sábado, 17 de maio de 2014

Equalize

A brisa daquele dia ensolarado estava quente e soprava como se não pudesse levar nenhuma lembrança embora - soprava como se quisesse guardar um segredo. Porque, estava óbvio, que aquilo era um segredo. Não era um sentimento como qualquer outro, uma pessoa como qualquer outra. Era algo tão especial que precisava ser escolhido para quem contar - caso contrário, poderia desaparecer no ar. Desaparecer porque não era real? Não. Desaparecer porque os momentos bons voam quando contamos para pessoas erradas, pessoas essas que fazem questão de soprar bem forte para que qualquer lembrança feliz se desfaleça no ar. Mas não aquele momento - aquilo era como um segredo concreto que nem o vento nem o tempo poderiam desfazer.
Fechou os olhos para sentir melhor o soprar dos ares - sentir aquele sentimento que, mais do que um simples tocar, era ser. Mais do que esperar, era fazer. E por que? Porque era assim que as coisas eram, sem mais porquê, só eram. Era de uma naturalidade estonteante - como respirar ou voltar pra casa. Era como o soprar da brisa que, ao contrário do que diria a física, não tem explicação.
Pra quê traduzir o que parecia intraduzível? Pra quê esperar por algo incerto se o certo estava logo ao lado?
Ao abrir os olhos novamente, Helena percebeu que todo o céu estava sem nuvens - nenhumazinha, nenduazinhas. Nada que pudesse encobrir seu olhos abertos novamente. Caminhava com tranquilidade pelo parque como todas as manhãs - como se o vento, o tempo e a vida pudessem caminhar junto dela, como cúmplices. Andava e andava, sem rumo pela vida. Quer dizer, pelo parque.
Sabia que quando o momento chegasse, ele simplesmente chegaria - como a fome. E, chegando assim de forma chegada, traduziria a fome em chocolate para saciar a si próprio como só as coisas gostosas da vida podem fazer. Chegando chegasse mais uma vez chegado, faria no seu coração um momento instantaneado de prazer - momento mais duradouro não haveria de haver.
Talvez mais uma vez tivesse que parar de divagar esses tão clichês devaneios - mas o que seria de sua própria vida sem a divagação de pensamentos abstratos, porém tão palpáveis? Instantes capitaneados pela vontade de ser mais, de ter mais. Mais palpacidade? Mais momentaneinadade? Não. Mais subjetividade. Sim, mais do que não se pode ver, mas se pode sentir. Mais do que só teve uma vez na vida - ou, quem sabe, nunca de fato tivera. Mais de algo que nunca teve. Sorriu ao pensar esse breve pensamento... tropeçando em si mesma - ou quem sabe numa pequena pedra - Helena desequilibrou-se até o chão, caindo um tombo surdo, sentindo a superfície dura antes de senti-la. Mas não sentiu.
-Você está bem? - Perguntou o homem com belos olhos expressivos. Olhos de poeta tão desnorteado que poderia ter tombado também.
-Talvez. - Ela respondeu sabendo que, enfim, o instante estava instantaneado, afinal, quem vê olhos tão desnorteados assim, tão de perto, acaba por desnortear-se também.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Los enamorados não têm tradução

É engraçado o funcionamento de cada idioma - cada palavra em uma língua tem um gosto diferente, como se a textura mudasse de uma para outra. Por isso, existem palavras que conseguem ter uma sentido muito mais amplo em determinados idiomas do que em outros - como "enamorado". Em espanhol, enamorado poderia ser traduzido de forma pobre como "apaixonado", mas a verdade é que significa muito mais do que isso.
Traduzir enamorado é o mesmo que traduzir o que é um sentimento complexo como é paixão. É simplesmente dizer: é isso, nos sentimos assim e ponto. Não há nada mais a acrescentar. Exatamente como um tradutor online. Entretanto, não é assim que as coisas funcionam na maioria das línguas originarias do latim - essas parecem sempre ter um significado subentendido que só os falantes nativos conseguem compreender, mas que não só eles conseguem sentir.
Enamorado é uma palavra que representa a felicidade, a constância de um sentimento inconstante. Enarmorarse é como viajar com o vento soprando quente e tangente em seu rosto - como se não houvesse leveza maior e você pudesse flutuar.
Como uma palavra tão complexa poderia ser traduzida como "apaixonado"? Talvez as pessoas simplesmente não entendam o prazer que se é dizer: "estoy enamorado por ti". Não entendem como algumas frases simplesmente não têm tradução.
De que valeria cada momento se não observássemos os detalhes atentamente? De que valeria enxergar sem realmente ver? É como naqueles dias bonitos, com céus límpidos e rosados – nós podemos escolher apreciar aquela beleza etérea durante algum tempo ou podemos optar por entrar dentro do escritório e trabalhar. Será realmente que valeria a pena sem observar os pequenos detalhes que fazem um diferença absurda?
Enamorase é como parar um minuto para gostar do arranjo do céu – é apreciar o momento de tal forma que ele se prolonga por muito tempo, como aqueles chicletes bacanas que prometem sabor duradouro.
A efemeridade da vida não atinge esses enamorados. Não os fazem duvidar da felicidade. Pelo menos, não naquele momento. Enamorarse é esquecer por alguns segundos que tudo pode dar errado. É entender que, infelizmente ou não, os momentos realmente valem mais. Afinal, a vida é feita de cada um desses pequenos sabores que, juntos, fazem uma esplêndida sonoridade ao longo do tempo.
Cada fração de segundo passada enamorando-se do outro é como mais um momento somado ao resto da eternidade.
Agora, retorno com a pergunta: como tanto conceito pode caber numa tão singela tradução? Simples: não cabe. Se enamorarse mal cabe num peito, como poderia caber em apenas dez letras?

