segunda-feira, 5 de junho de 2017

Mulher Maravilha: filme de super herói ou algo para silenciar críticas feministas?

Antes que vocês queiram me matar, por favor, leiam o texto até o fim porque eu tenho um propósito com este título polêmico. Quem me conhece sabe que eu detesto uma resenha - acho que é algo egocêntrico, sem propósito e presunçoso. No entanto, este filme me obriga a expressar minha opinião - como estou dizendo aqui, é a minha análise e não a verdade absoluta dos fatos, então, por favor, nada de comentários raivosos nem ameaças de morte, tudo bem? Vou misturar pontos positivos com pontos negativos, então, por favor, não venham para o embate sem entender do que se trata - e quando eu digo "entender do que se trata" eu digo: leiam de mente aberta, reflitam e, então, vamos debater.
Muitos podem se questionar sobre o porquê de eu estar me justificando tanto: bem, eu sou uma mulher, (que se diz) nerd e está fazendo uma crítica a um filme nerd sobre super heróis. Preciso dizer mais alguma coisa sobre meus motivos para tantas justificativas? Se precisar, então, pode parar de ler este texto porque você é uma pessoa (provavelmente homem) que não enxerga além de seus próprios privilégios. 
[CONTÉM SPOILERS]
Começo dizendo que: sim, eu amei o filme. De uma forma geral, eu acho que é um longa bacana, que tem momentos tensos de ação e que possui diálogos intrigantes. No entanto, toda a magia inicial do filme que parece que vai dar o tom da história vai se perdendo ao longo do tempo. 
Quando começamos a acompanhar a destemida Diana, princesa amazona concebida do barro (daqui a pouco voltamos a este ponto), única criança da ilha Themyscira, percebemos uma jovem que tem ânsia por lutar, por aprender, por se tornar uma verdadeira guerreira. Vemos uma comunidade matriarcal forte, que vive em harmonia até que (veja bem) um homem chega ao local por conta de uma explosão de força de Diana que, de certa forma, dá uma rompida na barreira que esconde a ilha. E daí a história começa a ir de mal a pior - isso do ponto de vista feminista, do ponto de vista cinematográfico, o filme é excelente. 
A questão que quero destacar é que: depois desse momento, o início do clímax do filme, da ação "de verdade", Diana passa a dividir seu protagonismo com Steve Trevor. Parece fofo? Parece. Meu lado romântico quase cegou o machismo por trás da divisão de protagonismo? Sim. Mas, então, voltei com os dois pés para o chão. 
A partir do momento em que eles se cruzam, Diana e Steve são uma dupla dinâmica - ela precisa dele e ele precisa dela. O filme tenta dar uma maquiada nessa situação colocando várias situações de perigo em que Diana se destaca, mas, não se engane: é só fachada. 
E aí, muita gente vai argumentar: mas filme de super herói homem também tem par romântico. Aham, de fato. Mas não dessa forma. Amo Batman e vou protegê-lo, no entanto, nenhuma de seus pares românticos dividiu o protagonismo. Nem Lois Lane em Superman. Não, não, não, não é a mesma situação.
Sim, isso me incomodou muito.
Outro ponto que me deixou bastante irritada é o fato de que os diálogos entre Steve e Diana sempre, SEMPRE, S-E-M-P-R-E, tem uma conotação sexual por trás: eles não poderiam conversar como dois parceiros? Não? Não rola? O único diálogo menos sexual que há entre os dois é quando estão nas trincheiras, mas, logo em seguida, vem a cena que eu gostaria de esquecer: Diana caminha no meio do campo de batalha como uma verdadeira top model. Mas, gente, pra quê? Sério mesmo? Ela é fodona, a gente sabe, mas essa cena foi totalmente para agradar macho quando, claramente, várias mulheres estavam presentes no cinema para aclamar nossa querida Mulher Maravilha.
O filme é excelente porque fala sobre o feminismo que vende: uma mulher bonita, padrão de beleza, que é forte (mas não tanto) e precisa da ajuda de homens para salvar o mundo. 
Isso tudo sem contar a chamada síndrome de Smurfete que o filme também trás a tona: Diana é a ÚNICA mulher no meio de tantos homens tentando salvar o mundo. Nem me venham mencionar a secretária que faz o papel de mulher burra e ingênua e não tem sequer um diálogo decente com Diana. 
E aí, muitos vem com o argumento: mas veja a época em que se passou o filme, em que se passou o HQ. Queridos, diversos filmes da Marvel e da DC tiveram adaptações péssimas para o cinema e ninguém utilizou esse argumento. Você provavelmente está argumentando assim porque está indignado com minhas críticas - e você pode estar indignado, não vou te condenar, não.

Agora, vamos a alguns pontos positivos que eu tenho muito prazer em destacar. Algumas amigas minhas criticaram o fato de Diana ter vencido tudo com o "amor" - acharam isso bastante machista. Por um lado, realmente, pode ser bem machista. Mas eu proponho uma outra visão dos fatos: Diana não foi gerada como uma criança qualquer - ela nasceu do barro, não da junção de um espermatozoide e um óvulo. Diana nasceu praticamente por combustão espontânea. Diana é filha de Zeus e ela estava predestinada a derrotar Áries, o deus da guerra, que corrompeu os seres humanos. Vocês já ouviram essa história em algum lugar? Eu já - no livro dos livros, a Bíblia. Pois é, vocês podem estar rindo loucamente dessa análise, mas eu vejo a imagem de Diana como uma salvadora do mundo (que é o que ela, de fato, é) que veio para lutar e combateu o "mal" com destreza e compaixão (se Jesus não lutou assim, então, não sei o que ele fez). Não estou falando de crenças, estou falando de histórias - e a Bíblia é uma puta história enorme cheia de mortes, batalhas, egoísmo, etc. A Bíblia é quase Game of Thrones só que de Deus rs. A análise pode até parecer desproporcional em um primeiro momento, mas essa mesma analogia é utilizada diversas outras vezes no cinema e com homens e ninguém fala nada: como em Harry Potter ou Senhor dos Anéis e etc etc etc.

E tudo isso torna o desfecho da história ainda mais brochante: POR QUE RAIOS STEVE TREVOR TEVE QUE MORRER PARA AJUDAR DIANA A SALVAR O MUNDO? Se não foi para os homens verem um pouquinho de protagonismo, então, eu não sei.

Mulher Maravilha é foda. Mulher Maravilha é um mulherão da porra e veio para empoderar diversas mulheres - mas o capitalismo patriarcal se aproveitou disso e fez um filme machista e rentável, isto é, algo que vai "empoderar" mulheres com um feminismo liberal, sem machucar muito o ego dos homens.