domingo, 12 de setembro de 2010

De alguma forma...

"... eu sei que você me sente ao seu lado. Pensou ele. Sua mão poderia estar tocando a dela, com um simples roçar de peles saberiam que a eternidade não seria o bastante para aquele amor. Os cabelos dela eram curtos mostrando que nunca se prendera a ninguém, não porque não havia tentando, mas porque as pessoas não mais persistem naquelo que sempre dá errado. Loiros e brilhantes, os cachos definidos que ali jaziam chamavam a atenção dele quando ela balançava a cabeça delicada sobre as mãos. Queria chorar, expressar toda a dor dentro de seu peito, mas não ali, não com pessoas que nem ao menos ligavam para suas lágrimas. A loira posicionou seus dedos naquele desenho azul, provavelmente da mão de uma criança, no vidro. Sua mão era delicada e, ao mesmo tempo, calejada pelos anos e anos segurando aparelhos cirurgicos com força. Entretando, o moreno apenas a via como algo que poderia completá-lo. Os olhos dela pousaram sobre aquela figura estranha - sua mão em cima de um desenho infantiu de tinta guache. E os olhos dele também - mas apenas por ser a mão dela. Ah, suspirou pesadamente, como se eu pudesse sentir. Eles olhavam juntos para mesma direção. Eram correspondentes. Completos e destinados. Apenas não sabiam disso ainda.
Pior do que fazer apenas uma vez, é nunca ter feito. Os olhos de nosso moreno eram tão azuis quanto os dela, mas só reluziam com tamanha intensidade quando podia sentir que seu fitar estava nele. Ela parecia um diamante - quanto mais seus sentimentos movimentavam-se ali dentro, como elétrons raivosos, mais ela cintilava aos seus olhos. Mais preciosa tornava-se ao seu coração.
Quanto mais ele desejava sentir seu toque, ansiava por seu gosto e mais ainda almejava seu amor, mais podia ter certeza de que, de alguma forma, ela o conseguia sentir. Conseguia entrelaçar seus dedos com os dele mesmo sem mexe-los. Conseguia corresponder ao seu olhar mesmo sem saber para que ele estava olhando. Era um destino quase incerto se juntassemos os dois. Entretanto, de qualquer forma não pode-se prever o dia de amanhã.
De que vale sentir o vento, se seu corpo não está encaixado no meu? Por que ter pés, se não para segui-la?, pensava o moreno imaginando como seria recostar sua cabeça cansada nos ombros macios dela e ver o mundo acabar diante de suas pálpebras caídas que nada mais poderiam ali representar.
Mas ela poderia o ver. Afinal, se Deus nos deu o livre-árbitrio, por que também não poderia dar a eles?"

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

When you say nothing at all

"'O sorriso no teu rosto
Me faz saber que você precisa de mim
Existe uma verdade nos seus olhos
Dizendo que você nunca irá me deixar
O toque da tua mão
Me diz que você vai me segurar aonde quer que eu caia
Você diz isso melhor quando não diz nada'
Mais do que qualquer pessoa, Helena sabia como era aquela dor - a dor de ver alguém partindo de perceber que o mundo poderia muito bem desabar que nada significaria, nada além do fim de tudo, fim da dor que ela sentia ali. Não exista alguma coisa sem ele ao seu lado, era como se seus longos cabelos escuros não precisassem ser penteados ou arrumados, porque ele não os apreciaria. Não fazia sentido passar perfume para nem ao menos sentir o respirar ofegante dele em seu pescoço. Era como dizer para o Sol que nunca mais brilhasse, afinal não fazia sentido. Nada fazia sentido.
Um suspiro pesado lhe irrompeu a garganta, era tão difícil respirar sem ar... Tão difícil viver sem vida.
'É maravilhoso como você consegue falar diretamente ao meu coração
Sem dizer uma única palavra, você consegue iluminar a escuridão
Nunca vou conseguir explicar
O que eu ouço quando você não diz nada'
E ele não dizia. Um dia antes de se separarem, Helena podia lembrar como se fosse há dez minutos atrás, seus dedos hábeis e tremulos a tocar a face dele. Tentava gravar cada traço, absorver cada expressão, cada emoção que ali passava. Melhor do que o que vemos, é o sentimos. Sentir quem se ama é mais incrível do que simplesmente saber-lhe a cor dos olhos. Ah, os olhos dele. Tão azuis que se podia mergulhar ali. Cada vez que se encontravam com os dela, um faiscar lhe percorria a pele e a cada toque seu, ela como um borbulhar de borboletas em seu estômago.
A verdade é que não existia Helena sem Tiago. Ao olhar pela janela viu jasmins no jardim verde em grande a sua casa. Borboletas cor de rosa ali dançavam comemorando o calor intenso que fazia. As nuvens não cobriam o céu, ao contrário do que se esperia de um dia tão colérico. Tudo jazia em mais perfeita ordem. Numa cumplicidade abundante. Algo lhe roçou a pele fazendo-a se eriçar por completo. Ao virar-se, os olhos cor de água dele encontraram-se com os dela. Um sorriso radiante se abriu em seus lábios rosados.
'Pensei que nunca viria', ela comentou levantando-se do encosto da janela. O sorriso de frente ao dela era tão intenso que chegava a ser surreal.
'Então acho que você devia pensar menos', Tiago respondeu aproximando-se. Seus corpos dançavam em perfeita harmonia, dançavam sem música e sem ritmo. Dançavam com a música do reencontro. Como ele poderia partir sem dizer 'Até logo'? Seria quase impossível suportar dois dias longe daquela pele macia e de sua voz melodiosa.
É sempre assim: as coisas nunca acabam em pizza. Mas talvez em beijos apaixonados."