A brisa daquele dia ensolarado estava quente e soprava como se não pudesse levar nenhuma lembrança embora - soprava como se quisesse guardar um segredo. Porque, estava óbvio, que aquilo era um segredo. Não era um sentimento como qualquer outro, uma pessoa como qualquer outra. Era algo tão especial que precisava ser escolhido para quem contar - caso contrário, poderia desaparecer no ar. Desaparecer porque não era real? Não. Desaparecer porque os momentos bons voam quando contamos para pessoas erradas, pessoas essas que fazem questão de soprar bem forte para que qualquer lembrança feliz se desfaleça no ar. Mas não aquele momento - aquilo era como um segredo concreto que nem o vento nem o tempo poderiam desfazer.
Fechou os olhos para sentir melhor o soprar dos ares - sentir aquele sentimento que, mais do que um simples tocar, era ser. Mais do que esperar, era fazer. E por que? Porque era assim que as coisas eram, sem mais porquê, só eram. Era de uma naturalidade estonteante - como respirar ou voltar pra casa. Era como o soprar da brisa que, ao contrário do que diria a física, não tem explicação.
Pra quê traduzir o que parecia intraduzível? Pra quê esperar por algo incerto se o certo estava logo ao lado?
Ao abrir os olhos novamente, Helena percebeu que todo o céu estava sem nuvens - nenhumazinha, nenduazinhas. Nada que pudesse encobrir seu olhos abertos novamente. Caminhava com tranquilidade pelo parque como todas as manhãs - como se o vento, o tempo e a vida pudessem caminhar junto dela, como cúmplices. Andava e andava, sem rumo pela vida. Quer dizer, pelo parque.
Sabia que quando o momento chegasse, ele simplesmente chegaria - como a fome. E, chegando assim de forma chegada, traduziria a fome em chocolate para saciar a si próprio como só as coisas gostosas da vida podem fazer. Chegando chegasse mais uma vez chegado, faria no seu coração um momento instantaneado de prazer - momento mais duradouro não haveria de haver.
Talvez mais uma vez tivesse que parar de divagar esses tão clichês devaneios - mas o que seria de sua própria vida sem a divagação de pensamentos abstratos, porém tão palpáveis? Instantes capitaneados pela vontade de ser mais, de ter mais. Mais palpacidade? Mais momentaneinadade? Não. Mais subjetividade. Sim, mais do que não se pode ver, mas se pode sentir. Mais do que só teve uma vez na vida - ou, quem sabe, nunca de fato tivera. Mais de algo que nunca teve. Sorriu ao pensar esse breve pensamento... tropeçando em si mesma - ou quem sabe numa pequena pedra - Helena desequilibrou-se até o chão, caindo um tombo surdo, sentindo a superfície dura antes de senti-la. Mas não sentiu.
-Você está bem? - Perguntou o homem com belos olhos expressivos. Olhos de poeta tão desnorteado que poderia ter tombado também.
-Talvez. - Ela respondeu sabendo que, enfim, o instante estava instantaneado, afinal, quem vê olhos tão desnorteados assim, tão de perto, acaba por desnortear-se também.