Olhares. O mexer lento das mãos. Tudo fluindo pelo conduzir da melodia das flautas - o fluir... Um dançar mágico que conseguia transportar qualquer um para outra dimensão. A sensação de dor na expressão do rosto dele era tão nítida e palpável... A distância não era importante num palco que permitia que você sentisse tudo o que eles sentiam - as lágrimas ecoando pela melodia cadenciada. Tocando uma cultura, os tambores não pareciam reais, assim como a boneca que contava a história: Lobato a teria invejado em seus traços perfeitamente desenhados e seus gestos tão elaborados, delicadamente programados para parecerem reais. Parecia viva ao mesmo tempo em que parecia boneca.
As flores de cerejeira que caíram sobre o chão, tão delicadas e duas, traziam para dentro dos corações o início de uma lufada de amor que seria encenada do início ao fim. Era o teatro Kabuki: uma forma de encenar tão única e nobre quanto qualquer outra e capaz de provar que palavra e idioma não são necessários para se compreender um sentimento. Uma bravura sem igual dominava a a quase protagonista: uma bela japones num quimono rosa. Seu príncipe (o "real" protagonista, que interpretava também o vilão e o sacerdote) havia ficado cego por um terrível encantamento e cabia a ela salvá-lo.
Sem pensar duas vezes e com uma coragem diariamente encontrada pelo gênero feminino, ela partiu. Armada de sua bravura e de seu protagonismo que ia, a cada segundo, emergindo silenciosamente numa história que, no papel, não era sua. E venceu. Diante das belas flores de cerejeira.
É engraçado o quanto a arte pode nos ensinar sem que entendamos uma só palavra do que está dizendo. E como uma mulher, munida de toda sua boa interpretação e bravura consegue, em seu único papel, ganhar todos os corações na plateia.
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