terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Aleatório

As cordas encostavam em seus dedos como mágica - não parecia realmente algo racional, como se ela pensasse qual nota viria a seguir, só seguia. A correnteza de seus sentimentos conturbados não mais se seguia só, a inteiridão do seu ser único apenas era, apenas existia - era como estar, só que diferente, mais pleno e completo. A plenitude da imensidão que caminhava dentro dela mesma era tanta que poderia transbordar... Transbordar plenitude? Transbordar sentimento. Transbordar ser, mas tendo sempre em mente que as cordas, aquelas tocadas do início ao fim da música, ainda lhe pertenciam, ainda lhe eram e soavam. 
O tilintar dos fás no ar, as continuidades que pareciam ter um fim a cada esquina, fim que persistia, mas não continuava o mesmo - mudava o tilintar. O encostar de cada nota em seu delicado ouvido a fazia ter certeza de que tinha tomado a decisão certa, o sim acima do talvez.
Cada mi representava mais um segundo da pequena libertação diária que há muitos anos não experimentava. A dependência da próxima nota sempre pareceu próxima. Mas e quando toca-se no aleatório? Quando as mãos, simples e puramente, encontram as bem delineadas cordas do violão e seguem seu caminho descompassado, mas só seu? 
O ar, aquele que lhe bateu o rosto, demonstrou saber mais dela do que as próprias notas do torto destino. Era ar de pureza e uniquez. Um algo mais, algo além do que a própria Julie poderia supor que aquele violão queria que ela encontrasse. Era ar novo, fresco e renovador. Renortador. Único. Único como suas mãos, seus desejos e sua capacidade de seguir em frente - numa playlist tão complexa como essa, a única maneira de continuar foi colocando no aleatório.

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