quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Protagonista de uma outra história

Olhares. O mexer lento das mãos. Tudo fluindo pelo conduzir da melodia das flautas - o fluir... Um dançar mágico que conseguia transportar qualquer um para outra dimensão. A sensação de dor na expressão do rosto dele era tão nítida e palpável... A distância não era importante num palco que permitia que você sentisse tudo o que eles sentiam - as lágrimas ecoando pela melodia cadenciada. Tocando uma cultura, os tambores não pareciam reais, assim como a boneca que contava a história: Lobato a teria invejado em seus traços perfeitamente desenhados e seus gestos tão elaborados, delicadamente programados para parecerem reais. Parecia viva ao mesmo tempo em que parecia boneca.
As flores de cerejeira que caíram sobre o chão, tão delicadas e duas, traziam para dentro dos corações o início de uma lufada de amor que seria encenada do início ao fim. Era o teatro Kabuki: uma forma de encenar tão única e nobre quanto qualquer outra e capaz de provar que palavra e idioma não são necessários para se compreender um sentimento. Uma bravura sem igual dominava a a quase protagonista: uma bela japones num quimono rosa. Seu príncipe (o "real" protagonista, que interpretava também o vilão e o sacerdote) havia ficado cego por um terrível encantamento e cabia a ela salvá-lo.
Sem pensar duas vezes e com uma coragem diariamente encontrada pelo gênero feminino, ela partiu. Armada de sua bravura e de seu protagonismo que ia, a cada segundo, emergindo silenciosamente numa história que, no papel, não era sua. E venceu. Diante das belas flores de cerejeira.
É engraçado o quanto a arte pode nos ensinar sem que entendamos uma só palavra do que está dizendo. E como uma mulher, munida de toda sua boa interpretação e bravura consegue, em seu único papel, ganhar todos os corações na plateia.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Nas palavras do Nando

Já era tarde quando se deu conta de que não poderia mais voltar. As nuvens que cobriam o céu eram muito densas, o vento soprava alto e o coração... Ah, esse batia forte. A volta não era realmente cobiçada naquele pequeno e tenso espacinho - queria mais pensar, pensar e pensar. Mas por quê? Se o pensamento não faz a realidade?, muitos diriam. Porque dizer isso é o mesmo que dizer que nada se sabe - pensar faz, sim, muita realidade. É na ideia que começa uma ação, um sentimento, um tesão. É no "e se..." que todo conto começa a ser contado como uma história que pode ser dita, explicada ou interpretada. 
Já era tarde quando se deu conta de que o andar pra frente de que todos falavam não significava realmente um andar - era quase decolar, quando feito adequadamente, é claro. Bastava um toque de mágica - aquele que a gente espera sentado sob o céu denso, o vento alto. Não podia mais pensar no que já tinha sido, só no seria. Mas será? Será que não poderia mesmo pensar no que tinha sido se o que foi foi TÃO bom quanto tinha sido? Suspirou ao lembrar da primeira vez em que seus olhos se cruzaram - como se sempre tivesse sabido, soube que era a coisa certa ou que seria. Soube que o coração batia forte por aquela pessoa, que o tempo, ah, o tempo passava rápido quando estava ao lado daquela pessoa. Sabia das palavras do poeta, sentia com os sentimentos dele. Era como flutuar em suas canções e sugar todo seu romantismo enrustido - não subestimando o poder nato da mulher de ser autossuficiente, mas fazendo-a tão deusa de si que poderia amar qualquer um, mas o tinha escolhido. 
Já era tarde quando percebeu que não poderia mais abrir os olhos porque todo o amor que tinha guardado transbordava para fora sem palavras - transbordava como borboletas que se despendiam de seu corpo e voavam em busca de aventuras inéditas, em busca de coisas que as deixassem no ar... Os braços, as pernas, o coração. Tudo o que poderia pender pendia - ia em direção ao desconhecido ao mesmo tempo em que se aventurava em saber tanto de tão pouco explorado lugar: sabia que era o lugar certo, o lugar a ser explorado, consumido e amado... amado até o mundo acabar. 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

No topo da estatística

Não era igual. Todos poderiam dizer que era, mas nunca seria. O olhar não parecia o mesmo, o estilo era único. Mas não era notado dessa forma, com sua simplicidade sagaz - ous talvez, fosse notado demais. O cabelo, os traços, a fala - tudo apontava para alguém que merecia ser ouvido, mas, na verdade, no mundo, na vida, não merecia. Não era homem. Não era branca. Não era rica. Não era a tal. Ela era quem podia ser e quem queria - talvez não o quisesse no início, mas a vida mostra que cabe a nós brigarmos para sermos quem somos. Quem podemos ser. Talvez fosse apenas quem seria sem que fizesse de sua vida um algo mais para inglês ver, um além das expectativas que a sociedade julga com toda sua meritocracia. Era nada perante os olhos do mundo, mas sabia que significava alguma coisa para alguém - em algum lugar, era uma estatística.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A insignificância da dor

Seus passos eram rápidos. Certeiros. Quietos. Não produziam tanto som quanto poderiam se ela estivesse caminhando como gostaria - com liberdade. Caminhava para os outros e não para si. Para fora e não para dentro. Expressões vazias de um sentimento mal expressado. Eram só pés que tomavam o chão sem realmente saberem onde pisavam. Nunca souberam - e talvez nunca soubessem.
O céu sob sua cabeça também não dizia muito - era nublado, cinza e pouco feliz. Uma representação humilde de uma real sensação de solidão que poderia ser facilmente compartilhada com outras como ela. Sororidade. Uma palavra que traduzia muito... Que significa o abrir de portas da cumplicidade irmã e da compreensão que não precisava ser plena, só ser aceita - só caber dentro do peito pra servir.
Continuava em sua solidão de forma mais confortável agora, acompanhada pela palavra amiga e acolhedora que pouca gente conhecia de fato. Talvez por ignorância. Talvez por falta de oportunidade. Mas, muitas vezes, por pura discriminação. Porque ser ela não era relevante. Sua luta não era importante. Sua dor não significava nada. Não era considerada um problema social - não um problema social de verdade. Não havia fome em seu estômago. Havia, isso sim, um teto sob sua cabeça - mesmo que de lata, papelão ou alvenaria. Havia trabalho em sua vida e havia um homem - e se não houvesse, ah, então era uma perdida mesmo. Ali não havia problema social.
Seus olhos escuros fitavam o céu e a única coisa que ela via era uma imensidão que ela queria para si - queria vivenciar a plena liberdade do seu ser, seu existir. Queria um registro em sua carteira de trabalho. Queria aqueles 200 reais a mais que ela não tinha por ser mulher - porque poderia ficar grávida, poderia dar prejuízo quando tirasse licença. Mas ali não havia problema social.
O caminho que trilhava era o mesmo de muitas, mas sem tantas perspectivas. Seus pés poderiam levá-la para qualquer lugar como as asas faziam com os pássaros. Mas não podiam. Porque não. Porque ali não havia problema social.