quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Manias

Às vezes quando olhamos para o lado, aquele menino dos cabelos escuros e dos olhos inexpressivos está a fazer desenhos imaginários em sua perna ou a garota arruivada não consegue parar de mexer o nariz de uma forma esquisita. Todos nós temos manias. Minhas duas são morder e me coçar. Eu posso não estar com coceira, mas ainda assim começo a me coçar. Sem dizer que não posso ver nada não tóxico (ou tóxico, dependendo do caso) que me coloco a roer em parar, fazendo formas com os dentes, moldando com a língua, brincando com qualquer coisa na boca. É, pareço uma criancinha de seis anos com essa mania, mas cada louco no seu quadrado.
O que quero dizer é que elas nos definem - são as manias que nos diferenciam dos outros, daqueles de quem gostamos ou não.
"Ele andava pelo corredor, seus olhos estavam mais escuros porque era manhã - todos os dias ao amanhecer, Rodrigo tinha os olhos castanho-escuros um pouco mais negros e de tarde, esses clareavam tanto que poderiam ficar castanho-claro. Seus lábios estavam entreabertos enquanto o menino fitava o nada e arreganhava a manga da blusa de frio. Qualquer um poderia dizer que ele queria ignorar a todos ali com aquela postura imponente, mas Carol sabia da verdade. Sabia que aquilo era só fachada, que no fundo ele simplesmente queria ter o poder de andar pelos corredores com todos lhe fitando e poder sorrir. Mas normalmente não temos essa coragem. Rodrigo não era o único.
Carol se encolheu um pouco dentro da sala torcendo para que o moreno não notasse seu olhar sobre ele. Torcendo para que ele continuasse a passear pelos corredores com aquele ar seguro, certo de si mesmo. Queria poder observá-lo mais um pouco até que pudesse descrever cada traço de sua faça, o contorno de seus olhos, o desenho de seus lábios. Queria gravar o tom de suas mechas, o som da sua voz e queria saber como ele piscava os olhos - lenta e demoradamente, concluiu. Nunca viu movimentos tão vagarosos, precisos, quase calculados. Se não fosse pela felicidade enorme que sentiu em saber que ele não a tinha percebido, teria ficado chateada por Rodrigo ter olhado em sua direção sem vê-la.
Um sorriso estonteante em seus lábios e então ele se aproximou. Se aproximou dela. Seus passos pareciam rápidos demais agora, tão perto, tão afobados. Porém o moreno não deixava isso transparecer. Suas sobrancelhas estavam contraídas como ele fazia quando ficava tenso e aquilo fez brotar um sorriso nos lábios da morena. Ele ficava nervoso ao vê-la, pensou cá consigo. Mais perto do que ela poderia imaginar ele segurou suas mãos com ternura e beijou-lhe o rosto. Um beijo de bom dia. Então, ele a havia notado.
E como havia, pensou o moreno. Como esquecer olhos como aqueles? Como esquecer o brilho que ali jazia ao fitá-lo? Não havia modos para fazer tais coisas. Não havia maneiras de não gravar-lhe a cor das mechas, não havia como não lembrar do toque daquelas macias mãos."
Manias. Cada um tem a sua. E os loucos que as possuem conseguem encontrar o caminho da sanidade através da loucura do outro.

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