente espancada? Serei vilã ou heroína?
É. É nesse tipo de coisa que eu penso - o tempo todo na verdade. Às vezes, eu me pego parando de ler um livro para imaginar como ele se aplica a situação atual de um país x e se há possibilidade de ele se interligar com outro livor - inclusive, passei semanas analisando a relação entre Star Wars e Star Trek para concluir que George Lucas era um tremendo fã frustrado de Strar Trek que resolveu criar este universo com um roteiro melhor, personagens mais filosóficos e mais verba (mas isso é outro debate). 
O que eu quero dizer é que nós vivemos em um universo em que as pessoas estão concentradas demais em si mesmas, em se sentem intensas, e esquecem de perceber que, na verdade, não são. Não são intensas. Não sofrem de ansiedade nem de depressão nem pânico. As pessoas esquecem de perceber que, é claro, são especiais por serem quem são, mas, não necessariamente, são intensas. Não estou romantizando os distúrbios psicológicos, vejam bem, foi só um exemplo completamente desnecessário.
O que eu quero dizer é que a gente vive num mundo de pessoas reais e de pessoas reais que se sentem impostoras (vamos chamar essas pessoas de ansiosas). As pessoas reais sentem-se reais, elas conseguem se apalpar, elas conseguem realmente acreditar no que estão dizendo o tempo todo. As pessoas reais estão nos mais diversos tipos de lugares - desde militâncias organizadas de esquerda (leia-se indireta) até grande bordéis da notícia (VEJAM como quiserem). A questão aqui é que uma pessoa real se sente real apenas pelo fato de existir - ela, inclusive, se sente no privilégio de não realmente ter crises de existência, no máximo, tem crises para dizer que tem crises, sabe? Aí sim estamos falando de uma romantização dos distúrbios psicológicos.
Agora, os impostores, vulgo ansiosos, nunca se sentem parte realmente de alguma coisa. É como se eles sempre se sentissem faltando, como se não coubessem naquele ambiente - mesmo que tenham tudo a ver com aquele ambiente, mesmo que tenham dado duro para estar naquele ambiente. Eles simplesmente não pertencem aquele ambiente. De fato, não pertencem a lugar nenhum.
Os impostores vivem em um mundo único da sua mente incansavelmente pensante - nunca conheci gente que pense mais do que os ansiosos. Esses impostores tem a péssima mania de refletir demais, de analisar demais, de pensar demais. Tem a péssima mania de sentir demais.
E é aí que entra o nosso questionamento: será que realmente é uma péssima mania ou será que, simplesmente, é uma mania que não é mais cultivada na sociedade atual? Vivemos uma glorificada cultura do desapego, do deixe ir, do "vamos transar, mas não me ligue amanhã, ok?". Vivemos uma cultura em que é muito bonito não se apegar a ninguém e aí que entra a grande questão: será que quem vive assim, em sua maioria, gostaria de viver assim ou apenas se adaptou?
E, mais uma vez, é aí que está o grande ponto: impostores são péssimos em se adaptar, então, é claro que eles (nós) ficam para trás nesse sentido.
Talvez sentir demais, nessa intensidade imensa que faz o coração disparar até quando se está parado, seja péssimo por um lado. Sentir demais te deixa agoniado, não deixa? Mas quando há amor, ah, quando há amor esse sentimento explode de dentro de você para o mundo como quando você era criança e sua mãe te comprava aquele pirulito que você enfiava dentro do saquinho para dar o gosto (eu sei que você lembra daquela sensação). É um negócio tão seu, tão único, tão frágil.
Afinal, todo momento é frágil: é uma junção de fragilidades que, em instantes, irá, enfim, acabar. Momentos que formam a vida de uma pessoa intensa são, sem dúvida, muito mais interessantes do que momentos que são apenas momentos para alguém que vê a vida passar - e é aí que voltamos a teoria do amor de George Lucas por Star Trek. A moral, meus amigos e minhas amigas, está na intensidade que você coloca nas coisas - tudo depende da intensidade e, é claro, de um bom roteiro e uma imaginação fértil.