segunda-feira, 24 de março de 2014

Felicidade que não é de comer

Aquela dorzinha incômoda persistia - martelava ali no peito com uma cólera irritante. Talvez a dor passasse em algum momento, ela pensava. Talvez se conseguisse parar de pensar nela. Mas a verdade é que não dependia de Laura fazer a dor passar... Não dependia do que ela queria.
Ao sentar-se na grama e observar o céu pensou em como poderia ser mais fácil se as coisas tivessem permanecido como estavam - naquela época ela era feliz?
Feliz com seus belos olhos azuis a fitar um professor ministrar as aulas com destreza na universidade? Era feliz pensando apenas em trabalhos, projetos e comida? Talvez.
Quem sabe um tipo diferente de felicidade - uma alegria constante, completa e plena. Laura se sentia realizada de uma forma que poucos universitários se sentiam nos primeiros meses de curso - muitos ainda desistiriam, muitos perceberiam que aquilo não era o que queriam para vida toda.
Mas, e pessoalmente? Será que a vida acadêmica era a única que aquela garotinha tão frágil seria capaz de conduzir com sagacidade? Talvez.
Talvez ela simplesmente não fosse capaz de fazer nenhuma outra coisa direito.
Recomeçou a caminhar em direção ao portão - sua mãe precisava de leite para fazer o bolo daquela tarde... Bolo esperado, veja você. Porque chocolate sempre anima quem precisa ser animado - isso é um fato.
As calçadas estavam menos cinzas do que de costume e o sol brilhava intensamente. Aquele era um dia feliz. Um momento inesquecível como todos os pequenos momentos. E Laura se sentiu completa de novo - sentiu que talvez sua vida fosse plenamente satisfatória antes, mas será que satisfatório era o suficiente?
Ficar na zona de conforto não é algo que pessoas inteligentes apreciem e nossa pequena com certeza era uma pessoa inteligente - não genial, mas capaz de saber que chocolate com nozes é muito mais gostoso do que qualquer outro tipo de chocolate.
-Um litro de leite desnatado, por favor. - Pediu ao simpático padeiro. Ele sorriu pra ela e aquele foi mais um pequeno momento a ser apreciado.
Enquanto o homem colocava o leite em um saquinho, Laura se deu conta de que coisas que não são chocolate ou livros podem ser boas também. Coisas como o amor.
Mesmo sem poder ser ingerido, o amor é uma coisa temos que tomar diariamente - como uma droga ou café -, é algo que precisa ser degustado e curtido mesmo nos dias mais nublados.
Caminhando de volta para casa, a menina percebeu que algumas reviravoltas são boas. Alguns tropeços, alguns calos, alguns arranhões. Alguns, alguns, alguns. Algumas coisas merecem ser degustadas com calma, paciência e tranquilidade.
Afinal, como Scarlett disse anteriormente: "por algumas coisas vale a pena esperar".

sexta-feira, 21 de março de 2014

Coisas que nem o vento leva

  Naquele momento o chão não se perdeu como ela pensou que se perderia - aquilo já era esperado, almejado, sentido. Não que fosse algo bom, longe disso, mas era como um curativo: quanto mais rápido tirasse, menos doeria. 
  Não era uma decisão permanente, uma vontade constante ou um desejo pretensioso. Era algo que simplesmente tinha que acontecer em algum momento e seria melhor que acontecesse o mais cedo possível.
  Ela não sentia dor - seu estômago estava plenamente calmo e seus olhos não marejavam naquele instante. Na verdade, Scarlett estava convencida de que aquela seria uma situação passageira, algo que poderia ser diferente no dia seguinte, ou no outro, ou no outro... Algo que iria acabar um dia - nada que é ruim dura para sempre, assim como nada que é bom pode ser eterno sem esforço.
  Ao caminhar pelo vasto jardim de sua casa, a menina de longos cabelos loiros pensava que aquele momento era, de certa forma, decisivo: evitar adiar um período sempre pode torná-lo mais longo. Evitar sentir dor, evitar se deixar levar pela dor, sempre é pior.
  E por que? Simples: quando não nos permitimos sentir a dor, curtir aquela amargura e inintendimento, nós simplesmente prolongamos o inevitável. Sorrindo para sua própria sentença, Scarlett decidiu que era melhor sofrer de uma vez do que sofrer picado. Era melhor simplesmente desistir por um tempo do que continuar tentando de uma forma capenga, ruim e maldita.
  Talvez a dor seja a premissa do amor, ela pensou. Talvez depois de uma grande ausência ou um grande sofrimento, todo amor se torne maior - ou, pelo menos, a maioria deles. Talvez toda dor mereça ser plenamente curtida para que possa ser superada por ambas as partes.
  Sentou-se na grama entorpecida por seus próprios sentimentos e decidiu que iria esperar pelo dia de amanhã mesmo que o amanhã demorasse semanas para chegar. Por que? Porque tem coisas pelas quais vale a pena esperar.
  E "amanhã é um novo dia".
  

