"... eu sei que você me sente ao seu lado. Pensou ele. Sua mão poderia estar tocando a dela, com um simples roçar de peles saberiam que a eternidade não seria o bastante para aquele amor. Os cabelos dela eram curtos mostrando que nunca se prendera a ninguém, não porque não havia tentando, mas porque as pessoas não mais persistem naquelo que sempre dá errado. Loiros e brilhantes, os cachos definidos que ali jaziam chamavam a atenção dele quando ela balançava a cabeça delicada sobre as mãos. Queria chorar, expressar toda a dor dentro de seu peito, mas não ali, não com pessoas que nem ao menos ligavam para suas lágrimas. A loira posicionou seus dedos naquele desenho azul, provavelmente da mão de uma criança, no vidro. Sua mão era delicada e, ao mesmo tempo, calejada pelos anos e anos segurando aparelhos cirurgicos com força. Entretando, o moreno apenas a via como algo que poderia completá-lo. Os olhos dela pousaram sobre aquela figura estranha - sua mão em cima de um desenho infantiu de tinta guache. E os olhos dele também - mas apenas por ser a mão dela. Ah, suspirou pesadamente, como se eu pudesse sentir. Eles olhavam juntos para mesma direção. Eram correspondentes. Completos e destinados. Apenas não sabiam disso ainda.
Pior do que fazer apenas uma vez, é nunca ter feito. Os olhos de nosso moreno eram tão azuis quanto os dela, mas só reluziam com tamanha intensidade quando podia sentir que seu fitar estava nele. Ela parecia um diamante - quanto mais seus sentimentos movimentavam-se ali dentro, como elétrons raivosos, mais ela cintilava aos seus olhos. Mais preciosa tornava-se ao seu coração.
Quanto mais ele desejava sentir seu toque, ansiava por seu gosto e mais ainda almejava seu amor, mais podia ter certeza de que, de alguma forma, ela o conseguia sentir. Conseguia entrelaçar seus dedos com os dele mesmo sem mexe-los. Conseguia corresponder ao seu olhar mesmo sem saber para que ele estava olhando. Era um destino quase incerto se juntassemos os dois. Entretanto, de qualquer forma não pode-se prever o dia de amanhã.
De que vale sentir o vento, se seu corpo não está encaixado no meu? Por que ter pés, se não para segui-la?, pensava o moreno imaginando como seria recostar sua cabeça cansada nos ombros macios dela e ver o mundo acabar diante de suas pálpebras caídas que nada mais poderiam ali representar.
Mas ela poderia o ver. Afinal, se Deus nos deu o livre-árbitrio, por que também não poderia dar a eles?"