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Igual a tudo na vida

Todas as nuvens têm o mesmo formato. A mesma cor. A mesma textura - se é que alguém já tocou realmente numa nuvem. Todas elas são simplesmente iguais. Iguaizinhas. Nada as difere, só o nome, a identidade. É como se cada uma delas só fosse outra porque diz ser e não porque aparenta ser.
Mas... se todas elas eram iguais, então isso significava que todas teriam o mesmo destino? Todas elas não poderiam escolher entre uma coisa e outra?
-Que pensamento tolo... - murmurou Helena. Deitada no parque a observar o céu, a menina de grandes olhos sonhadores. Mas não era de todo tão estúpido - muita gente pode realmente acreditar que tudo na vida é igual, como uma constante matemática que faz com que os gráficos tenham sempre as mesmas curvas.
Enquanto o sol ofuscava seu olhos por momento, Helena sentiu todo seu corpo irradiar - refletindo a luz do da brilhante estrela, a morena sabia exatamente o que sentia, sabia exatamente o que queria e sabia que nem todo mundo poderia querer o sentir aquilo. Sabia que não era uma constante e que não queria ser porque a vida não era matemática - talvez fosse física e química, mas, certamente, não poderia ser medida em um gráfico.
Levantando-se lentamente - a grama muito verde sob o sol, muito úmida por causa da chuva daquela manhã - Helena se deu conta de como tudo na vida é diferente simplesmente por ser... Simplesmente por não conseguir ser igual.
Não seria isso algo bom? Ser tão diferente a ponto se não poder nem por um segundo ser igual? Talvez.
Talvez as nuvens pudessem se sentir melhor agora sabendo que, mesmo sendo diferentes, todas elas pertenciam ao mesmo Grande Universo.

domingo, 4 de maio de 2014

A menina e o relógio - parte II

Nem sempre as mesmas histórias têm as mesmas personagens - muitas vezes, histórias semelhantes são contadas por gente diferente, com perspectivas diferentes, mas com temas incrivelmente iguais. Seria isso algo ruim?, ela se perguntava. Seria ruim que o tempo valesse para todos assim como não valia para ninguém?
Quando os segundos parecem minutos e os minutos parecem horas, todo mundo podia ser parecido - todos já se sentiram assim em algum momento de suas vidas... Mas, por quê? Por que o tempo parece algo tão importante pra nós? Porque nunca sabemos o que pode acontecer amanhã, respondeu a garota.
Enquanto observava aquelas luzes resplandescentes e solitárias, a menina de expressivos olhos castanhos se perguntava sobre a imensidão do mundo e a forma etérea como algumas coisas são. A forma como cada coisa parece ter seu lugar nessa vastidão, ao passo que parece não se encaixar em nada que tenha uma forma definida, como se pudesse ser delimitada.
As luzes rodavam por sua cabeça, o mundo tremia sob seus pés, mas seu interior estava completamente pacífico, como se nada mais importasse além do equilíbrio de cada um de nós. 
Naquele instante, ela sentiu toda imensidão do mundo dentro de si - como se as horas, os dias e os anos não importassem mais. Ali ela enfim entendeu o que queria dizer momento: palavras ditas ao vácuo que, mesmo sem que as escutem, fazem tanto sentido quando um grito alto e estrondoso. Compreendeu que momento é você se sentir cheio de si ao mesmo tempo em que sabe que pode se perder em si mesmo sem realmente sair o lugar.
Tudo naquela rua larga parecia fazer sentido agora: as brilhantes luzes dos prédios, as pessoas que conversavam animadas, o luar que mal aparecia sob a poluição: momento era se sentir repleto de felicidade, como naquela bela expressão em inglês "fulfilled". Completo. Preenchido. Momento era ela se sentir preenchida por uma felicidade inexplicável e sem razão de ser, mas que, mesmo assim, era tão sincera que poderia ser latente.
Ao sentar-se na beira da calçada para observar os prédios, ela enfim compreendeu que nem tudo pode ser compreendido, mas que é maravilhoso se sentir fulfilled.