quinta-feira, 20 de março de 2014

O muito do pouco

  Enquanto caminhava por entre as pedras só conseguia pensar em como poderia parar de pensar. Talvez essa fosse uma tarefa relativamente simples para algumas pessoas, mas para Heitor esse não era o caso.
  Mais de uma vez parou para pensar em quão bonito estava o céu naquela manhã - era de um azul celeste tão forte que chegava a fazer  seus olhos doerem. O sol brilhava intensamente enquanto ele deitava na grama  e fechava os olhos - não poderia mais olhar para nada que o lembrasse dela.
  Não poderia olhar a luz por lembrar de como os olhos dela resplandeciam quando olhavam pra ele... Não poderia tocar porque ela adorava tocar suas próprias músicas que só faziam sentido pra ela. Talvez fosse esse o problema - talvez o fato de o mundo continuar a girar em questão da ausência dela fosse o motivo de nada fazer sentido.
  Por um segundo abriu os olhos e sentiu o choro preso na garganta. Sentiu uma vontade incontrolável de grita e pedir que toda aquela dor fosse embora - dor que a muito não sentia... Dor com a qual ninguém sabia realmente lidar.
  Levantou-se e recomeçou a andar pelo parque na esperança de que toda a agonia presa dentro de seu ser se esvaísse... de que o dia pudesse terminar ali e toda felicidade pudesse estar de volta. Mas o que é a felicidade? Seria um estado, um momento ou uma lembrança? Muitos não saberiam responder - ouso dizer que ninguém saberia o que é a felicidade de fato.
  Sorrindo, Heitor se lembrou de que sabia. Sabia que a felicidade era olhar naqueles profundos olhos castanhos... Sabia que a cada sorriso, ela iria fazê-lo feliz. Talvez a felicidade não tivesse a ver com tempo ou com onde, mas sim com quem. Talvez cada qual que pode ser feliz sozinho, pode também ser muito mais feliz conjunto.
  Talvez, mais do que um conceito, a felicidade tenha a ver com olhos, mãos e sensações. Talvez simplesmente ouvir possa fazer alguém feliz por uma fração ínfima de segundo.
  -Eu a amo. - Ele sussurrou como se dizer aquilo fosse a prova verídica da verdade. Como se nem todo o pleonasmo do mundo pudesse expressar o que o pleonasmo repetido naquela frase dita em voz alta pudesse dizer. Heitor não precisava falar que a amava. Não havia necessidade quando os atos dizem muito mais do que as palavras - por mais clichê que isso possa parecer.
  Mas ele disse. Ele disse para que o vento pudesse sentir e levar até ela. Disse porque tudo o que dizia respeito a ela o fazia feliz - mesmo as coisas tristes... Essas ele tinha vontade de retirar de dentro dela e pegar para si, pegar para nunca mais devolver.
  Talvez seja assim que é o amor: uma vida de silêncios balançada por um simples sussurro... Sussurro esse que pode quebrar esteriótipos, barreiras, mundos e etc.. Sussurro que vale mais do que mil palavras... Porque o amor é assim: pouca coisa que significa muito.