Quando eu era criança e ficava rolando na cama dos meus pais enquanto eles se arrumavam para o trabalho, pensava em como ser adulto era demais - mamãe tinha milhares de sapatos lindos que eu provava quando ela não estava em casa e a gente sempre ia ao McDonald's de quarta-feira.
"Meus pais são demais, eles sabem tudo", eu pensava. Eles nunca mostraram pra gente a dura realidade que enfrentavam - os problemas financeiros, as noites sem dormir, os estresses diários da vida de adulto. Na verdade, só consigo lembrar de uma infância cheia de risadas e momentos do meu pai bravo na sala porque estávamos contando como foi o dia e atrapalhando o jornal - mas, honestamente, acho que ele nem ligava de verdade pra nossa falação diária e interminável.
Hoje, tantos anos depois, quase com a idade que meus pais tinham quando eu era criança, percebo que, na verdade, eles não sabiam de tudo. Provavelmente não sabiam qual roupa soltava tinta e poderia manchar todas as outras na hora de lavar e talvez não soubessem realmente como fazer o melhor café do mundo que fazem hoje. Percebo que talvez o mundo mágico da comunicação em que eles estavam inseridos não fosse tão mágico, mas, mesmo assim, eles me incentivavam a escrever, entrevistar as pessoas com Meu Primeiro Gradiente e querer mudar o mundo sendo jornalista - meu pai sempre disse que essa seria a melhor forma de mudar o mundo.
"Você não vai gostar de fazer Direito, Vi. Você teria que defender pessoas culpadas também e acho que não se sentiria honesta fazendo isso, não é mesmo?", uma vez disse meu pai após uma sessão de "Legalmente Loira" quando eu decidi que queria ser advogada... e escrever.
Hoje, ao olhar para trás, me pergunto como que a gente chega onde a gente chega. Como a gente percorre um caminho tão grande, tão imenso, como a gente consegue se tornar adulto? Honestamente, não sei. Não sei de tantas coisas que mal consigo dormir direito à noite - justo eu, a virginiana sabe tudo da infância. Não sei quais roupas vão soltar tinta e meu café é horrível. Não sei como lidar com dias difíceis e, às vezes, só quero ligar pra minha mãe e chorar - mas sei que não posso desesperá-la com meu desespero. Não sei se as marmitas que eu fiz vão dar para o mês todo e não posso afirmar que não vou comer bolachas de água e sal no almoço porque fiquei com preguiça de cozinhar.
No fim, descobri que tudo o que eu achava que eu sabia, eu não sabia realmente. Ser adulto é um grande mar de "não sei". Não sei qual vai ser a cor do meu sofá e onde vou botar meu quadrinho feminista na parede. Não sei se esse mês vai sobrar verba pra comprar calcinhas e nem se eu vou ao cinema porque cinema pra adulto é realmente muito caro. Mas sei o gosto de chegar em casa e ser recebida com sorrisos de "que bom que você está de volta". Sei bem da sensação de sempre rir nas mesmas partes dos filmes com a minha mãe, tarde da noite, quando nós duas podemos sentar para rever filmes que vemos que revemos desde a minha infância. Sei do gosto do café do meu pai e de como ele sempre compra sonhos pra mim na melhor padaria da cidade quando venho visitá-los.
"A gente não tem muito, mas tem o suficiente", eles dizem.
Não sei como viver essa vida e nem sei se, na verdade, é ela quem vive a gente. Mas sei que existe amor e isso a gente sabe de sobra.
"Meus pais são demais, eles sabem tudo", eu pensava. Eles nunca mostraram pra gente a dura realidade que enfrentavam - os problemas financeiros, as noites sem dormir, os estresses diários da vida de adulto. Na verdade, só consigo lembrar de uma infância cheia de risadas e momentos do meu pai bravo na sala porque estávamos contando como foi o dia e atrapalhando o jornal - mas, honestamente, acho que ele nem ligava de verdade pra nossa falação diária e interminável.
Hoje, tantos anos depois, quase com a idade que meus pais tinham quando eu era criança, percebo que, na verdade, eles não sabiam de tudo. Provavelmente não sabiam qual roupa soltava tinta e poderia manchar todas as outras na hora de lavar e talvez não soubessem realmente como fazer o melhor café do mundo que fazem hoje. Percebo que talvez o mundo mágico da comunicação em que eles estavam inseridos não fosse tão mágico, mas, mesmo assim, eles me incentivavam a escrever, entrevistar as pessoas com Meu Primeiro Gradiente e querer mudar o mundo sendo jornalista - meu pai sempre disse que essa seria a melhor forma de mudar o mundo.
"Você não vai gostar de fazer Direito, Vi. Você teria que defender pessoas culpadas também e acho que não se sentiria honesta fazendo isso, não é mesmo?", uma vez disse meu pai após uma sessão de "Legalmente Loira" quando eu decidi que queria ser advogada... e escrever.
Hoje, ao olhar para trás, me pergunto como que a gente chega onde a gente chega. Como a gente percorre um caminho tão grande, tão imenso, como a gente consegue se tornar adulto? Honestamente, não sei. Não sei de tantas coisas que mal consigo dormir direito à noite - justo eu, a virginiana sabe tudo da infância. Não sei quais roupas vão soltar tinta e meu café é horrível. Não sei como lidar com dias difíceis e, às vezes, só quero ligar pra minha mãe e chorar - mas sei que não posso desesperá-la com meu desespero. Não sei se as marmitas que eu fiz vão dar para o mês todo e não posso afirmar que não vou comer bolachas de água e sal no almoço porque fiquei com preguiça de cozinhar.
No fim, descobri que tudo o que eu achava que eu sabia, eu não sabia realmente. Ser adulto é um grande mar de "não sei". Não sei qual vai ser a cor do meu sofá e onde vou botar meu quadrinho feminista na parede. Não sei se esse mês vai sobrar verba pra comprar calcinhas e nem se eu vou ao cinema porque cinema pra adulto é realmente muito caro. Mas sei o gosto de chegar em casa e ser recebida com sorrisos de "que bom que você está de volta". Sei bem da sensação de sempre rir nas mesmas partes dos filmes com a minha mãe, tarde da noite, quando nós duas podemos sentar para rever filmes que vemos que revemos desde a minha infância. Sei do gosto do café do meu pai e de como ele sempre compra sonhos pra mim na melhor padaria da cidade quando venho visitá-los.
"A gente não tem muito, mas tem o suficiente", eles dizem.
Não sei como viver essa vida e nem sei se, na verdade, é ela quem vive a gente. Mas sei que existe amor e isso a gente sabe de sobra.